Por que algumas instituições conseguem inovar e outras não?

A adoção de novas práticas pedagógicas depende de núcleos organizados e da valorização de pessoal, aponta a experiência

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Por Mariana Queen Nwabasili

Ser uma instituição de ensino superior de fato inovadora quanto às formas de ensino e de produção científica requer trabalho sério e esforços específicos. O investimento em infraestrutura e em pessoal por meio da criação de núcleos próprios de inovação nas IES tem se mostrado uma tendência positiva para isso. Ao mesmo tempo, estudos apontam que a inovação no setor deve focar os docentes, a ousadia para a criação de novas práticas e a potência da organização e das trocas de tecnologias e de ideias por meio de redes, como os consórcios educacionais.

As orientações fazem parte das conclusões da dissertação Inovação no ensino superior: o impacto da inovação pedagógica na estratégia de catching up em IES privadas brasileiras, elaborada por Fernando Domingues, mestre em gestão internacional pela ESPM. Os resultados da pesquisa foram apresentados na abertura do IV Fórum STHEM Brasil, realizado recentemente na Universidade São Judas Tadeu, localizada na capital paulista.

O estudo foi desenvolvido no final de 2017. A partir de um formulário on-line, 860 professores de 55 IES responderam a questões sobre práticas pedagógicas inovadoras. Quase 80% [686] dos respondentes lecionavam em 31 instituições que fazem parte do Consórcio STHEM. “A pesquisa mostrou que o que é fundamental para a inovação pedagógica não é a adoção de tecnologia, mas sim a mudança da prática docente”, diz Domingues. “A nossa inovação tem de focar a mudança das pessoas, dos professores, dos funcionários técnico-administrativos, dos gestores. E as instituições precisam arquitetar um ambiente ideal para que o professor consiga mudar e se sinta seduzido a participar de um processo inovador”, completa.

Ao usar como metodologia o catching up – capacidade de parear um sistema educacional emergente com sistemas desenvolvidos, como o da Finlândia, por exemplo –, o pesquisador conseguiu evidenciar os passos que as instituições brasileiras precisam dar para chegar a níveis excelentes quanto à inovação. “Não devemos mais só copiar, mas também começar a adaptar práticas exemplares. Devemos ser mais ousados nas práticas a serem adotadas, desenvolver um sistema de parcerias e conexões e começar a usar todas as inovações pedagógicas como um artigo estratégico para vender a imagem da IES, melhorar sua marca e seu propósito. Ou seja, a parte de negócios da instituição deve começar a explorar isso”, recomenda.

Núcleos de inovação

Ações práticas de inovação pedagógica em instituições de ensino superior foram apresentadas no Fórum. A tendência da criação de núcleos ou polos de inovação para a idealização, implementação e manutenção de novas ações foi ponto em comum entre os cases mostrados.

Segundo Fábio Reis, presidente do Consórcio STHEM e diretor de Inovação Acadêmica e Redes de Cooperação do Semesp, muitas das 50 IES que fazem parte do Consórcio seguem nessa direção. “Quando há na instituição um núcleo de referência em inovação, que forma professores, que multiplica as boas práticas, que acompanha o impacto da aprendizagem e dos trabalhos dos estudantes, há resultados. Inclusive, a LASPAU – Academic and Programs for the America [organização filiada à Universidade Harvard e que faz parte do Consórcio STHEM] recomenda isso como tendência positiva mundial. As instituições do Consórcio que mais avançaram em inovação são aquelas que têm núcleos muito bem estruturados, que têm um plano e ações organizadas”, diz.

O caso da IMED, no Rio Grande do Sul, é um exemplo. O InovaEdu, laboratório de inovação da instituição, foi o responsável pela sistematização de mudanças nas graduações que teve impacto direto no curso de Administração: a criação de um Business School. “De forma organizada, repensamos os objetivos de aprendizado do curso e das disciplinas. Desenhamos seis eixos de formação: mercadológica, operações, estratégia, pessoas, finanças e pesquisas; e estabelecemos professores para serem líderes de cada um desses eixos, garantindo que eles interajam entre si”, contou Verônica Bressan, gerente acadêmica da IMED.

Já nas Faculdades FACCAT, em Tupã, no interior paulista, o Núcleo de Inovação Acadêmica (NIA) apoiou a criação da “Plataforma C+”, ferramenta on-line que permite aos professores registrar o planejamento do semestre, o conteúdo das aulas e as atividades extracurriculares. Além disso, a tecnologia, desenvolvida internamente, permite que os docentes compartilhem projetos pedagógicos realizados com os estudantes, e, assim, realizem atividades interdisciplinares.

“A estratégia para o compartilhamento de projetos foi a gamificação: as interações que os docentes fazem na plataforma geram pontos para eles e esses pontos levam a prêmios. Além disso, os projetos postados podem ser curtidos, o que torna possível ranquear os mais apreciados e os mais colaborativos”, explicou Maurício Baum, assessor de graduação da FACCAT. Carine Backes, vice-diretora da instituição, evidenciou que o sucesso das ações do NIA está em sua forma de estruturação e organização. “O Núcleo é gerido por cinco pessoas e tem grupos de trabalho para os seus projetos. Há grupos voltados à formação de professores, ao apoio tecnológico e à formação técnica e administrativa”, explica.

O investimento em formas organizacionais inovadoras voltadas a docentes e demais funcionários e a relação disso com a criação e o desenvolvimento de práticas pedagógicas que transformam a aprendizagem dos estudantes vão ao encontro do que estuda e defende Leo Burd, pesquisador do MIT Media Lab, laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos; diretor do Programa Lemann-MIT de Aprendizagem Criativa e criador da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa.

Burd ressaltou que os quatro “Ps” (Projetos, Paixão, Parcerias e Pensar brincando) definidores do conceito de aprendizagem criativa mostram que “as pessoas aprendem melhor quando compartilham coisas, quando os projetos são significativos para quem os desenvolve, quando há um ambiente colaborativo para isso e quando o processo criativo é colocado em destaque”.

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