Bola fora

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Declaração de Zico mostra que futebol continua cumprindo bem o papel de metáfora do Brasil

Pixabay

O futebol continua cumprindo bem o papel de metáfora do Brasil, referência para glórias e mazelas. E até seus maiores ícones não estão imunes aos grandes escorregões. Depois de uma declaração fanfarrona do técnico Renato Gaúcho, do Grêmio, ironizando, após conquistar a Copa do Brasil, em dezembro passado, aqueles que vão à Europa estudar futebol, a imprensa repercutiu a fala com Zico, ex-ídolo do Flamengo e da seleção.

Reconhecido por sua seriedade e retidão – além do enorme talento, obviamente – Zico acabou endossando a fala de Renato. Disse que estudar, havia estudado. Português, matemática, aquilo que seus pais o convenceram a fazer quando jovem. Que ninguém iria ensiná-lo a fazer gol, ou mostrar-lhe qualquer novidade tática, que para isso bastava assistir aos jogos. Mas que, com sua vivência, não iria aprender nada em nenhum curso para técnico.

Que a essa altura da vida, com tudo que já conquistou, Zico não queira estudar de forma sistemática é compreensível. Mas que desvalorize a atitude de fazê-lo, não. Em primeiro lugar porque, mesmo que não de forma sistemática, obviamente ele próprio estudou muito futebol e seus adversários na vida de técnico. Em segundo, pelo fato de que a declaração revela uma visão um tanto curta sobre o que se pode aprender de novo num curso do gênero (desde que gabaritado, é claro).

Muito além do jeito de driblar, chutar ou dispor o time em campo, estudar futebol hoje significa prestar atenção a interações com áreas diversas, da fisiologia do esporte à neurociência, da sociologia do esporte à psicologia. Seria muito estranho que, num mundo que não para de produzir novos conhecimentos, uma área específica pudesse parar no tempo como se estivesse imune a todo o resto.

Mas o pecado maior da fala de Zico é o recado simbólico que ela passa à sociedade, aos jovens em particular. Num país como o Brasil, cheio de desigualdades e iniquidades, num momento em que muitos lutam não só pelo direito à educação, mas também por uma educação melhor, desdenhar de quem estuda não soa bem. Num país de Cunhas, Renans e mesóclises malpostas, valorizar o talento e relegar o esforço do intelecto a segundo plano fazem parecer que os atalhos estão disponíveis para todos. Quando, na verdade, o fosso entre o mundo encantado dos mais ricos e os hospitais e escolas dos mais pobres parecem espelhar as diferenças entre os centros de treinamento mais modernos e os clubes miseráveis que grassam por todo Brasil.

E o próprio Zico não pegou atalho nenhum. Desde cedo, valeu-se da ciência para dar ao corpo franzino mais envergadura para enfrentar adver­sidades de todo tipo. Jogou na Itália e no Japão, foi técnico de sucesso na Turquia. É respeitado Brasil e mundo afora. Mas, sem que isso lhe tire o brilho de tudo que fez, não há como não ficar com a sensação de que ele acaba de chutar um pênalti para fora.

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