Lições da instituição mais inovadora dos EUA

Vice-reitora da Arizona State University (ASU) revela em entrevista exclusiva à Ensino Superior como a universidade aplica seus projetos voltados ao bem-estar social e como o corpo docente passou a ser empreendedor

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Altamente questionado nessa época de rápidas transformações, o diploma de ensino superior continua sendo muito importante para os indivíduos conquistarem um melhor padrão de vida. Também é por meio da educação que os governos conseguem diminuir as desigualdades sociais.

Essas concepções norteiam muitos dos projetos da Arizona State University (ASU), eleita três anos consecutivos como a instituição de ensino mais inovadora dos Estados Unidos pelo U.S. News & World Report. Sua vice-reitora, Stefanie Lindquist, veio ao Brasil a convite do Semesp para participar do 20º Fnesp.

Em entrevista à Ensino Superior, Stephanie fala, entre outros pontos, sobre como as instituições podem ousar mais e superar a aversão ao risco e sobre a importância do ensino híbrido para a nova geração de estudantes. Confira os principais trechos.

A Arizona State University (ASU) se posiciona como uma instituição que pretende, entre outros objetivos, transformar a sociedade e conduzir pesquisas orientadas para o uso prático. Como vocês buscam alcançar esses objetivos?

Nós também realizamos pesquisas básicas [pesquisa científica focada na melhoria de teorias científicas], mas grande parte da nossa pesquisa visa produzir resultados que possam ajudar as pessoas em suas vidas reais. Por exemplo, criamos uma biblioteca digital movida a energia solar para ser usada em regiões remotas do mundo. Ainda que a pessoa esteja no meio do deserto do Saara, ela consegue acessar uma biblioteca de livros digitais usando o dispositivo que desenvolvemos; isso indica que podemos fazer uma escola em qualquer lugar do mundo.

A ideia nasceu de um projeto de pesquisa e foi viabilizada por alunos e professores que, juntos, trabalharam para encontrar uma solução. Esse resultado foi alcançado porque havia uma busca por soluções e acho que esse é um dos principais aspectos da nossa dinâmica de pesquisa.

Embora nem sempre, nossas pesquisas têm o objetivo de criar algum tipo de melhoria científica, algum tipo de melhoria social, alguma melhoria governamental que possa ajudar as pessoas no mundo real.

Além disso, estou convencida de que os membros do corpo docente são melhores professores quando eles são professores e descobridores do conhecimento.

Queremos que os nossos alunos também façam descobertas enquanto se preparam para serem aprendizes por toda a vida – e eles vão ter de se preparar para essa realidade. O mundo está mudando tão rapidamente e tão exponencialmente que os alunos têm de estar sempre em um processo de aprendizado contínuo. E se eles tiverem contato com professores que estão aprendendo, descobrindo e identificando novas informações e novos conhecimentos, eles mesmos se sentirão confortáveis com esse processo de descoberta. Por isso, acho que pesquisa e ensino estão muito conectados entre si e essa é a nossa visão na ASU.

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Vice-reitora da Arizona State University defende que os alunos precisam se preparar para serem aprendizes por toda a vida

A senhora afirma que o acesso ao ensino superior tem grande potencial para reduzir a desigualdade de renda. De que maneira a ASU vem contribuindo com esse processo?

Há evidências incontestáveis ​​de que um diploma de bacharel aumenta substancialmente o padrão de vida de um aluno. Nos Estados Unidos, a diferença entre a renda de um graduado do ensino médio versus um detentor do grau de bacharel é significativa, de milhões de dólares ao longo da vida. Não sei o valor exato, mas é um número muito alto.

Os estudantes de baixa renda, os alunos que são os primeiros de suas famílias a entrar em um curso superior, podem melhorar substancialmente a vida de suas famílias se obtiverem o grau de bacharel. Dessa forma, podemos levantar um grupo inteiro de camadas da nossa sociedade que de outra forma não teriam como ascender, como ter acesso a um padrão de vida melhor.

Ao mesmo tempo, ao movermos os seres humanos para cima por meio da educação, eles se tornam mais proficientes no mercado e mais desejáveis ​​para os empregadores. As máquinas farão muito mais; a tecnologia deve acabar com muitos empregos. Mas os seres humanos podem ser elevados. O nosso foco é expandir o acesso ao ensino superior às comunidades menos favorecidas que, de outra forma, não receberiam um diploma.

Um dos desafios da ASU é diminuir as tensões causadas pela polarização política. Como vocês lidam exatamente com esse problema? Nós também estamos atravessando um momento complicado, com a sociedade muito dividida.

No ano passado, iniciamos uma série de palestras no campus para abordar essas questões e falar sobre a liberdade de expressão e a troca aberta de ideias no campus. Tivemos muito cuidado para garantir que tivéssemos oradores de todos os aspectos do espectro ideológico, que foram convidados a abordar o assunto, a realizar conferências no campus sobre liberdade de expressão, diversidade ideológica, diversidade intelectual.

Temos uma liberdade de expressão muito forte garantida pela Primeira Emenda da nossa Constituição, por isso temos uma política de liberdade de expressão muito forte no campus para garantir que os alunos se sintam à vontade para compartilhar suas ideias, e não sufocados. E nós temos um corpo discente muito diversificado.

Os estudantes que vêm para a ASU encontram literalmente 10 mil estudantes internacionais, estudantes das mais diversas origens, oriundos dos mais diversos contextos. Nós realmente achamos que o ambiente em si é propício para reduzir as tensões entre pessoas de diferentes origens.

E essas ações têm dado resultado?

Tem uma coisa interessante sobre a ASU. Muitos outros campi dos Estados Unidos estão sob tensão, vivenciando episódios de violência e manifestações de estudantes contra determinadas pessoas, oradores e representantes, que, em alguns casos, têm sido até impedidos de entrar nos campi. Nós não tivemos tais problemas na ASU. Temos uma associação estudantil extremamente ativa e fazemos com que os alunos gastem o dinheiro que arrecadam.

Eles construíram um complexo esportivo inteiro com recursos próprios, além de um novo centro de atividades estudantis. O fato de termos um corpo estudantil muito integrado e engajado realmente mostra que a ASU está fazendo algo certo quando se trata de uma troca aberta de ideias entre alunos e professores.

No 20º Fnesp, a senhora falou que um dos obstáculos à inovação é a aversão ao risco. Como as instituições podem superar essa aversão, tendo em vista as restrições orçamentárias e o cenário econômico adverso? Seria o caso de reservar uma parte do orçamento para os projetos experimentais?

Bem, essa é uma boa pergunta. Esse desafio está presente em muitas instituições onde trabalhei e estudei. Muitas vezes, o corpo docente só enxerga os administradores como provedores de recursos. Eles olham para o presidente, para os reitores, para os diretores e pensam “onde está o dinheiro?”.

O que fizemos na ASU foi levar o corpo docente a entender que eles devem encontrar seus próprios recursos, seja buscando doações ou financiamento de fundações e órgãos do governo, para viabilizar suas pesquisas e projetos. Em vez de cobrarem os recursos dos administradores da instituição, eles falam “Veja, pode ser que você não tenha muitos recursos, mas vamos ver se conseguimos encontrar um meio para financiar nossos projetos?”.

Foi com essa mudança de mentalidade que conseguimos diminuir essa aversão ao risco. Os professores se tornaram mais empreendedores e percebem que estão livres. Nós dizemos: “Se você tem um projeto, vá em frente e arrume meios para viabilizá-lo. Tente buscar recursos e conte também com a nossa ajuda”.

Sempre ajudamos um pouco, mas muitas vezes a verba vem de recursos externos. Por exemplo, temos uma cientista que está trabalhando com a Nasa para enviar um satélite para um asteroide. Ela queria construir um satélite e foi buscar o apoio da Nasa. Agora temos 60 milhões de dólares para esse projeto. Esse é o tipo de atitude que supera a aversão ao risco.

Uma das apostas da ASU é a educação híbrida. Por que essa modalidade de ensino se tornou interessante para vocês?

Há muitas maneiras diferentes de ensinarmos aos alunos, de usarmos as tecnologias educacionais e de mudarmos as salas de aula. Uma delas é a metodologia da sala de aula invertida, que, por meio da tecnologia, leva os alunos a assistirem às aulas on-line antes de virem para a sala de aula, onde usam o tempo para resolver problemas. Essa é uma forma de educação híbrida.

Mas, além dela, temos situações em que os alunos fazem alguns de seus cursos completamente on-line, ainda que estejam morando no campus. Digamos que você é um estudante e trabalha 20 horas por semana – e a maioria dos nossos alunos trabalha de uma forma ou de outra. São alunos trabalhadores. Mas eles sabem que podem fazer duas aulas no campus e duas aulas on-line e, dessa forma, fazer sua programação de estudos, uma vez que as classes on-line são assíncronas. Ou seja, eles podem assistir às aulas a qualquer momento e conciliar os estudos com a necessidade de trabalhar. Isso é muito importante.

Vários palestrantes do Fnesp disseram que os estudantes estão mudando. Aquele aluno tradicional, que vai para a faculdade aos 18 anos e termina aos 22 anos, não é mais a norma. Tornou-se comum ter estudantes que passam anos terminando a faculdade, que trabalham, que têm filhos e mais um monte de coisas para acomodar em sua rotina. Quando existe a educação híbrida, torna-se mais fácil para eles estudarem e concluírem o programa.

Assista:

Por que os cursos on-line estão crescendo nos Estados Unidos

 

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