Hackers no Inep

Jovens desvendam dados educacionais do Brasil e criam soluções para entregar essas informações de forma mais fácil para toda a comunidade escolar

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Divulgação
As equipes vencedoras levaram para casa prêmios de até R$ 5 mil para serem aplicados no desenvolvimento do produto
Desde que entrou em vigor a nova Lei de Acesso à Informação, em 2012, uma enorme quantidade de dados públicos tornou-se disponível para a população. Mas, para o público leigo, nem sempre é possível transformar os dados em informação útil – principalmente em áreas como a educação, em que há uma infinidade de indicadores e avaliações. E quem vai ajudar a desbravar esse mar de documentos, planilhas e números são jovens hackers na faixa dos 20 anos. Eles dedicaram um fim de semana no mês de abril para “desvendar” os dados educacionais do Brasil e criar aplicativos, softwares e sites que consigam entregar de forma mais fácil essas informações para toda a comunidade escolar.


> Confira vídeos do 1º Hackaton aqui e aqui


O 1º Hackathon de Dados Educacionais, ou maratona hacker, foi promovido pelo próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), com apoio da Fundação Lemann.  Em um passado recente, o termo hacker era utilizado para designar os experts em tecnologia que usavam seu conhecimento para invadir computadores e sistemas, roubar senhas ou dados e utilizá-los em causas nem sempre nobres. Mas nos dias atuais o conceito se transformou. Boa parte dessa turma está envolvida em projetos colaborativos com foco na democratização do acesso à informação.
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“Eu sinto que tivemos um salto da sociedade olhando para os dados e ressignificando isso para algo muito maior. Iniciativas como o Hackathon permitem que sejam criadas coisas fenomenais que às vezes a gente não tem perna para fazer”, aponta Estevon Nagumo, pesquisador do Inep e um dos organizadores do evento. As equipes vencedoras levaram para casa prêmios que variaram entre R$ 2 mil e R$ 5 mil para serem aplicados no desenvolvimento do produto.


A quantidade de informações disponíveis sobre a educação do país surpreendeu os participantes, acostumados a desvendar bancos de dados de todos os tipos. A maioria sequer sabia que eles eram produzidos. “A iniciativa tinha como objetivo que as pessoas olhassem para a base de dados do Inep. Muitas vezes falta um diálogo melhor com a sociedade, e com a universidade sobre como utilizar mais essas informações”, reconhece Estevon.


Café e energético
Os participantes, divididos em oito equipes, passaram cerca de 36 horas debruçados sobre os dados, programando os softwares e aplicativos a serem desenvolvidos. Seguindo ao pé da letra o conceito de maratona, a maioria não dormiu entre o sábado e o domingo para cumprir o cronograma e trabalhou à base de café e energético. Mas um dos maiores desafios, segundo os participantes, foi conseguir encontrar a forma correta de trabalhar os dados sem incorrer em análises distorcidas. Na sexta-feira, antes de começarem os trabalhos, os hackers assistiram a palestras de técnicos do Inep e atores da área da educação sobre o delicado uso dos dados de aprendizagem. O foco da maratona eram os dados da Prova Brasil e o recado repassado aos participantes era que evitassem os tradicionais e polêmicos rankings de melhores e piores escolas.


Foi desse espírito que nasceu o projeto vencedor da maratona: o portal “A escola que queremos”, criado por uma paulista, dois paraibanos e um gaúcho, que permite ao usuário conferir a situação de cada escola pública, levando em consideração não só o aprendizado dos alunos – interpretado geralmente por meio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Ao selecionar as informações de escola pelo programa é possível saber também a qualidade da merenda oferecida, se a escola tem ou não acesso à internet ou mesmo se está atendida pela rede de esgoto, tendo-se uma visão mais ampla do quadro. Todas as informações foram organizadas a partir dos resultados dos questionários socioeconômicos que são respondidos por professores, alunos e diretores quando é aplicada a Prova Brasil.


“Nunca tinha trabalhado com dados educacionais e foi muito interessante para ver como está a situação da educação, mas também a qualidade dos dados que a gente tem e o quão difícil é tirar alguma coisa de lá”, conta Adriano Bonat. O grupo saiu na frente porque contava com um membro que já tem uma bagagem na área.  Fernanda Campagnucci, assessora da ONG Ação Educativa, ajudou a trazer um olhar mais refinado sobre os dados.  “Eu conhecia aquele volume de informações, mas não tinha a capacidade que eles [programadores] têm de mergulhar neles”, explica.


A maioria das equipes chegou ao evento com a ideia de produzir rankings, mas descontruíram seus conceitos sobre a prática e procuraram novos olhares sobre os dados de aprendizado. Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, foi um dos palestrantes do evento e tentou apresentar novas perspectivas aos participantes.


“A iniciativa do Inep é muito boa porque é de transparência. Mas os rankings estabelecem competições que não fazem sentido. A transparência não significa simplesmente jogar os dados, eles precisam ser de qualidade para que não se faça inferências equivocadas”, defende. Para Daniel, a forma como os dados do Inep são divulgados hoje pelo órgão por meio da imprensa – principalmente os resultados das avaliações de aprendizagem – levam a distorções. “Os dados de educação, como de qualquer área social que é complexa, acabam sendo pouco claros”, aponta. Daniel defende que seria preciso ter um órgão equivalente ao Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) para analisar os dados educacionais produzidos pelo Inep.


Ernesto Faria, da Fundação Lemann, avalia que o Inep não tem fôlego para produzir as análises dos dados por eles produzidos. “Essa análise demanda expertise em várias áreas. Como o Inep não consegue se debruçar sobre as análises, cabe buscar auxílio externo que é um pouco dessa iniciativa”, aponta.


Sobre a crítica aos rankings produzidos logo após a divulgação de todas as avaliações aplicadas pelo Inep, Ernesto acredita que eles são resultado da falta de outros indicadores que possam dar um panorama mais fiel e justo da situação das escolas e redes de ensino. “A divulgação do Inep são tabelas. Mas você não vê um relatório que análise esses dados ou uma orientação do tipo de cruzamento que se deve ou não fazer. A OCDE, por exemplo, faz um relatório detalhado para cada indicador que apresenta”, compara.


Transparência e inovação
A qualidade dos trabalhos apresentados surpreendeu a organização. O segundo lugar ficou com uma equipe que desenvolveu uma plataforma acessível dos dados da Prova Brasil, inclusive com informações em áudio e consulta por meio da voz para permitir o uso por deficientes visuais. O terceiro lugar ficou com o grupo que desenvolveu um aplicativo que permite à família identificar quais são as escolas públicas localizadas entre o trajeto casa-trabalho. As escolas são classificadas de acordo com a qualidade do ensino – a partir dos resultados da Prova Brasil – mas levando em consideração apenas o desempenho das outras unidades daquela mesma região. Também são apresentadas outras informações relativas a segurança e infraestrutura, por exemplo, levantadas a partir dos questionários da Prova Brasil.


A motivação do grupo, segundo o engenheiro Marcelo Granja, é que muitas famílias comprometem parte importante do orçamento para matricular os filhos em uma escola particular que nem sempre é de qualidade – por isso a ideia de apresentar a esse público outras possibilidades. “Eu achei fascinante porque a minha mente é do consumo, eu penso a partir da perspectiva do consumidor. Mas chegando aqui a gente viu que a perspectiva de quem trabalha na área é outra, é do direito à educação. É uma outra abordagem, foi preciso pensar em como usar os dados primeiro”, explica o cientista da computação Fabrício Nascimento. Um protótipo do projeto já está no ar (www.buscaescola.org), inicialmente com dados de escolas de São Paulo.


Os três grupos vencedores disseram que agora vão discutir como viabilizar os projetos. No caso do terceiro lugar, o protótipo já está no ar com os dados de escolas de São Paulo. A ideia é ampliar a base de dados depois.


Para o diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, Alexandre dos Santos, iniciativas como o hackathon fazem parte de uma nova cultura de transparência e inovação. A intenção é colocar a maratona no calendário anual de eventos do órgão. “A gente não consegue melhorar a qualidade de captação dos dados se ele não for muito usado. É preciso ampliar esse uso porque o Inep não é dono dos dados. Os dados são da sociedade”, diz.







Hackers x crackers

Por muito tempo, o termo hacker foi associado a atividades criminosas. Mas o conceito atual é muito diferente. Os hackers são pessoas com grande conhecimento em tecnologia – em geral programadores e desenvolvedores de programas. Muitos trabalham em conjunto com órgãos do governo para melhorar e trazer mais segurança para bases de dados. A atual cultura hacker tem forte ligação com  transparência e inovação – muitos deles estão envolvidos em projetos para ampliar o acesso da população às informações públicas. Já aqueles que usam seus conhecimentos em tecnologia “para o mal” – roubar senhas, dados ou arquivos de computadores alheios, violar sistemas de segurança – são chamados de “crackers”.








O que é um hackathon?

Cada vez mais comuns, os hackathons são eventos que reúnem hackers, programadores e outros profissionais que trabalham com desenvolvimento de softwares para uma maratona de trabalho com dados. O objetivo é criar programas, aplicativos ou mesmo produzir análises a partir do cruzamento dos dados que permitam um acesso mais fácil da população às informações públicas.


Alguns hackatons são organizados pelos próprios órgãos públicos, como no caso do Inep. Em outros, os hackers se organizam por conta própria e se debruçam sobre as bases de dados. Um alvo frequente são os portais da Transparência, seja do governo federal ou dos estaduais, que listam o salário de todos os servidores dos poderes Executivo e Legislativo.


Hackers de diferentes partes do país “abriram” os dados desconhecidos da maioria da população e mostraram algumas discrepâncias, como o caso de servidores que ganham acima do teto constitucional, ou seja, mais do que o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

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