Formação de Estudantes Líderes leva alunos a Harvard

Participantes relatam as experiências na famosa instituição e como pretendem aplicar o que foi absorvido

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alunos em Harvard

Atividades aconteceram com professores de diversas instituições, entre elas Harvard e MIT (foto:divulgação)

Depois de uma manhã intensa de atividades, o grupo de brasileiros formado por alunos e professores se dirigiu para outro prédio de Harvard na expectativa de assistir a mais uma apresentação. Era o primeiro dia do curso de Formação de Estudantes Líderes para o Século 21 e eles ainda estavam se familiarizando uns com os outros. Apesar da empolgação, todos ainda estavam, em algum grau, retraídos e deslocados. Os sentimentos ficaram ainda mais confusos depois que entraram no espaço onde supostamente haveria mais uma aula. Uma professora os esperava descalça em um ambiente desprovido de mesas.

Havia apenas algumas cadeiras e muito espaço livre. Sob seu comando, ao longo de quase três horas, eles foram convidados a fazer uma série de movimentos corporais. Também dançaram, olharam nos olhos dos colegas e até fizeram confissões. Um aluno declarou que não acreditava em seu potencial e se tornou objeto de estudo dos demais.

Apesar de desconcertar as pessoas, o workshop comandado por Keely Eastley, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), foi considerado o ponto alto do programa realizado por Laspau (uma afiliada de Harvard) em parceria com o Semesp nas dependências da renomada instituição.

Para Geraldo Carlos Teixeira Martins, de 20 anos, essa foi a aula mais “extraordinária” por uma série de aspectos. Primeiro porque a professora, que também é atriz, conseguiu deixar o grupo mais à vontade, o que facilitou o entrosamento entre as pessoas e o aproveitamento do curso como um todo. Em segundo lugar pelo conteúdo do workshop, aponta o estudante da Faculdade de Odontologia do Inapós, localizado em Pouso Alegre (MG). O tema era comunicação verbal e não verbal, mas em vez de abordá-lo por meio de teorias, Eastley fez com que os participantes, por experiência própria, percebessem o potencial de expressão de seus corpos e vozes, e como estas duas ferramentas podem ser usadas a favor dos líderes.

Aluno do curso de Medicina da Unifenas, Ângelo Ponte de Freitas Campos é outro entusiasta da experiência. “A professora estava lá para nos provocar. Foi muito inesperado e transformador”, resume o estudante de 21 anos. Ele ressalta também ter ficado surpreso com o volume de teorias e métodos relacionados à formação de lideranças. “Eu me interessava pelo tema, mas não tinha conhecimento de toda a sua extensão”, reconhece ao citar também a apresentação de John Paul Rollert, professor de Ciências Comportamentais da Universidade de Chicago. Com um amplo repertório de pesquisas sobre o assunto e, particularmente, sobre as características de liderança de Barack Obama, Rollert fez a diferenciação entre líderes autoritários e influenciadores e deu especial atenção à importância destes últimos para o sucesso de organizações e projetos.

Trabalho em grupo

Os participantes do programa Formação de Estudantes Líderes para o Século 21, que está em sua 2ª edição, também tiveram a oportunidade de aprimorar habilidades relacionadas ao trabalho em grupo, além de exercitar a criatividade e o pensamentocrítico. Reunidos em times, os estudantes desenvolveram projetos para melhorar o ensino superior, pensaram em soluções futurísticas para áreas tão distintas quanto moda e educação e resolveram enigmas para serem soltos de uma casa temática.

“A metodologia de ensino deles é muito diferente. Não tem carteiras enfileiradas e os alunos sempre trabalham em grupo. Aprendemos muito sobre a importância de questionar e enxergar além do óbvio”, destacou o estudante de Administração Valter Luiz de Almeida Junior, da Faculdade Gran Tietê, de Barra Bonita (SP). Dentre os momentos mais marcantes, ele mencionou a apresentação de Peter Dourmashkin, do MIT, que falou sobre pensamento crítico e resolução de problemas.

“Depois de Harvard, você enxerga quatro, cinco saídas para o mesmo problema, e não uma só”, acrescenta Paloma Patrícia da Silva, aluna de Engenharia de Produção da FAM. Considerada a mais jovem coach do Brasil, a estudante de 22 anos também se impressionou com a abordagem pedagógica.

“O aprendizado não acontece só com teorias, mas também com muita prática”, declarou. Diferente dos demais alunos entrevistados pela reportagem, que viajaram com o apoio financeiro de suas instituições de ensino, Paloma buscou patrocínio para realizar o curso. “Sempre estudei em escolas consideradas fracas. Não tive uma trajetória fácil e poderiam dizer que não chegaria aqui. Mas sempre fui muito empreendedora. Foi uma grande realização participar desse programa.”

alunos em Harvard

Com 50 vagas, foi a 2° edição do Formação de Estudantes Líderes para o Século 21 (foto:divulgação)

Vontade de transformação

O impacto dos workshops é tão grande que os alunos sentem a transformação assim que retornam ao Brasil. Eles relatam listas de práticas que pretendem mudar, tanto do ponto de vista pessoal como profissional, e falam também em mudanças que poderiam fazer pela comunidade e por suas instituições de ensino.

O estudante Valter Luiz de Almeida Junior pretende contribuir com o processo de inovação acadêmica da Faculdade Gran Tietê. “É possível elaborar uma estratégia que nos ajude a mudar algumas práticas. Não se trata meramente de copiar, mas de extrair e adaptar o que funciona e faz sentido para nós. Por ter sido um dos estudantes escolhidos para participar do programa, me sinto na obrigação de passar adiante o conhecimento que adquiri”, diz.

Fabiano de Sant’Ana dos Santos, pró-reitor da Unifeb, localizada em Barretos (SP), também tem planos para a instituição. “Estamos adotando as metodologias ativas de ensino e queremos incorporar muitas das práticas e dos   conceitos que vimos por lá, como as ênfases no trabalho em grupo, no ensino hands on e no desenvolvimento do pensamento crítico”, relata.

Na visão do estudante de Medicina Ângelo, ficaram as lições de que os erros são oportunidades de aprendizagem e de que é possível gerenciar desavenças entre as equipes, aspectos que ele considera fundamentais para o exercício futuro da profissão de médico e eventual coordenador de equipes.

Ele também vê oportunidades no Brasil de tornar as universidades mais interdisciplinares. Como exemplo, ele cita que viu em Harvard projetos e pesquisas desenvolvidos em conjunto pelos cursos de Medicina, Física e Engenharia.

O aluno que declarou não acreditar em seu potencial voltou de lá convencido do contrário, Depois de tomar consciência de seu potencial de realização pessoal e profissional, Geraldo agora deseja ajudar seus colegas a passar pelo mesmo processo de transformação, além de futuramente trabalhar em parceria com outros colegas de profissão. “Fomos tirados da nossa zona de conforto e percebemos que todos somos importantes e capazes de conquistar nossos objetivos”, analisa.

Além de incorporar os novos conhecimentos aos treinamentos que realiza, Patrícia também vê aplicações em sua profissão. Sócia de uma franquia, ela acredita que pode melhorar a comunicação com seu público e a forma de buscar soluções e resolver problemas. E para não ficar restrita ao público que a contrata, a jovem prevê a realização de palestras voluntárias para impactar o maior número de pessoas.

Formação de estudantes líderes para o século 21

Realizado pela segunda vez, o programa é uma iniciativa do Semesp e da Laspau (associação ligada a Harvad) para desenvolver nos estudantes brasileiros habilidades como liderança, persuasão, criatividade, empreendedorismo e capacidade de comunicação. O curso é composto por cinco workshops e inclui visitas guiadas em Harvard e MIT (Massachusetts Institute of Technology), além de museus e outros pontos de interesse. Todos os anos, são abertas 50 vagas, geralmente preenchidas por alunos selecionados por suas instituições de ensino. Professores também podem participar na condição de monitores. Eles participam das atividades e recebem certificado ao final do programa.

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