França: o debate volta à tona

Dezesseis anos depois da introdução das novas tecnologias, o balanço não anima

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Tudo parecia resolvido: em 1992, decidiu-se pela introdução das novas tecnologias (Tice) no sistema escolar. Não seria uma disciplina específica, conforme desejavam alguns, mas uma prática a ser utilizada em diferentes disciplinas. Dezesseis anos depois, o debate está de novo em pauta. E não faltam argumentos aos partidários e adversários da criação da nova disciplina.

Os dois campos, no entanto, concordam num aspecto: se o debate voltou, é por causa da estagnação pedagógica do uso das Tice. Atualmente, a introdução dessas técnicas é um fracasso. Para Bruno Devauchelle, formador e especialista em Tice, o sistema atual de interdisciplinaridade, do qual ele é partidário, aliás, está em xeque. Construído em torno da avaliação das competências de informática e internet, o sistema está em crise por duas razões. De um lado, a absoluta falta de formação dos professores, seja esta inicial ou contínua; de outro, a prática está em contradição com a cultura escolar francesa, que é reticente quanto ao trabalho em grupo e à porosidade entre as disciplinas: "Se uma noção é pluridisciplinar, ninguém se apodera dela, se ela é monodisciplinar, ninguém se importa". Qual é a solução?

"Não conseguiremos escapar por muito tempo da constituição de uma disciplina completa", afirma Jean-Pierre Archambault, presidente da Associação Ensino Público e Informática (EPI). Para ele, a concepção das práticas das Tice na escolaridade deve ser inteiramente repensada. "Nós distinguimos ferramenta e objeto. A ferramenta é o uso da informática no ensino de cada disciplina. Como a máquina de escrever para a secretária, o computador se tornou indispensável no ensino da matemática e da física. Não é uma questão de contribuição pedagógica, é que essas disciplinas evoluíram. O objeto é tomar a informática como uma matéria. As duas abordagens são obviamente complementares."

A entidade Associações Francesas de Ciência e Tecnologias de Informação (Asti), da qual Archambault é membro, elaborou o esquema desse ensino. Assim, o primário seria o tempo da iniciação, dada pelos próprios professores da escola, o que alguns já fazem. A partir da 5ª série, as aulas seriam dadas por professores de tecnologia. Como os programas das disciplinas já comportam uma parte informática, bastaria ampliá-los. Já o colegial veria o nascimento de novos cursos de informática, ministrados por um corpo docente específico, "formado e concursado", explica Archambault. O mecanismo se esboça, mas está longe de ser unânime.


Em prol dos bons alunos

"Não é uma novidade", observa Devauchelle. "Este ensino já existe. Entre 1985 e 1990, os vestibulares técnicos compunham uma fileira H de informática. Sempre na 5ª série havia uma opção ‘informática’, que desapareceu em 1998. Tal ensino era reservado apenas aos melhores alunos das classes científicas, e isso aumentava o desnível entre eles e os outros. Além do mais, constata-se a mesma coisa hoje em países como Suíça e Líbano, onde o ensino existe. A partir do momento em que um professor se encarrega dessa disciplina, os outros se desinteressam."

Michèle Dreschler não concorda. Ela também é membro da Asti, inspetora da educação nacional, atenta à problemática das Tice. Pensa que desde o começo dos anos 80 era o caso de a tecnologia constituir-se em disciplina. Com certas condições. "Isso não me parece antagônico com o que existe hoje. É necessário ter um lugar de reflexão, de abstração com relação a uma prática cotidiana. Não se deve reduzir a um curso magistral e teórico. Ficaríamos completamente desprovidos de sentido. Deve haver um vaivém entre cada disciplina e o ensino mais geral." Michèle insiste na complementaridade que resultaria daí: "Não é normal que, quando um professor de francês utilize as Tice, tenha de se preocupar com a edição ou o tratamento do texto; os alunos deveriam possuir pré-requisitos que lhes permitissem usar as Tice em cada disciplina, sem que o professor ficasse limitado a um aspecto técnico".


Hora de decisão


O Ministério da Educação Nacional terá de decidir entre concepção transversal ou criação de uma disciplina. O tempo urge: 37 anos depois da introdução experimental da informática em 58 colégios, o desafio continua o mesmo – prevenir o iletrismo dos futuros adultos excluídos do mundo da informação. A missão E-educ deve entregar essas conclusões no próximo mês de abril. Daqui até lá, professores e alunos são convidados a participar do debate num fórum específico. Seja qual for a escolha dos políticos, os problemas do equipamento e da formação deverão ser resolvidos. A tarefa é grande. Além da formação de engenheiros altamente qualificados, trata-se de desenvolver uma cultura geral informática necessária à participação dos cidadãos na nova problemática do debate público. A mudança não é pequena, pois, como enfatiza Michel Serres num texto muito pertinente, "o homem externou sua memória. libertou-se da esmagadora obrigação de se lembrar". Mas deve-se pensar nas conseqüências que isso traz para os processos cognitivos.

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