Por que as matrículas no ensino superior pararam de crescer

Recessão e crise do ensino médio são algumas das causas da queda no número de matriculados em cursos de graduação

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Pelo terceiro ano consecutivo, o número de matriculados no ensino superior cresceu abaixo de 1%, mostrou o mais recente Censo da Educação Superior divulgado pelo Inep.

Em 2016, as instituições de ensino receberam quase três milhões de novos estudantes, o que representa um crescimento de 0,2% em relação ao ano anterior, após seguir uma trajetória de crescimento médio de 5% ao ano na última década, sendo de 62% no total entre 2006 e 2016.

As instituições privadas ainda abrigam a grande maioria dessa população, 75,3% delas, apesar da leve queda de 0,3% nas matrículas entre 2015 e 2016.

Os dados revelados pelo Censo acenderam ainda outro sinal de alerta entre as autoridades educacionais ao mostrar que, nesse ritmo, dificilmente serão cumpridas as metas do Plano Nacional de Educação (PNE), entre elas a que prevê elevar a taxa da participação de jovens de 18 a 24 anos no ensino superior dos atuais 17,8% para 33%.

A recessão econômica foi apontada pelo ministro da Educação, Mendonça Filho, como uma das possíveis causas dessa pequena retração de matriculados nas instituições privadas.

Durante a apresentação do Censo, o ministro afirmou que, em épocas de crise, os jovens priorizam a busca por trabalho, muitas vezes incentivados pela família, para contribuir com a renda do lar, deixando a educação em segundo plano.

Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, reforça o peso do cenário econômico nesse freio, já que “a crise econômica afetou a disposição das famílias a pagar pelo ensino superior”, diz. E ressalta ainda as mudanças para o acesso aos programas de financiamento estudantil como outro responsável. “O governo deveria deixar o sistema privado funcionar segundo as regras de mercado, sem muitas intervenções. Deveria manter o ProUni como está e estabelecer regras claras para um sistema de financiamento como o Fies. Esse sistema deveria ser adotado somente para novas matrículas, para alunos mais pobres e com boas notas no Enem”, sugere.

Efeito cascata

Outro ponto importante que explica a baixa adesão ao ensino superior no país pode ser a alta evasão do ensino médio. Naercio acredita que a reforma agora em debate poderia ajudar a diminuir o abandono dos estudos nessa etapa e consequentemente no terceiro grau. “Para aumentar as matrículas seria necessário melhorar a educação básica, melhorando o desenvolvimento infantil nas famílias mais pobres”, analisa.

Em coletiva de imprensa para a apresentação do Censo, o diretor de Estatísticas Educacionais do Inep, Carlos Eduardo Moreno, também chamou a atenção para a evasão no ensino médio como barreira para a expansão no ensino superior, colocando esse como o maior desafio na educação brasileira hoje. Moreno reforçou o coro daqueles que acreditam que uma reforma no ensino médio pode melhorar esses índices, ao dar mais segurança aos estudantes em suas escolhas profissionais. Escolhas, aliás, que continuam se concentrando nas carreiras de Direito, Administração e Pedagogia. As três representam 51% das matrículas.

EAD: oportunidade promissora

Apesar da desaceleração nas matrículas totais, o ensino a distância destacou-se ao responder por quase um terço das novas matrículas de 2016. Atualmente, 18,6% do total de estudantes de ensino superior estão matriculados em cursos a distância, índice que chega a 41% nos cursos tecnológicos.

O resultado coloca a modalidade entre as protagonistas na extensão do acesso ao ensino superior no país. Segundo Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, o desempenho da educação a distância é compreensível nesses tempos de crise e ainda mais no atual cenário de escassez de financiamento estudantil. O curso EAD é mais barato que o curso presencial e o aluno não precisa gastar com deslocamento e alimentação.

Capelato ainda lembra que a flexibilização das regras de concessão de EAD também interferiu nesse resultado. Nos últimos dois anos, o MEC acelerou o credenciamento de novas instituições e polos, o que aumentou a oferta de educação a distância e, consequentemente, de alunos frequentadores da modalidade.

Entre outros destaques, o Censo ainda evidenciou que a diferença entre o rendimento médio daqueles com diploma de nível superior e dos que possuem até o nível médio continua acentuada, na proporção de 2,4 vezes maior, uma das maiores entre os membros da OCDE. Mas, para Naercio, essa diferença não chega a aprofundar as desigualdades sociais do país, já que a expansão recente das matrículas ocorre entre as famílias menos ricas, classe média baixa, o que tende a diminuir a desigualdade e aumentar a mobilidade educacional. “O diferencial de salário por ensino superior é mais alto no Brasil porque a demanda por pessoas com ensino superior é bem maior de que a oferta, especialmente nos cursos de medicina e engenharia.”

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