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Para que seus alunos tenham a oportunidade de solucionar desafios reais e trabalhar em equipes multidisciplinares, instituições incentivam a participação em competições externas

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estudantesRecentemente, 25 mil estudantes de 69 países foram desafiados pela Nasa a desenvolver aplicativos que ajudem a humanidade a solucionar um problema global. Eles tiveram 48 horas para criar soluções como o BeeBox, uma ferramenta que mapeia a existência de colmeias em locais desprotegidos. Seu objetivo é conter o risco de extinção das abelhas, um problema que está colocando em alerta a produção de alimentos no mundo.

O aplicativo foi criado por Julio Cesar dos Santos, Matheus Catossi, Nathalia Garcia dos Reis, Vinicius Luiz de Camargo Pereira e Wilder Roberto Ramos Pereira, estudantes da Faculdade Impacta, de São Paulo (SP), e ficou entre os 25 melhores do mundo. “Temos um imenso orgulho dessa conquista dos nossos alunos e acreditamos na capacidade deles em contribuir para a sociedade e para o planeta”, celebra Célio Antunes, fundador e presidente da instituição.

Essa não foi a primeira experiência da Impacta em hackathons, como são chamadas as maratonas de desenvolvimento de produtos ou soluções tecnológicas. Há anos a instituição estimula seus estudantes a participar de competições de gênero por acreditar nos benefícios que elas geram. Há ganhos imediatos, como os prêmios conquistados e a satisfação da equipe envolvida, e outros mais duradouros, como o aumento da autoestima de alunos e professores e a projeção da instituição para além dos muros da escola.

A presença em desafios e concursos realizados pelo setor privado também é importante para alcançar a tão desejada meta de conectar os espaços de aprendizagem com o mundo real. Os benefícios ainda se estendem para as empresas, que encontram soluções para os seus problemas e identificam talentos para integrar seus quadros. “As empresas estão sedentas por conhecimento e inovação, e a fonte disso não são as pessoas que aprenderam a fazer as coisas na lógica da Revolução Industrial, mas sim a juventude”, comenta o fundador do Grupo Impacta.

Santander, IBM, Globo, Deloitte, Ambev são alguns exemplos de companhias que estão operando nessa lógica. “As competições representam oportunidades para os alunos desenvolverem projetos que complementam o que estão vendo em sala de aula ou mesmo os projetos já desenvolvidos dentro da faculdade”, relata Antunes. Com todo esse respaldo, não surpreende o fato de que diversos alunos da faculdade sejam figuras frequentes nesses desafios.

Ganhos para os estudantes

Julio Cesar dos Santos, um dos criadores do BeeBox, conta que hoje faz parte de uma “comunidade” de estudantes e desenvolvedores que participam regularmente dessas competições. A faculdade já chegou a oferecer um curso específico para os alunos que queriam participar de um determinado concurso. “A participação nesses desafios é muito valiosa. Você desenvolve habilidades de trabalho em equipe e aprende a trabalhar sob pressão, em tempo escasso. Tem ainda a questão que é fazer muito networking”, avalia o aluno de 21 anos.

Outra figura frequente nesses eventos é Caio Cazuza, estudante do 6o ano de Engenharia Mecânica no Instituto Mauá. Ele é líder da Equipe Pace do Instituto Mauá de Tecnologia, que, regularmente, participa do Fórum Pace – da sigla em inglês para Parceria para o Avanço da Educação Colaborativa em Engenharia, uma iniciativa conjunta das empresas General Motors, Siemens PLM Software, Autodesk, Oracle e Hewlett Packard Enterprise.

O evento é organizado em ciclos de dois anos e, em cada um deles, as equipes formadas por times de diferentes instituições ao redor do mundo precisam desenvolver um projeto de automóvel. No ciclo que se encerrou em 2017, o objetivo era projetar um veículo de transporte individual (Personal Urban Mobility Access) para uma pessoa com idade entre 53 e 71 anos.

Mais de 40 instituições apresentaram suas ideias para um júri de especialistas renomados da GM e a equipe formada pelo Instituto Mauá foi premiada com o 1º lugar em Consumer insight (Pesquisa de mercado voltada ao consumidor), o 2o em Industrial Design, o 2o em Manufacturing Engineering, além da conquista do 2o lugar na classificação geral.

Para Cazuza, os resultados são tão importantes quanto a experiência adquirida ao longo de todo o processo. “A participação no desafio foi decisiva para melhorar minha formação técnica e para eu desenvolver competências profissionais”, comenta. Em sua opinião, um dos pontos fortes do Pace é a oportunidade de contato com outras culturas, uma vez que as equipes internacionais trabalham juntas ao longo de todo o ciclo de dois anos.

A participação no projeto foi incentivada pelo professor Sérgio Moriguchi, que coordenou o Fórum Pace 2017, e ganhou força depois que começou a frequentar as chamadas Atividades Especiais oferecidas pela instituição. Essas atividades, previstas regularmente no currículo dos cursos, funcionam como projetos interdisciplinares orientados. “É mão na massa”, explica Moriguchi. “Você tem uma carga horária específica para desenvolver uma ideia que vai além do conhecimento da lousa e do livro”, resume.

Por estas características, as Atividades Especiais se assemelham bastante aos programas e concursos como o Pace ou a Guerra de Robôs, que têm ciclos longos de participação, trabalham sobre projetos, baseiam-se na ideia de interdisciplinaridade e exigem a orientação de professores.

Por reunir todas essas características, elas são ideais para preparar os alunos para os desafios externos, pois além do incentivo dos professores, recebem créditos pela participação neles. “Essa postura integra um plano de oferecer subsídios para os alunos desenvolverem um intercâmbio de informações entre as áreas da engenharia”, comenta Moriguchi. “Essas atividades também permitem que um aluno do 1º semestre interaja com alunos de séries mais adiantadas, o que exige que haja uma troca entre níveis diferentes.”

Caio Cazuza afirma que esse intercâmbio com os mais velhos foi de grande importância, assim como a integração com outras áreas de conhecimento que não são próprias da engenharia, como o design ou o marketing. “Esses eventos trazem o olhar da indústria para dentro da faculdade. A prática se aproxima da teoria, que é como as empresas desenvolvem projetos”, avalia o estudante.

Talentos

Pela experiência conquistada, o aluno da Mauá hoje trabalha como estagiário justamente no setor de desenvolvimento de projetos da GM, em São Bernardo do Campo. Para as empresas que patrocinam ou realizam prêmios e concursos dessa magnitude, encontrar jovens talentos não é o objetivo principal, mas muitas vezes é previsto como um efeito colateral positivo.

Há três anos, a 3M mantém o programa Invent a new future, uma competição global que convoca estudantes de diferentes países a desenvolver soluções inovadoras para desafios reais. Embora o concurso não esteja atrelado à contratação, vários participantes da etapa brasileira foram trabalhar na empresa. Em 2016, dos 15 finalistas, 4 foram para o programa de trainee e dois viraram funcionários.

“A gente abre as portas da companhia para ganhar visibilidade em todo o país. Naturalmente, novos talentos são atraídos”, comenta José Fernando do Valle, diretor de recursos humanos da 3M no Brasil. Ele destaca, no entanto, que o programa é pensado como uma oportunidade de aprendizagem mútua. “No concurso, tentamos simular uma situação real para que as pessoas possam tirar o máximo de proveito. E uma das coisas interessantes é que você traz gente de todas as regiões do país. A diversidade faz grande diferença e ela é muito valorizada por nós.”

Na avaliação do diretor da 3M, os estudantes têm chegado muito bem preparados à competição. Em 2017, a etapa nacional teve 934 inscritos. Os 15 finalistas selecionados por profissionais de RH participam de um fim de semana intensivo de visitas à sede da 3M do Brasil e, divididos em equipes, desenvolvem um business case. Além da premiação por equipe, há também uma avaliação individual e o estudante mais bem avaliado participa, então, da etapa internacional. Em 2017, o vencedor do concurso brasileiro, Bruno Oliveira, também integrou a equipe campeã do desafio global.

Recém-formado em Engenharia Química pela Universidade Federal da Bahia, Oliveira reconhece que o maior desafio foi ter de lidar com demandas em áreas que não são abordadas em seu curso. Porém, experiências extraclasse o ajudaram a se destacar. “O prêmio envolvia muito conhecimento de gestão, recursos humanos, coisas que não fazem parte do currículo regular de um curso de Engenharia Química. Porém, a participação na Empresa Júnior da UFBA me deu esta expertise”, conta Ferreira.

Outra vivência que considera ter sido chave para o sucesso no programa foi o intercâmbio propiciado pelo Ciências Sem Fronteiras – Oliveira cursou um ano de graduação na Universidade de Minesotta. Além da aquisição do domínio da língua inglesa, viver em outro país e conviver com estudantes de várias nacionalidades o ajudaram a trabalhar em um ambiente com maior diversidade. E ele ainda contou com a sorte: na etapa global, o tema do desafio foi justamente diversidade.

Ferreira destaca que a universidade pública não tem a tradição de se envolver diretamente em atividades externas, como o prêmio do qual participou, mas há sempre oportunidades abertas para que os alunos tenham experiências extracurriculares. “Neste ponto, posso dizer que a universidade me ensinou a ter muita autonomia. A Empresa Júnior, por exemplo, é 100% iniciativa dos alunos. A gente tem de buscar essas oportunidades, estar atento. Isso faz com que a gente desenvolva autonomia e descubra quem somos e quais são nossos caminhos. As empresas parecem ter muita simpatia por isso.”

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