Lições do real

Aposto em escolas que podem não ser perfeitas, mas que sabem acolher seus alunos e a eles propiciar aprendizagens e experiências significativas

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O que você faria para mudar a educação brasileira? A interrogação proposta pela minha editora ressoava em minha mente. Minha memória recapitulava lições de mestres que me antecederam no ofício de pensar a educação. Mas nada parecia satisfatório. Foi então que me ocorreu o óbvio: não era em ideias – novas ou velhas – que deveria buscar a resposta, mas em experiências concretas de escolas reais. Não no pensamento isolado de um indivíduo, mas na lenta construção coletiva de uma boa escola. Uma escola em que, como professor, teria orgulho de trabalhar. Numa escola a que, como pai, não hesitaria em confiar minha filha.


E a escola que escolhi como exemplo de resposta não se encontra em um rico país distante, mas a algumas centenas de metros de minha casa. Ela não é guardada por seguranças com ternos escuros, nem à sua saída se enfileiram imponentes carros a atestar o privilégio econômico daqueles que a frequentam. Nela adentram tanto os filhos dos mais graduados professores da universidade, como de seus mais humildes funcionários. Todos recebidos com a mesma dedicada seriedade de Márcia ou com o mesmo generoso sorriso de Ana. Com o abraço de Tiago, com o carinho de Sisino; que não são professores, mas que educam e participam da vida daquelas crianças. Nela a formação educacional não precisa esperar pela sala de aula e pelo professor: ela se espraia pelos corredores, invade a quadra, penetra no quintal.
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A excelência da Creche Central da USP nos ensina que a qualidade da educação não advém do simples somatório de características pessoais dos professores que a compõem, mas emerge de uma cultura institucional comprometida com a formação de toda a sua equipe. Ela nos ensina o valor de uma instituição que abre espaço para o novo, mas que sabe que a experiência dos professores que lá trabalham há décadas é elemento imprescindível para a estabilidade de uma proposta pedagógica. Ela nos ensina, enfim, que educar é uma tarefa artesanal que exige que o profissional da educação se revele em seu trabalho e que por ele se responsabilize. Por isso, a Creche Central é uma escola pequena, com pouco mais de 200 alunos; o que possibilita que cada criança possa vir a ser reconhecida em sua incontornável singularidade pessoal. Nela há espaço para ler livros, mas também para jogar bolinha de gude. Há avaliações, há projetos; mas há também a certeza de que mais do que a transmissão de informações e conhecimentos a experiência escolar é um poderoso fator na constituição do sujeito.


São esses elementos – aparentemente simples – que podem nos guiar na difícil tarefa de pensar as condições para que a escola brasileira mude para melhor. Elementos que colhemos não na imaginação de reformadores pedagógicos ou no pragmatismo míope dos economistas, mas na prática de profissionais da educação que criam escolas viáveis e comprometidas com a formação escolar de jovens e crianças. Escolas que podem não ser perfeitas, mas que sabem acolher seus alunos e a eles propiciar aprendizagens e experiências significativas. Escolas que levem crianças, como Moana, a acordar em plena manhã de domingo e, com seus olhinhos ainda semicerrados, perguntar: “Pai, hoje é dia de escola?”.

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII jsfc@editorasegmento.com.br

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