Feita de sonhos e fantasias

Antologia de contos fantásticos reunidos por Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo apresenta um ótimo panorama do gênero

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As ficções fantásticas são tão antigas quanto o medo, diz o escritor argentino Adolfo Bioy Casares. Da Bíblia – passando pelos poemas de Homero e As mil e uma noites -, a atual literatura infantojuvenil, povoa­da por bruxos e duendes, se vê que o insólito, o mistério, o sobrenatural sempre estiveram presentes nos registros literários.


Fazer então uma seleção do gênero não deve ter sido tarefa das mais fáceis para Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo, que entre 1937 e 1940 se empenharam na produção da Antologia da literatura fantástica, recém-publicada no Brasil. A primeira edição da obra é de 1940, mas foi em 1965 que ela ganhou uma versão definitiva com o acréscimo de novos textos pelo trio. 


Há contos para todos os gostos: com personagens sonhados, fantasmas, mortos-vivos e extraterrestres. Mas não esperem encontrar vampiros nesta coleção – um alívio para quem está buscando indicações de textos literários para trabalhar com adolescentes.



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Os níveis de fantasia também variam. Sennin, do escritor japonês Ryunosuke Akutagawa (1892-1927), tem uma atmosfera quase infantil, apesar do tom irônico. O conto é sobre um homem que chega à cidade de Osaka em busca de alguém capaz de transformá-lo em um sábio com poderes sobrenaturais, um sennin. Sua inocência é explorada por uma mulher – ou seria uma velha raposa? – que, sem saber, coloca em risco sua própria soberania.


Para leitores mais maduros, destaca-se o excelente A pata de macaco, do inglês W. W. Jacobs (1863-1943). O conto é sombrio e explora o tema clássico dos três desejos, imortalizado na história de Aladim e a lâmpada maravilhosa. Mas aqui há uma maldição que paira sobre o objeto mágico, a tal pata de macaco, produzindo um desfecho trágico para a família que, numa “noite fria e úmida” – a ambientação é elemento central no texto – acolhe um forasteiro desconhecido.


A obra é composta por dezenas de outros textos. Edgar Allan Poe, Jean Cocteau, Julio Cortázar, Franz Kafka, Guy de Maupassant e Rabelais são alguns dos grandes escritores presentes, além, claro, dos três organizadores.  “A seleção é idiossincrática e absolutamente eclética”, como apontou Ursula K. Le Guin, que editou a edição norte-americana publicada em 1988.


Chama a atenção também a presença de vários autores chineses, talvez os primeiros especialistas no gênero, segundo Bioy Casares. Tsao Hsue-Kin (1719-1764) é um dos representantes do país asiático na seleção. Sua obra mais famosa, O sonho do aposento, é permeada de uma “desesperada carnalidade”, como definiu Borges, que também expressou sua perturbação com a abundância e a intensidade dos sonhos presentes no livro. 


Para a antologia, foi selecionado o conto O Espelho de vento-e-lua.  Digno de Allan Poe e Kafka, nas palavras do autor de O Aleph e Ficções, o texto narra a história de um doente que recebe de um mendigo taoísta um espelho capaz de curar as doenças da alma e, como o leitor descobrirá, satisfazer outros desejos.


+ Outras leituras


Prata, terra & lua cheia, de Felipe Castilho (Gutenberg, 272 págs., R$ 35,90)
O livro narra as aventuras do garoto Anderson Coelho, de 12 anos, que descobre os segredos de uma ilha mágica flutuante habitada pelo Grande Caipora e a senhora das águas Iara. Por ter desvendado os mistérios do território, Anderson consegue participar de uma grande competição envolvendo organizações secretas. Mescla do mundo dos games com mitos do folclore nacional.

Memórias mal-assombradas de um fantasma canhoto, de Luiz Antonio Aguiar (Editora Saraiva, 96 págs., R$ 32,90)
O casarão Otis é rodeado de mistérios e deixa muita gente com medo, mas não a turma dos Achudos, do qual Anjão faz parte. O personagem, considerado o gênio da turma, recruta seus amigos para visitar o casarão e explorar seus segredos. Mas Anjão e seus amigos não esperavam conhecer um fantasma de nome sir Simon de Canterville, um especialista em histórias de terror.


O homem estranho da casa ao lado, de Sandra Pina (Melhoramentos, 152 págs., R$ 30)
Uma casa aparentemente abandonada é reformada para readquirir a aparência que tivera no passado. Quem vai morar ali é Hermano, que na verdade está voltando para sua antiga residência, “ocupada” durante todo esse tempo por dolorosos segredos, que despertam junto com sua volta. O romance faz um paralelo com a história Encarnação, de José de Alencar.

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