Leitura: antes, mais e melhor

Como suscitar a liberdade da leitura se a liberdade pode escolher a não leitura?

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Ler é atividade no sentido mais forte da palavra “atividade”. Porque nos ativa. Põe em ação nossas capacidades interiores, para cultivar uma visão de mundo, desencadear decisões existenciais e influenciar nosso comportamento.


Há centenas de livros elogiando a leitura. Quem os escreve tem motivos para defender a leitura, entre os quais (este motivo encontra-se mais ou menos velado) o próprio fato de escrever e necessitar de leitores!


Os leitores que não precisam ser motivados, pois já descobriram essa fonte de alegria, sentem-se, em geral, instigados a louvar e difundir a prática da leitura. Toda minoria acaba se entregando ao trabalho apologético de convencer os outros, pela palavra e pelo exemplo.
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Mas por que… minoria? Teoricamente, a família e a escola são os lugares ideais para multiplicar e aperfeiçoar leitores. Deveríamos receber estímulo e orientação constantes, para ler antes, mais e melhor.


Contudo, a realidade não está com nada. Não confirma a teoria. Ou por outra: famílias e escolas, e mais particularmente as escolas, parecem não corresponder aos sonhos dos intelectuais, às teses dos acadêmicos, aos argumentos dos formadores de opinião e às propagandas dos órgãos governamentais.


Os professores leem?
A pergunta incomoda, claro. E a resposta decepciona. Sabemos, por algumas pesquisas e pela convivência, que a leitura não é um ponto forte na vida docente brasileira. Nossos professores, quando leem, se concentram no absolutamente indispensável à profissão ou se dedicam a temas paralelos: autoajuda, religião, relatos sentimentais, esoterismo, amenidades…


O efeito já está visível na causa. Nossos alunos pouco se interessam pela leitura substancial, pois não veem em seus professores a paixão contagiante pelos livros mais relevantes, mais instigantes, e não recebem de seus mestres os critérios que deles esperávamos ouvir.


A exemplo de seus professores, e à margem da escola, os alunos descobrem autores e títulos que lhes despertam, sem nenhum acompanhamento didático, curiosidade e interesse. São livros de aventuras, narrativas fantásticas, histórias de suspense e romances cuja linguagem e temática se afastam do que se propõe tradicionalmente nas cobranças oficiais: Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Saramago, José de Alencar, Eça de Queirós!


Essa de querer impor leituras é ação de curto fôlego. Entre um Queirós e uma Suzanne Collins há um abismo. Agora, se os professores soubessem construir algum tipo de relação entre dois mundos tão diferentes, isso sim seria um milagre nada suave! Seria a chance de descobrir nos seus alunos autênticos (e vorazes) leitores.


Sugerir ao invés de coagir
Na palavra “sugerir” esconde-se o verbo latino gerere, que é repleto de atividade. Significa “carregar”, “transportar”, “executar”, “movimentar”, e encontra-se presente no interior de outras palavras como “gestão”, “gesto” e “gestar”.


A leitura é um movimento, dos olhos, da mente, da nossa capacidade de gestar conceitos, gerar imagens. Mas é um movimento livre. Por isso, impossível obrigar alguém a ler. Querer obrigar alguém a fazer algo (por mais virtuoso e belo que este algo seja) é degenerar a educação, convertendo-a em coação, ação que vai coando as pessoas, como na metalurgia: fazendo correr o metal fundido para dentro de um molde. Toda coação tem por fim a modelação.


Mas como educar para a leitura de modo sugestivo? A pergunta é antiquíssima. Como suscitar a liberdade da leitura (leio um livro para ver se me livro… parodiando Adélia Prado) se a liberdade pode escolher a não leitura? Como orientar a liberdade para que sejam feitas as melhores escolhas? E quais são estas escolhas melhores?


A hora da estreia
Sempre é hora de estrear coisas boas. Uma coisa boa é diffusiva sui, ou seja, tem força própria, vence as resistências sem violências. Se a leitura deixa de ser “lei dura” e se transforma em encontro promissor com a palavra escrita, maiores chances todos nós teremos de realizar boas escolhas. Se o tema das conversas é um livro, se a livraria é lugar para passear, se autores são convidados a visitarem a escola, se a biblioteca está de portas e braços abertos para seus frequentadores, a atmosfera será sugestiva por si mesma.


O pré-requisito a ser respeitado me parece evidente. Alguém precisa estrear. Alguém tem de começar, antes, mais e melhor, a fazer da coisa boa uma coisa real. A leitura deixará de ser simples moldura; será agora atividade pela qual configuro minha vida, e minha vida de leitor falará por si mesma, levando outros alguéns a tomarem iniciativa.


Cada professor que lê antes, mais e melhor, mais e melhor influencia seus alunos. Nem todos. Jamais ao mesmo tempo. Mas vai somando leitores multiplicadores, e estes vão tecendo manhãs, tornando a vida menos seca, menos casmurra, ensaiando visões.
As mais convincentes formas de incentivar a leitura nascem de uma convicção anterior e interior. A convicção pessoal, sua, minha, de que ler é ganhar tempo.

*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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