Fazendo história fora do campo

Ídolos que aparecem no álbum de figurinhas da Copa ajudam a ilustrar para os alunos alguns dos acontecimentos mais significativos do Ocidente nas últimas décadas

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Didier Drogba contra a seleção brasileira em jogo da Copa do Mundo 2010: discurso do atacante ajudou a reverter a guerra civil em seu país

 
Num mundo em que smartphones, tablets e minigames imperam no divertimento – e na distração – de crianças e adolescentes em sala de aula, algo bem mais antigo e familiar para os educadores ganhou espaço entre os alunos nos últimos meses: o álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 2014. A tendência se renova a cada quatro anos, mas a realização da Copa no Brasil inflou o interesse e espalhou, como uma bola que vai de pé em pé, a “febre” de colecionar as figurinhas entre jovens e adultos, num jogo de aproximação até então inesperado.

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Em meio às 639 figurinhas que compõem o álbum, muitas têm forte potencial para significativas informações sobre história, geografia, sociologia, religião e geopolítica. Ali está o badalado centroavante que colaborou para o fim de uma guerra civil; a nação europeia com forte tendência separatista e a comovente história do goleador sobrevivente da Guerra da Bósnia, entre outras. A seguir, alguns exemplos de histórias que representam mais que percursos pessoais – ajudam a ilustrar para os alunos alguns dos acontecimentos mais significativos do Ocidente nas últimas décadas.

Drogba, o goleador herói

Em 2005, logo após a seleção da Costa do Marfim conquistar sua primeira vaga a uma Copa do Mundo, realizada no ano seguinte, na Alemanha, o atacante Didier Drogba proferiu um discurso que mudaria o rumo do seu país. Na época, a Costa do Marfim vivia desde 2002 mergulhada numa guerra civil. Drogba comparou o feito da conquista da vaga à possibilidade de união nacional e pediu perdão e “baixa das armas”. As palavras do já então mais famoso jogador do país, centroavante do poderoso Chelsea, da Inglaterra, e hoje principal figurinha do álbum da Costa do Marfim, repercutiram como uma mensagem iluminada, e foram capazes de influenciar no cessar-fogo do conflito, que dividiu a nação até 2007.

Nascido na Costa do Marfim, na capital Abidjan, Drogba emigrou para a França com apenas cinco anos. Com a fama e o sucesso alcançado pelo futebol, o jogador soube – e ainda sabe – calibrar com habilidade sua atuação política e social fora das quatro linhas do campo. Seu engajamento contra a guerra civil do país natal lhe rendeu, em 2007, o título de embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e, em 2010, Didier Drogba constava na lista da revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

O conflito na Costa do Marfim teve origem no veto à participação no processo eleitoral de pessoas cujos pais não fossem nascidos em solo marfinense. Tudo começou em 1995, após a morte do presidente Félix Houphouet-Boigny, que governava o país desde a década de 1960. Com o veto, o candidato Alassane Ouattara, filho de pais de Burkina Faso e representante da região norte, foi alijado da disputa presidencial, a primeira após longo período sem eleições democráticas. Cinco anos depois, em 2000, o veto a filhos de pais estrangeiros se mantinha e Alassane Ouattara foi novamente impedido de disputar a presidência. A negativa foi o estopim do conflito que opôs o norte do país (região sob influência de Alassane Ouattara) contra o sul.

“Os jogadores tiveram importância capital [no cessar-fogo]. Hoje, graças a Deus, a Costa do Marfim está em paz”, disse recentemente o cônsul Tibe-Bi Gole Blaise para o site da ESPN Brasil. O Drogba do álbum de figurinhas e que apresentará seu futebol nos gramados brasileiros, mais do que o craque da seleção marfinense, é hoje um herói nacional.

 

O diamante bósnio 
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O álbum da Copa do Mundo apresenta nas suas páginas 52 e 53 uma seleção que jogará pela primeira vez o mais importante torneio de futebol do planeta: a Bósnia-Herzegovina. Entre os atletas, o destaque é o homem da figurinha 439: Edin Dzeko.

Jogador do Manchester City, da Inglaterra, Dzeko tinha apenas seis anos quando, em abril de 1992, eclodiu a guerra da Bósnia, consequência da desintegração da antiga Iugoslávia e das declarações de independência das diferentes regiões que formavam o país, uma colcha de retalhos étnica e religiosa.

Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Iugoslávia, um país até então formado por federações socialistas, começou a se dissolver. Nos primeiros anos da década de 1990, Eslovênia, Croácia e Macedônia declararam independência. A Bósnia fez o mesmo, mas seu apelo não foi aceito. Sob o comando dos líderes nacionalistas Radovan Karadzic (bósnio-sérvio), e Slobodan Milosevic (sérvio), durante seis anos Sarajevo foi mantida cercada pelas tropas sérvias comandadas por Karadzic e Milosevic. Ninguém entrava, ninguém saía da cidade. Nesse período, as tropas de Karadzic e Milosevic atacavam diariamente alvos civis, como escolas, hospitais e mercados. O menino Edin Dzeko cresceu nesse ambiente. E, apesar de tudo, ele e seus amigos costumavam jogar bola pelas ruas da cidade em ruínas, tentando se divertir como qualquer criança da mesma idade em qualquer lugar do mundo. Os jogos eram sempre interrompidos pelo alerta das sirenes que avisavam a iminência de ataque aéreo, pelos zunidos das bombas ou as rajadas de metralhadora. Quando isto acontecia, cada garoto tratava de correr para o abrigo mais próximo e se esconder.

Certo dia, Dzeko se preparava para ir jogar bola numa rua próxima a sua casa quando foi impedido pela mãe. Ele reclamou, tentou argumentar, mas não teve jeito. Decidida, a mãe de Dzeko naquele dia não deixou que o menino fosse jogar. Horas depois, uma bomba caiu na rua e matou vários amigos de Dzeko que ali estavam jogando bola. “Meu instinto materno salvou meu filho”, contou a mãe Belma, em fevereiro de 2011, em entrevista ao jornal inglês Daily Mail, quando ocorreu a contratação de seu filho pelo Manchester City.

Dzeko sabe que sua imagem pode ser importante para cicatrizar as feridas ainda abertas entre bósnios, sérvios e croatas. No Manchester City, por exemplo, ele é colega do jogador sérvio Aleksandr Koralov e, certa vez, foram juntos visitar uma escola inglesa, conforme conta reportagem no site da ESPN. Na ocasião, a figurinha 439 do álbum deu uma lição de tolerância e respeito.

 

O país que não existe

A seleção da Suíça que vem ao Brasil trará três jogadores que, mesmo que quisessem, não poderiam jogar por sua terra natal: seu país não existe, ou melhor, não é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, consequentemente, não é reconhecido pela FIFA. Trata-se do Kosovo, região que ainda luta pela sua independência também após a desintegração da Iugoslávia.

No álbum, eles são as figurinhas 347, 349 e 351, respectivamente, Valon Behrami (jogador do Napoli, da Itália), Granit Xhaka (do Borussia Monchengladbach, Alemanha), e Xherdan Shaqiri (Bayern de Munique, Alemanha). Destes, ao menos Granit Xhaka não titubeia quando perguntado se preferiria jogar por uma eventual seleção do Kosovo – ele sempre afirma que sim.

Ao contrário da Bósnia-Herzegovina, que superou a guerra e alcançou a independência, Kosovo declarou a sua em fevereiro de 2008, mas não tem o reconhecimento político da ONU. Antes disto, também após o desmanche da Iugoslávia, a região do Kosovo ficou pertencendo à Sérvia e Montenegro (que mais tarde também se dividiriam). Com 90% da população de origem albanesa e 10% de origem sérvia, os cidadãos albaneses de Kosovo fundaram o Exército de Libertação do Kosovo (ELK) e lutaram pela independência, entre 1996 e 1999, contra as tropas de Slobodan Milosevic.

A guerra só terminou após a intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e um acordo de paz foi assinado em junho de 1999, instaurando então um governo provisório em Kosovo – que se mantém até hoje.

A família de Granit Xhaka fugiu para a Suíça no começo da década de 1990 e ali o menino deu os primeiros chutes no futebol, no tradicional clube Basel. Ele cresceu, se destacou nas seleções de base, até chegar à seleção principal e ser nome certo na Copa do Mundo no Brasil. De origem albanesa, assim como seus colegas Behrami e Shaqiri, eles poderiam ter decidido jogar pela seleção da Albânia, mas optaram pela Suíça. Por causa disto, parte da população albanesa os vê como traidores, enquanto outra parte manifesta orgulho pelo sucesso que alcançaram.

Mas Xhaka, como sempre diz, prefere mesmo um dia defender a seleção de Kosovo.

 

Adeus às armas

 O sul-coreano Park Joo-Ho tem 27 anos, joga no Mainz, da Alemanha, e no álbum da Copa do Mundo ele é a figurinha 627. Machucado recentemente, não poderá mais jogar a Copa no Brasil. Além do Mundial, o atleta perdeu também a chance de escapar de uma obrigação cívica.

Isso porque, na Coreia do Sul, os homens devem cumprir 21 meses de serviço militar obrigatório em algum momento entre os 18 e 35 anos, algo que Park Joo-Ho ainda não fez, mas deve começar em 2015, segundo a imprensa alemã. No entanto, quem é atleta pode receber a benesse de ser dispensado da obrigação, desde que conquiste uma medalha em Olimpíadas, seja campeão dos Jogos Asiáticos, ou, como dito antes, alcance um feito notável.

A Coreia do Sul tem o terceiro serviço militar mais longo do mundo (atrás de Israel e Cingapura), resultado do histórico de conflitos pelos quais o país passou e ainda passa – a Guerra da Coreia, com o vizinho do norte, tecnicamente está em vigor, já que após três anos de batalhas, os países assinaram em 1953 um cessar-fogo, mas o tratado de paz até hoje nunca ocorreu.

Park Joo-Ho tem um exemplo na seleção, o atacante Lee Keun-Ho – figurinha 639. Após ser eleito, em 2012, o melhor jogador de futebol do continente asiático atuando pelo Ulsan, time sul-coreano, Lee Keun-Ho teve de, no ano seguinte, se alistar nas forças armadas e foi emprestado para um clube da segunda divisão. Ele pôde jogar futebol e aprender a lidar com armas, porém, para um atleta de seu nível, ficar quase dois anos na segunda divisão foi um atraso na carreira.

 

Unidos na diferença

A seleção da Bélgica promete vir forte para a Copa do Mundo e dar trabalho para as outras equipes tradicionalmente mais badaladas. Isto, dentro das quatro linhas. Fora do campo de jogo, todavia, este pequeno país espremido entre a Holanda e a França vive tempos de negação de qualquer identidade nacional. Ideias separatistas emanam das três regiões que compõem a Bélgica: Flandres (de língua holandesa); Valônia (de língua francesa); e Bruxelas-capital, bilíngue. Nelas, existem quatro comunidades: a flamenga; a francesa; a flamenga e francesa; e a germanófona – comunidade menor de língua alemã.

O imbróglio separatista não é causado apenas pela mistura de idiomas. Há muito mais em jogo, principalmente interesses econômicos e um certo revanchismo histórico. No passado, quando a Valônia era a região rica, esta ignorava Flandres. Atualmente, com o poder econômico invertido, há o sentimento de vingança. Formada por jogadores de todas as regiões do país, a seleção belga e seus atletas parecem não ser atingidos pela briga separatista. Nas ruas, porém, é comum ouvir um cidadão dizendo que não torce para “a Bélgica” e sim para “os jogadores de Flandres”, ou “os jogadores da Valônia”.

O zagueiro Thomas Vermaelen, figurinha 571 do álbum, é flamengo e só fala holandês, enquanto seu colega Axel Witsel, figurinha 573, é valônio e só fala francês. Vincent Kompany, nascido em Bruxelas, a região que defende a neutralidade, fala ambas as línguas e, como capitão da seleção, é o homem incumbido de não deixar a briga separatista influenciar o ambiente do time.

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