Luta contra o estigma

Alunos provenientes de famílias de baixa renda têm de superar uma difícil barreira social: aquela que os coloca como destinados ao fracasso escolar

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Jéssica Unias de Lima, de 16 anos, sempre penou para tirar boas notas em matemática, disciplina em que tinha mais dificuldade de aprender novos conteúdos. A deficiência foi  superada com as aulas de reforço ministradas nos finais de semana na escola pública em que estuda. A estudante também criou o hábito de buscar ajuda fora da sala de aula, entre professores, amigos mais instruídos e até mesmo vizinhos. Atitudes simples, mas que exigiram de Jéssica uma mobilização maior do que a convencional –  ela cuidava de dois irmãos menores para que a mãe pudesse trabalhar. A faxineira Marinês Unias de Lima, de 35 anos, é arrimo de família e hoje se orgulha de ver a filha recém-colocada num estágio da Suzano Papel e Celulose. Para ingressar na empresa, Jéssica passou por um processo seletivo que exigiu conhecimentos em exatas. “Eu levava os meninos para a biblioteca comigo e explicava a eles a importância de aprender”, conta Marinês. “Embora não estivesse presente no dia a dia, minha mãe sempre me incentivou ao proporcionar as condições para ter acesso ao material necessário e realizar os trabalhos escolares”, relata a filha.

Casos como o de Jéssica – que venceu as sequelas da baixa escolaridade da família e quebrou o ciclo de miséria provocado pela falta de acesso à formação e à informação – contrariam a tendência majoritária de ambientes marcados pelas carências culturais, alimentares e linguísticas estarem intimamente ligados ao fracasso escolar. “Trata-se de uma explicação cômoda e preconceituosa”, diz a pedagoga Silvia Colello, professora de psicologia da educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. “É como se chegasse um paciente portador de HIV a um pronto-socorro e o médico deixasse de atendê-lo devido às suas condições”, compara. 

Mas estatísticas de diferentes instituições como Fundação Getulio Vargas, Ibmec Rio de Janeiro e Universidade de São Paulo apontam para uma tendência cruel: filhos de pais analfabetos têm apenas 1% de chance de se graduar. Entre os filhos de pais com ensino superior completo, 60% concluem a universidade. No outro extremo, 34% dos filhos de analfabetos não chegam a aprender a ler e a escrever. “É preciso criatividade para superar essa desigualdade”, avalia Silvia. “Quem nasce em ambiente letrado está condenado a aprender e com maior facilidade por conta das experiên­cias vividas, que são pedagógicas.”

Para a professora, a educação é um processo que exige um conjunto diversificado de saberes e é papel da escola oferecê-lo a quem não tem oportunidade dentro de casa. Nesse sentido, aponta como estratégias decisivas a aproximação entre corpo docente das escolas e representantes das famílias, a formação continuada dos professores e a promoção de atitudes que sensibilizem os alunos para o conhecimento. “Com o ensino sucateado e os professores despreparados, muitos encontram em canais alternativos a diversidade necessária para crescer”, diz.

É a impossibilidade de encontrar em casa e na escola referências de pessoas com um bom acúmulo de capital cultural que induz à busca em outras instâncias, como ONGs, agremiações e até igrejas. É o caso do administrador de empresas Thiago da Conceição de Paula, de 24 anos, que buscou o trabalho voluntário da comunidade. “Quando concluí o ensino médio, não tinha condições financeiras e nem aprendizado suficiente para ingressar numa universidade e isso me frustrou muito”, conta. Sem enxergar muitas saídas, desistiu da graduação naquela ocasião. Quando ingressou, como multiplicador, no projeto Educomunicação, sentiu que alguma mudança aconteceria. Iniciativa da Universidade de São Paulo (USP), o objetivo principal do Educomunicação é o crescimento da auto estima e da capacidade de expressão das pessoas. “Percebi que cabia a mim mudar a história da minha família e fui atrás de bolsas de estudo”, recorda-se.


Reação em cadeia


O passo dado por Thiago afetou a esposa, Maristela Mendes de Paula, 21 anos, hoje aluna do 4º ano de administração da Universidade Zumbi dos Palmares. Na época em que prestaria vestibular, Maristela não tinha tempo para estudar, já que trabalhava. Perdeu as contas de quantas vezes trocou o almoço por um sanduíche deglutido sobre os livros. O empenho da filha levou Maria Eunice Mendes Bertalha a despertar. “Passei do sermão à prática”, diz a dona de casa, que retomou os estudos para concluir o ensino médio e, aos 44 anos, se formou em matemática.  “Tive mais condições de orientá-la porque me abri para um novo mundo”, conta. Hoje, ela leciona para um grupo do supletivo. Agora, quando está em sala de aula, prega que a persistência é fundamental. “O conhecimento é a única coisa definitiva na vida”, destaca a professora, que persegue o sonho de cursar a segunda faculdade, a de licenciatura em física.


Mudança gradual


É visível que nas duas últimas décadas a população de baixa renda avançou em indicadores como poder de consumo e acesso à educação. Em números absolutos, a classe C já representa o maior número de alunos em colégios privados, segundo o Data Popular, especializado nos públicos C, D e E. “O percentual de filhos que estuda mais que os pais chega a 68% nessa faixa, para a qual a internet, a televisão e enciclopédia em fascículos são os principais condutores de informações”, diz o sócio-diretor da consultoria, Renato Meirelles. “Colocar as crianças na escola passou a ser melhor negócio para essas famílias, que entenderam a educação como agente para sua ascensão.”

Em sua dissertação de mestrado, escrita no Departamento de Educação da PUC de Minas Gerais, Adriana Alves Pereira foi além. O trabalho, orientado pela professora Leila de Alvarenga Mafra, membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre a Profissão Docente, revela que muito desse sucesso pode ser explicado com a mobilização dos alunos em relação ao que a escola mostra ser possível alcançar. Com uma meta educacional como passar de ano, no vestibular ou estudar em determinada escola, fica mais fácil enfrentar os problemas e buscar alternativas. “Pouco adiantam as estratégias educativas que a família cria para favorecer a escolarização de uma criança se ela própria não se envolver, não se motivar na condução desse processo”, avalia Leila.


Questão multifatorial

O estudo, cujo nome é “Sucesso escolar de alunos dos meios populares: mobilização pessoal e estratégias familiares”, disseca o cotidiano de seis diferentes alunos de famílias de baixa renda que ingressaram no concorrido Colégio Técnico da Universidade Federal de Minas Gerais. Na conclusão do texto, destaca-se a diversidade de fatores que atuam ou contribuem para aumentar ou dificultar as chances de sucesso escolar. Processo esse entendido como sair-se bem na escola, ou participar, com sucesso, do jogo escolar, algo que envolve várias dimensões: intelectual, cultural, social, moral e relacional. “As pesquisas mostram semelhanças nos processos de superação das dificuldades escolares dos alunos dos meios populares, mas também, que são criadas estratégias singulares, individuais, pessoais.”

As fontes de apoio são amplas e variadas. Quanto maior o capital cultural incorporado antes do ingresso à escola fundamental e ao longo da escolarização, maiores as chances de se obter êxito. “Não existe uma fórmula mágica e nem uma relação direta entre esses fatos, mas uma tendência estatisticamente avaliada em vários países, inclusive no Brasil”, observa Leila.

Tanto Leila quanto Silvia acreditam que há um processo educativo que ocorre pela simples participação ou acesso aos mais diferentes meios, como viagens, práticas culturais, leituras de revista, jornais, livros diversos, acesso a bibliotecas, ao computador, a teatro, cinema, e diferentes formas de lazer, grupos de estudo fora da escola e apoio de colegas e amigos, entre outros. Por isso, é importante conhecer o histórico de vida das crianças: não se pode esperar uma sensibilidade homogênea para o aprendizado.

Há ainda outro obstáculo a ser superado: o analfabetismo de resistência, problema pouco debatido que não escolhe classe social. Trata-se de um bloqueio bem exemplificado pelo caso de um aluno que se fechou ao aprendizado por causa da postura do pai, um alto executivo que ligava diariamente do exterior com a seguinte mensagem: “Aprenda logo a ler e a escrever para a gente se comunicar por e-mail”. Esse aprender significava para o garoto deixar de falar pessoalmente com o pai para se comunicar usando o computador. Reverter algo assim requer sensibilidade do educador.

A escola faz a diferença

O Brasil ainda tem 14,2 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Destes, 95% têm 25 anos ou mais. Ou seja, 13,5 milhões de brasileiros não sabem ler ou escrever um simples bilhete.

A coisa fica mais crítica pelos números do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf). Realizado desde 2001, o Inaf contempla quatro níveis de alfabetismo: analfabetos absolutos, alfabetismo rudimentar, alfabetismo básico e alfabetismo pleno, sendo considerados analfabetos funcionais as pessoas que se encontram nos dois primeiros níveis. Em sua última edição, em 2007, o indicador revelava que, entre a população brasileira de 15 a 64 anos, mais de 30% eram analfabetos funcionais. Desde o início deste século, o nível de alfabetização competente não sobe.

Para a professora Inês Kisil Miskalo, coordenadora do Programa de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna, enfrentar o analfabetismo não é estritamente uma questão de políticas educacionais, mas de políticas multissetoriais. “Também é preciso resgatar os papéis”, diz. “A relação da criança com o estudo vem do valor que a família dá à educação, mas a escola precisa promover o envolvimento dos pais no processo e fortalecer a posição da família”, explica.

Portanto, a educação precisa ser entendida como um processo de condução. A escola precisa se abrir para a comunidade, e, a partir do que o aluno já conhece, ampará-lo no caminho para que ele chegue ao ponto em que precisa chegar.

A análise está em linha com o pensamento do professor Célio Cunha, consultor em Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “A escola é, sim, a responsável pelo encaminhamento do aluno quando as famílias não têm como orientá-los”, diz. “Os pais lutaram para colocar seus filhos na escola, uma instituição na qual acreditam, e agora é preciso um retorno da infraestrutura docente, uma estratégia que demanda uma reformulação das políticas de financiamento e de gestão.”

Muitas vezes, alerta Cunha, esse professor que atribui toda a responsabilidade do desempenho do aluno à sua família saiu de um meio igualmente precário: são filhos dos pais de baixa renda e perpetuam todos os estigmas. “É preciso valorizar mais a formação do que o diploma.”

Em meados de 1880, Rui Barbosa defendia essas mesmas ideias. Acreditava que o método de valorização do indivíduo em seu processo de aprendizagem, assim como a formação reflexiva do aluno e não somente o desenvolvimento de sua habilidade de memória, democratizaria a educação. A instrução das classes populares garantiria o desenvolvimento social e alçaria o Brasil ao grupo dos países desenvolvidos na época. O país ainda não chegou lá. Mas é inegável que nunca procurou tanto os meios para isso como agora.

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