Fábrica de novos negócios

Ao longo de dez edições, o concurso estudantil Empreenda!, do Senac-SP, atingiu 33 mil alunos e estimulou mais de 12 mil ideias de negócios inovadores

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As alunas-empreendedoras Aline e Letícia Silva Xavier: negócio viabilizado enquanto ainda eram estudantes

O sonho das irmãs Aline e Letícia Silva Xavier de abrir o próprio negócio deixou de ser apenas uma idealização e, no começo do ano passado, começou a se concretizar quando elas ainda estavam nos bancos acadêmicos. Filhas de uma cozinheira, as duas tinham a ambição de seguir os conhecimentos recebidos em casa e empreender no ramo gastronômico. Só não sabiam exatamente como. Aline, 22 anos, estava no último período do curso de graduação em Tecnologia em Eventos e a irmã, 23, prestes a se formar em Marketing, ambas pelo Centro Universitário Senac Santo Amaro.

Foi então que elas decidiram se inscrever no Empreenda!, uma competição estudantil promovida pelo Senac São Paulo aberta aos alunos de todas as suas 58 unidades do estado. As ideias culinárias de Aline e Letícia logo começaram a tomar forma, o que ganhou ainda mais estrutura quando as duas desenvolveram um plano de negócios. E foi assim que, após quase oito meses de elaboração, o projeto de fabricação de bolos personalizados foi escolhido como um dos cinco finalistas do concurso e garantiu o prêmio de terceiro lugar na categoria graduação.

Essa história das irmãs Xavier é apenas um retrato singular do ambicioso projeto lançado pelo Senac-SP em 2008. Ao longo dos 10 anos de atividades, o Empreenda! alcançou números bastante significativos. Ao todo, foram 33.187 participantes inscritos, que, divididos em grupos de dois a três alunos, apresentaram 12.704 projetos, sendo destes 75 trabalhos premiados. Somente em 2017, ano em que o concurso comemora a sua décima edição, aproximadamente 5,3 mil estudantes da rede estadual se inscreveram no programa que promove o empreendedorismo.

Apesar dessas cifras volumosas, a equipe de gerenciamento do Empreenda! é bastante reduzida e conta, sobretudo, com o apoio dos docentes. O concurso acadêmico é comandado pelo Núcleo de Empreendedorismo do Senac-SP, que mantém um time fixo de quatro pessoas no projeto. Uma delas é Valquiria Monte Cassiano Rizzo, a coordenadora da área. Ela conta que para estar presente em toda a rede estadual da instituição, o programa dispõe de um grupo de ‘interlocutores’. Cada uma das 58 unidades tem uma pessoa, na maioria das vezes um professor local, que é responsável por promover e divulgar o concurso.

“Em cada unidade temos professores que são muito envolvidos com empreendedorismo e que são os nossos braços. Eles são o grande gatilho para estimular os alunos. Esses professores têm o papel de levar as informações para as unidades. Isso facilitou muito o processo. Nossos interlocutores promovem atividades que motivam os estudantes a participarem. Eles entram em sala de aula, fazem campanha. Levam os alunos vencedores para falar com os colegas”, explica Valquiria.

Mas a história do Empreenda! vai muito além de surgimento do próprio programa e está ligada ao início das práticas de inovação desenvolvidas pelo Senac-SP. Tudo começou em 2004 com a criação do Núcleo de Empreendedorismo. No ano seguinte, em 2005, a instituição realizou o seu primeiro concurso estudantil voltado ao desenvolvimento das atividades empreendedoras. Surgia o Conexões Senac, atividade realizada de forma presencial e direcionada exclusivamente aos alunos de graduação. Foi então que se teve a ideia de expandir o público-alvo e lançar um programa que atendesse uma maior parcela de estudantes matriculados.

Assim, em 2008, foi realizada a primeira edição do Empreenda!. Nos dois primeiros anos, o concurso foi direcionado aos alunos dos cursos técnicos, mas em seguida as inscrições foram liberadas para os estudantes de graduação e pós-graduação. Além de atender um número cada vez maior de participantes, o formato contribuiu para o crescimento exponencial. O concurso ganhou um site e todo o conteúdo ficou disponível em uma plataforma on-line, o que possibilitou, inclusive, a participação de alunos de outros estados matriculados nos cursos a distância.

De volta a este ano, em sua 10ª edição, o cronograma da iniciativa já chega à sua fase intermediária, com a entrega dos planos de negócio, e os alunos aguardam a divulgação dos cinco trabalhos finalistas de cada categoria que serão anunciados no início do mês de novembro. E essa espera tem um motivo importante. Os primeiros colocados receberão como prêmio, além do troféu, um voucher com ajuda de custo para participar de workshops e conhecer projetos ligados à área pesquisada. Já os vencedores das categorias Graduação e Pós, faturam um intercâmbio na Babson College – prestigiada escola norte-americana voltada à educação empreendedora – onde darão continuidade às suas ideias de negócio.

Com um calendário que percorre praticamente todo o ano letivo, o Empreenda! se divide em três fases. Na primeira, após formarem grupos, os alunos apresentam a ideia geral do futuro empreendimento e respondem a questões como viabilidade, conhecimentos técnicos necessários, estratégias de sustentabilidade e dimensão de mercado. Tudo isso é feito pela internet através do site. Neste ano, a primeira etapa somou 2.103 projetos, divididos entre as quatro categorias. A análise dos trabalhos fica a cargo de uma equipe externa, juntamente com o time do projeto, que faz a seleção dos semifinalistas.

Já a segunda fase é o momento em que os grupos desenvolvem o plano de negócio. Para isso, os alunos recebem conteúdos exclusivos, através do site, sobre temas como marketing, finanças e sustentabilidade. Os professores do Senac-SP também ficam à disposição para auxiliar os participantes com orientações e mentorias. Terminada a etapa, os projetos passam por nova análise e o nome dos finalistas é divulgado.

Enfim, chega o momento mais esperado do concurso. Na grande final, que nesta edição será realizada no dia 16 de novembro, os cinco finalistas de cada categoria têm até 10 minutos para apresentar o seu negócio a uma banca formada por investidores, membros da comissão organizadora e especialistas de mercado, que avaliam e escolhem os projetos vencedores.

No ano de 2012, Vitor Inôti Yuki estava diante dessas mesmas pessoas para a apresentação do seu projeto finalista: o Recitrama. Formado em Biologia e, na época, iniciando o curso de pós-graduação em Gestão de Negócios, Vitor já tinha em mente que seu futuro estaria ligado às ações empreendedoras. Diretor de uma empresa de gestão de resíduos sólidos, o biólogo, ao lado de mais dois colegas, decidiu se inscrever no programa e desenvolver um novo serviço utilizando a própria experiência. O grupo direcionou o foco para a indústria têxtil e percebeu que poderia existir ali um grande negócio.

“Nossa proposta era dar uma solução aos resíduos sólidos das empresas de confecção. Eles tinham um problema. Nós receberíamos o material, encaminharíamos para centros de reciclagem, que fariam novos produtos como roupas, estopa, entre outros. Nossa parte seria a intermediação”, explica o biólogo.

Com uma ideia bem delineada, o grupo concluiu a segunda fase e enviou o plano de negócios após esclarecer dúvidas com professores da pós-graduação e com o apoio de um professor-tutor da área do marketing. “O desenvolvimento do modelo de negócio foi um grande aprendizado. Cada um de nós tinha o seu próprio know-how. Mas pensar na análise de mercado, na parte operacional, na viabilidade financeira, ninguém tinha um conhecimento profundo nisso”, conta Vitor.

Assim, o Recitrama chegou à final da 5ª edição do programa e garantiu o 1º lugar na categoria Pós-Graduação. Como prêmio, Vitor e seus colegas ganharam um intercâmbio nos Estudos Unidos e fizeram um curso de duas semanas no Boston College, em um instituto que trabalha diretamente com startups.

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