Fora de foco

Da pedagogia à psiquiatria, como superar problemas de desatenção dos alunos no processo ensino-aprendizagem

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Raros são os professores da educaçãobásica capazes de contar nos dedos asvezes em que param a explicação, numaúnica aula, para “chamar a atenção”dos alunos, dispersos em brincadeiras,recadinhos, celulares, aparelhos de MP3ou isolados em seu próprio mundo. Pois não ésegredo algum: para aprender algo, é fundamental “prestar atenção”. Atenção ao que o professorfala, ao ler um livro, ao assistir a um filme, aoouvir uma música. É trivial, também, a ideia deque a falta de atenção dificulta o desenvolvimentode qualquer habilidade, seja ela tocar uminstrumento musical, dominar um programa decomputador ou mesmo jogar videogame.

As justas preocupações das modernas sociedades industriais com o processo ensino-aprendizagem – cuja demanda por desempenho e massificação só faz aumentar – acionaram vários campos do conhecimento acadêmico na tentativa de superar problemas de desatenção dos alunos, da pedagogia à psiquiatria. Fazendo jus à sua preocupação com a saúde mental, esta última desenvolveu categorias patológicas para tratar crianças e adolescentes disfuncionais. O mais célebre dos transtornos ligados à dificuldade no aprendizado é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Por trás da banalização de expressões como o “déficit de atenção”, cada vez mais disseminadas no vocabulário cotidiano mas pouco acompanhadas de informação de qualidade, há um robusto corpo de conhecimento psiquiátrico e neurológico sendo desenvolvido há várias décadas. Da mesma forma, há um grande volume de críticas à patologização e ao uso de medicamentos para problemas de aprendizado.







Gustavo Morita
Além da banalização de expressões como “déficit de atenção”, há muitas críticas à patologização e ao uso de medicamentos para problemas de aprendizado

Afinal, o que é o TDAH?
De acordo com os critérios estabelecidos pelo globalmente utilizado Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV), “a característica essencial do TDAH é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade”. Ainda segundo o mesmo documento, “pode haver frequentes mudanças de uma tarefa inacabada para outra” e crianças com o transtorno “podem iniciar uma tarefa, passar para outra, depois voltar a atenção para outra coisa antes de completarem qualquer uma de suas incumbências. Elas frequentemente não atendem a solicitações ou instruções e não conseguem completar o trabalho escolar, tarefas domésticas ou outros deveres”.

Não é difícil perceber, portanto, porque o TDAH é visto pelos psiquiatras como um empecilho para o sucesso do aprendizado. O neurologista da infância e da adolescência Marco Antonio Arruda sustenta que entre crianças e adolescentes diagnosticados com TDAH há um risco 7,5 vezes maior de obterem desempenho escolar pouco abaixo da média e 21,7 vezes maior para desempenho escolar muito abaixo da média.

Marco Antonio, que é diretor do Instituto Glia de Ribeirão Preto, empresa privada especializada na área de neurociências aplicadas à educação, estima que haja em torno de 3 milhões de crianças e adolescentes portadores do transtorno no Brasil. O número deriva de um estudo feito pelo Projeto Atenção Brasil, pesquisa liderada por ele que avaliou 8 mil crianças em 87 cidades e 18 estados brasileiros. O estudo informa ter encontrado uma prevalência de TDAH em 4,4% delas.

O professor de psiquiatria da infância e da adolescência da Universidade de São Paulo Guilherme Polanczyk não vê o sistema educacional brasileiro preparado para encarar o problema levantado pelos cientistas: “não há nas escolas conhecimento suficiente sobre doença mental”, diz o pesquisador. Casos recentemente acompanhados por ele vão de um adolescente diagnosticado com dislexia cuja escola se nega a tratá-lo como portador de uma patologia até um “menino com transtorno de humor grave e descontrole de impulsos, que vem sendo tratado, mas que acabou expulso pela escola pois não houve compreensão de que se tratava de um problema de saúde mental”, conta o psiquiatra.

Daniel Martins de Barros, psiquiatra formado na mesma USP e bacharel em filosofia, mesmo considerando o TDAH um problema que não pode ser menosprezado, chama a atenção para outros diagnósticos que podem ter impacto no tempo de atenção dos alunos: “um dos sintomas muito comuns da depressão é a dificuldade de concentração e consequente esquecimento. A depressão é muito mais comum do que o TDAH, o que pode fazer dela um problema maior em números absolutos”.

Outros enfoques
Talvez um dos apelos de categorias patológicas como o TDAH seja o alívio proporcionado ao diagnosticado e à sua família pelo fato de, finalmente, haverem obtido uma resposta concreta para os problemas que vivem.

Se para alguns o fato de ter o filho diagnosticado com uma patologia mental é algo perturbador, para outros trata-se de um problema agora solucionável com a ajuda da indústria farmacêutica. Uma solução frequentemente proposta por psiquiatras é a utilização de medicamentos que alteram o comportamento, como ritalina e concerta, que têm como princípio ativo a substância metilfenidato. A droga, por suas reações adversas nos sistemas nervoso, cardiovascular e gastrointestinal, é motivo de controvérsia há mais de uma década nos Estados Unidos.

Há pontos de vista ferozmente críticos à abordagem psiquiátrica das disfunções de comportamentos e aprendizagem de crianças e adolescentes. A linguista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maria Irma Hadler Coudry dispara contra o que vê como um “excesso de patologização e medicalização” da infância: “os testes padronizados internacionalmente a que as crianças são submetidas não levam em consideração a estrutura familiar e o cenário sociocultural em que esses indivíduos estão inseridos. Não se interroga, também, sobre se a criança com dificuldades de aprendizado e alfabetização está de fato pronta para ingressar no mundo das letras”. “O ”déficit de atenção” que há em grande parte das crianças diagnosticadas como TDAH é a falta de atenção por parte dos adultos para com ela”, ironiza Maria Irma. “São crianças a cujo aprendizado nunca foi dirigida qualquer atenção por parte de pais e familiares, ou mesmo da escola, onde o ensino de língua portuguesa ainda é costumeiramente baseado em muita cópia e numa avalanche de coisas desinteressantes para a maioria das crianças”, continua.

Maria Irma faz a ressalva de que o tratamento da questão como doença deve ser a última possibilidade de lidar com problemas de aprendizado, quando todas as alternativas educacionais já tiverem se esgotado. A linguista dispara: “a patologização é uma forma de catalogar sujeitos como incompetentes e fazer lucrar um conjunto determinado de profissionais”.

Dissonância
Quem objeta o próprio status ontológico de doenças como o TDAH e a dislexia, afirmando que tais patologias não existem, é a professora do departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp Maria Aparecida Moysés. “Questiono a existência de doenças específicas que afetem especificamente o aprendizado”, afirma a pediatra. “Não discuto que existam pessoas com comportamento mais agitado, ativo, agressivo, que expressam seus confl itos através do comportamento”, ressalva.

Na visão de maria Aparecida, o questionário aplicado no diagnóstico do TDAH, padronizado pela psiquiatria estadunidense, “transforma normas sociais em normas biológicas”. Há nesses instrumentos “uma concepção homogeneizada de seres humanos robotizados, não questionadores”, sustenta. A pediatra também ataca a utilização crescente do metilfenidato para crianças diagnosticadas: “os que não se submetem ou questionam as normas impostas são quimicamente sujeitados a elas por meio de uma droga que está muito longe de ser segura, tendo efeitos adversos que vão de psicose, alucinação e drogadicção, a prejuízos para o sistema cardíaco e morte súbita.”

Tanto Marco Antonio quanto Guilherme descartam essas posições críticas como advindas de discursos não científicos. As objeções àpatologização excessiva deveriam ser rejeitadas, segundo eles, porque não seriam “baseadas em evidências científicas”. A circunscrição de uma área como científica, enquanto o que está de fora não recebe a mesma chancela, é sempre um aspecto importante no jogo político. Não é surpreendente que apareça novamente dentro de um debate renhido como este. Além das controversas “drogas da atenção”, há técnicas de treinamento cognitivo sendo desenvolvidas para melhorar o tempo de atenção no aprendizado, começando a introduzir-se em meio aos velhos debates de como melhorar a educação. é a sociedade do desempenho se desvelando sob nossos olhos.

Maximizando a atenção
Uma das técnicas mais promissoras, do ponto de vista neurológico, é o neurofeedback. A psicóloga Luciana Campaner explica o procedimento: “nós ”treinamos” o cérebro para que aprenda a não dispersar e a manter a atividade de ondas de atenção ou, caso a pessoa
disperse, que ela volte aos estados de atenção mais rapidamente. Hoje em dia existem aparelhos muito sofi sticados com softwares associados. Então, para a criança, é como um jogo: ela treina o cérebro mas os joguinhos só funcionam caso ela esteja prestando atenção”.

Sobre essa prática, Guilherme se distancia: “a técnica ainda não está pronta. É um pouco precipitado aplicar esse método como tratamento clínico. Ensaios clínicos mostram a eficácia [do tratamento] mas são muito preliminares e ainda falta muito para traduzirmos estes resultados para a rotina clínica”.

Marilda da Silva, especialista em didática e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), talvez seja quem proponha uma saída mais à mão no momento, e mais razoável: “não são meramente as técnicas, ou estratégias em si mesmas, que darão um bom retorno. Eu acredito mais na qualidade do professor do que na qualidade da técnica. Não vejo problema em lançar mão dessa ou daquela estratégia, quando quem faz isso é um professor que tem um vasto capital cultural e um impecável domínio científico naquilo pelo qual responde”.

Veja também: depoimentos de pais sobre diagnóstico TDAH www.hiperatividade.com.br

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