Experiências e padronização

Carentes de interrogações, os comentários sobre o Enem esquecem o óbvio

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Todos os anos à divulgação dos resultados do Enem segue-se uma lista das “melhores escolas”. Supostos especialistas são chamados a comentar os resultados, apresentar diagnósticos e prognósticos. Plenos de certezas e carentes de interrogações. Interrogações simples, como o que é uma boa escola? A mensuração do rendimento da aprendizagem equivale à qualidade da educação? Uma escola com baixo rendimento em testes padronizados de aprendizagem pode abrigar experiências escolares ricas e formativas?
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Penso, por exemplo, no trabalho de “escuta musical” que Diana, quando professora de uma escola pública municipal, realizava no ensino fundamental. Seus alunos, quase todos oriundos de famílias de baixa renda e pouca escolaridade, dedicavam uma manhã por semana a conhecer e se familiarizar com diferentes estilos e linguagens musicais: da música erudita ao samba carioca, da música instrumental brasileira ao sofisticado tango de Astor Piazzolla. Não eram aulas sobre música nas quais se recitavam informações que pouca ou nenhuma relação têm com a experiência estética de ouvir música. Ao contrário, o que se buscava era exatamente um diálogo com diferentes gêneros e obras musicais.


A aula em que ouviram “As quatro estações”, de Vivaldi, foi precedida de uma evocação das imagens da primavera: flores, calor, reprodução dos pássaros, alegria. Em seguida era pedido aos alunos que identificassem a presença desses elementos na linguagem musical. Por ocasião da escuta de uma faixa do álbum “Circense”, de Egberto Gismonti, a lista era de personagens do circo. Apresentados os títulos das faixas, a tarefa foi descobrir – justificando a resposta pelos elementos musicais – a qual personagem correspondia a melodia tocada (“Cego Aderaldo”). A esses seguiram outros trabalhos com canções, peças, melodias pelas quais a professora era apaixonada. E que ela oferecia como uma oportunidade de diálogo com produções culturais que, não fosse essa experiência escolar, provavelmente jamais fariam parte do repertório dessas crianças.


Não se trata de simplesmente ressaltar que a padronização global dos testes e da própria ideia de qualidade da educação não capta a singularidade de experiências como essa. Isso é obvio e nefasto, mas não é tudo. Pergunto-me se, em uma escola submetida a uma lógica de avaliação que abstrai contexto social e singularidade institucional, ainda pode haver espaço para uma experiência como a que relato. Pergunto-me que professor poderá se “dar ao luxo” de dedicar uma aula por semana à experiência estética de uma “escuta musical”, se seu trabalho só é avaliado pelos resultados desses testes. Pergunto-me se qualidade de educação nada teria a ver com esse encontro entre um grupo específico de alunos e a pessoalidade única de um professor que com eles se compromete a compartilhar experiências que valoriza. Pergunto-me se já teríamos chegado ao ponto em que a responsabilidade dos professores por suas escolhas tornou-se algo da ordem do supérfluo. Pergunto-me se a própria interrogação sobre a qualidade da educação já não se tornou obsoleta e – também ela – supérflua em um mundo cheio de certezas tão padronizadas quanto os testes de mensuração da aprendizagem.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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