Ideais esquecidos

Enquanto o Estado hebreu comemora seu 60º aniversário, a educação nacional enfrenta a crise de identidade mais grave de sua história

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Situada ao lado de grandes gramados, quiosques e com uma biblioteca tinindo de nova, a escola Ironi Tet tem ares de campus americano. No entanto, essa instituição voltada à população dos bairros desfavorecidos do sudeste de Tel-Aviv é antiga. Desprezada pelos ribeirinhos, foi entregue nas mãos de Abi Bebvenihti, tido como um bombeiro da educação pública israelita.

"Nosso sistema nacional atravessa uma fase ruim", explica ele. "Mas não esqueçamos que nosso país se desenvolveu em condições atípicas: precisou integrar em tempo recorde mais de um milhão de imigrantes vindos do ex-bloco soviético ou da Etiópia, gerir períodos de atentados, absorver disparidades socioeconômicas. Hoje, uma criança israelita em cada três vive na pobreza. Isso pesa na eficácia do sistema escolar."

Bebvenihti fala com conhecimento de causa. Passou nove anos na direção do Shevah Mofet, outra escola de Tel-Aviv, freqüentada por uma maioria de jovens oriundos da imigração russa – entre os quais sete morreram num atentado em 2001. Sob sua tutela, a antiga escola técnica ameaçada de fechamento triplicou seu efetivo discente, criando uma reputação de excelência nas matérias científicas.

Uma história de sucesso que o Estado hebreu, que festejou seu 60º aniversário em 8 de maio deste ano, gostaria de poder multiplicar. Mas, por enquanto, o balanço do sistema educacional israelita não permite. O começo do ano escolar de 2007-2008 foi marcado por uma greve de dois meses dos docentes israelitas, que começam sua carreira com um salário bruto de 5.300 shekels (US$ 1.282). Isso representa uma degradação sem precedentes da profissão no país, acompanhada de forte impacto sobre os resultados.


Declínio


Kedma (2002), de Amos Gitai, retrata a chegada dos judeus vindos da Europa para a Palestina: absorção de imigrantes no pós-guerra marcou as raízes do sistema de ensino de Israel

Israel, que em breve deve tornar-se membro da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estava classificado na 39ª posição entre os 57 países avaliados em 2007 quando dos testes do Pisa. Na década de 1960, a educação do Estado hebreu suplantava Reino Unido e Estados Unidos no First International Mathematics Study (Fims realizado entre 1963 e 1967). Esse declínio também se constata nos testes do Progress in International Reading Literacy Study (Pirls), sobre a qualidade da leitura dos alunos do fundamental, que colocam Israel no 31º lugar entre 45 países. Para muitos, esse desempenho resulta das restrições orçamentárias impostas pelos ministros da Educação que se sucederam nos últimos dez anos.


Uma política austera


Entre 2001 e 2005, o orçamento da educação sofreu um corte de 4 bilhões de shekels e 250 mil horas de aulas viraram fumaça. Essa política austera afetou principalmente a escola pública laica judaica e suas classes superlotadas (média de 40 alunos), cuja importância, inclusive numérica, não pára de decrescer num sistema escolar ultra-segmentado.

Só no setor judaico (separado do árabe), a educação se divide em quatro ramos principais: o "público laico", que agrupa 62% dos alunos judeus do fundamental e do 2º grau, contra mais de 70% em 1995; o "setor religioso" (18%); e os estabelecimentos não-oficiais" – essencialmente escolas religiosas ultra-ortodoxas – que totalizam 15,6% dos alunos judeus, uma progressão de 120% na última década. Um último segmento se refere às escolas voltadas ao estudo da Torá, para 4% do efetivo.

Esse quadro não tem muito que ver com a visão do fundador do Estado hebreu, que sonhava com "uma escola para um só povo". "David Ben Gourion dava uma grande importância à lei de 1952 que instaurava um sistema de educação pública. A seus olhos, ela não era menos fundamental do que a lei que permitia a todo judeu emigrar para Israel", lembra Orit Ichilov, sociólogo da educação na Universidade de Tel-Aviv. Seu desejo era despolitizar a escola. Mas, obrigado a amainar sua coalizão, o primeiro-ministro do jovem Estado teve de abrir uma brecha à corrente ultra-ortodoxa, tida na época como minoritária.
 
Esse erro de apreciação modificou bastante a cara da escola israelita. Sob a influência do partido Shass, as escolas ultra-ortodoxas tornaram-se um grande sucesso junto às famílias de baixa renda de origem sefardi, e detêm um quarto dos alunos judeus do primário. Quando a qualidade do setor público começou a baixar, o campo laico quis beneficiar-se da brecha já aberta, só que em seu favor. Esse impulso se traduziu por escolas alternativas de todo gênero, levando a uma privatização disfarçada do sistema.

Hoje, o Estado hebreu tem 25 escolas democráticas, com 10 mil alunos no que corresponde aos ensinos médio e fundamental brasileiros. Estabelecimentos em grande parte subvencionados pelos poderes públicos. A última delas abriu as portas há um ano, em Givat Olga, perto de Hadera. "O público israelita é muito receptivo aos projetos de sociedades experimentais", diz Yaacov Hecht, diretor dessa unidade. Mas essa paixão por educação alternativa é também percebida como a contrapartida da crise que atravessa o sistema educativo nacional. Prova disso é o sucesso crescente das escolas antroposóficas, ou das primárias bilíngües judaico-árabes, postas em funcionamento há dez anos.

"Nos anos de 1990, o Ministério da Educação autorizou a criação de uma rede de escolas paralelas a 1.000 shekels mensais (cerca de US$ 242), inacessíveis às classes médias, e o setor público se tornou o parente pobre do sistema", analisa o escritor e jornalista Avirama Golan. "Os pais são muito intervencionistas. Exigiram que o currículo escolar tivesse matérias ‘práticas’ como direito e economia, supostamente mais rentáveis do que gramática ou cultura geral. Em todo lugar, o número de horas reservadas às matérias fundamentais está recuando. E quando o Estado não atende às necessidades, os diretores das escolas se voltam aos filantrópicos, às fundações ou às associações privadas." Assim, vimos recentemente a introdução de programas financiados pelo milionário Shari Arison em certas escolas primárias, ou ainda o desabrochar dos estabelecimentos religiosos sustentados pelo magnata dos diamantes Lev Leiev.

Essas ingerências não surpreendem. "No plano do conteúdo, o sistema israelita faz bonito nas matérias facultativas. Mas o tronco comum é aniquilado por esse leque de opções", explica o universitário Yitzhak Kashti. Porém, a situação não chega a ser dramática. Israel conseguiu pôr em ordem uma educação pluralista e multicultural, com uma taxa de freqüência até a conclusão de 93%, desempenho inaudito para um país de imigração maciça. No entanto, o país se engajou numa corrida às reformas: iniciado pelo atual ministro da Educação, Yuli Tamir, o plano Novo Horizonte tentará fazer com que os docentes sejam reconquistados pelo Estado. Uma necessidade premente quando a metade dos professores desiste da carreira em seus cinco primeiros anos.

(Tradução: Mônica Cristina Corrêa)

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