Mapas para viver experiências

A vida é uma viagem. De trajetos diversos, atalhos salvadores e voos da fantasia

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Livros existem para nos ensinar a viver. O restante (ler para derramar erudição, descobrir boas citações para um trabalho acadêmico, ou ter uma decoração “culta” em casa) são subprodutos que valem o que são. Mas o que vale mesmo é a leitura que se transforma em experiência e esta, em sabedoria.


O Atlas da experiência humana, dos holandeses Louise van Swaaij e Jean Klare, publicado no Brasil em 2004 (pela PubliFolha), mapeia a vida humana em suas diferentes dimensões. São cartas geográficas da existência. Nelas existem cidades e aldeias, florestas, rios e praias, estradas e ferrovias, portos e aeroportos, ilhas, desertos, planaltos e planícies, tudo isso metaforizado.
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A vida é uma viagem. Navegamos no Mar da Abundância, ou subimos a Montanha do Trabalho, ou enfrentamos o Deserto do Desespero. Trajetos diversos, momentos em que nos sentimos perdidos, reencontro do caminho, atalhos salvadores, a busca de fontes inspiradoras, sem falar nos sempre arriscados voos da fantasia.


Para nos localizarmos
De onde viemos e para onde vamos? Perguntas existenciais sobre vindas e idas. Estamos subindo pelo Rio da Inspiração que passa pela Terra Fértil. Há uma cidade, chamada Boa Ideia, que fica por perto. Seus habitantes pescam por ali e nos contam verdades simples e mentiras inteligentíssimas.


No Lago da Reflexão tomamos nosso banho antes de prosseguir. Suas águas são claras e revigorantes. Saímos de lá, pensativos, e fomos abordados pelos moradores de uma cidade próxima, cujo nome nos deixou intrigados. Em Susto, todos andam de olhos arregalados e cabelos em pé. Queriam saber se nós éramos humanos ou fantasmas. Logicamente afirmamos que éramos professores e alunos em busca de nosso destino.


Nosso objetivo era chegar até o aeroporto Ícaro, mas antes tivemos de visitar a cidade Ilusões. Havia nessa cidade uma loja onde comemos saborosos sonhos. Finalmente, dentro da aeronave, decolamos em direção a novos territórios. O piloto, muito jovem, queria subir até o sol, ou talvez ainda mais longe, mas conseguimos mostrar-lhe que melhor seria nos levar para as terras do Conhecimento.


Diferentes rumos
Antes de chegar à Sabedoria, uma bela cidade com praias fantásticas, é preciso subir e descer a Cordilheira da Educação. Travessia perigosa. Antes ainda estivemos numa metrópole, Ignorância, orgulhosa de seu trânsito caótico e violência desenfreada. Lá, conversamos com o novo prefeito, nascido e criado na periferia de Ignorância. Ele nos contou que um de seus planos era liquidar com a Floresta da Curiosidade, não muito distante dali, e transformá-la num deserto sem surpresas.


Mas existem outras localidades interessantes nas terras do Conhecimento. Na planície da Ciência, por exemplo, há um vilarejo muito simpático, Especulação. Talvez nunca chegue a se tornar uma cidade tão grande como Ignorância, pois seus habitantes pensam demais. E falam demais. Levantam muitas hipóteses e vivem imaginando novas possibilidades. Um lugar inspirador, mas era hora de partir!


Mais ao norte encontramos a Ilha da Clareza. Suas quatro cidades mais conhecidas são Pesquisa, Visão, Revisão e Julgamento. Todos os seus moradores conversam e escrevem com extrema lucidez. Chega a ser irritante, mas devemos admitir que nessa ilha de excelência há muita gente capacitada para a docência e para a produção acadêmica.


Mais andanças
Saímos de Clareza e fomos em direção ao Leste, onde nasce o sol. Teríamos, porém, de percorrer territórios problemáticos. A cidade de Fofoca não nos deixava dormir em paz. Deboche é um município em que impera o desrespeito. Quando tentamos contar a nossa história, fomos vítimas de piadas sem graça, trocadilhos infames e todo tipo de zombaria.


Fomos caminhando. No Pântano da Deriva quase ficamos atolados. Graças a muita determinação, chegamos ao outro lado. E quase sucumbimos, não afogados na água parada, mas enforcados na cidade da Artimanha. Como pode haver, no mapa da vida, lugares assim? Pois existem, e temos de saber onde estão. Para evitá-los!


Dias e dias andando, para finalmente alcançarmos uma próspera cidade chamada Planos. Lá, fizemos muitos, pensando no futuro. Perto de Planos há uma cidade, bem menor, chamada Oportunidade. Foi para lá que nos encaminhamos. E de lá saímos revigorados. Fomos para o Sul, passamos a noite em Coragem. Acordamos cedo e de lá fomos palmilhando o mapa. Visitamos Sorte, Ousadia, Negligência, Decisão, Confiança, Bombástico, Dever etc.


Dois municípios muito interessantes são Aprender e Desaprender. Rivais desde o dia em que nasceram (isso já faz um bom tempo), essas cidades têm oferecido ao mundo filósofos e pedagogos em constante busca. Fato curioso é que, embora vivam em conflito (jamais armado, apenas verbal), há uma circulação muito grande entre as duas localidades. O pessoal­ de Aprender passa muitos dias em Desaprender, e a população de Desaprender volta e meia aparece em Aprender. Há um comércio intenso entre as duas cidades.


Ainda estamos a caminho. Queremos dar a volta ao mundo, conhecer lugares famosos como a cidade Mudança, a Floresta das Cores Mutáveis e o Oceano da Paz, onde existe uma ilha paradisíaca chamada Ilha da Beleza.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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