Escolas da resistência

Projeto capta realidades locais onde os saberes regionais são valorizados e utilizados como instrumentos de construção da identidade e reforço da autoestima, em oposição a um currículo universal e sem identidade

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Divulgação/Liz Wood
Professor José Eduardo de Spiza e professora Marcia Loureiro Guimarães fazendo o percurso diário para chegar até Kuaray Guata Porã – Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental, Cerco Grande – Guaraqueçaba (PR)

Nas ilhas do Combú e de São José, nos arredores de Belém do Pará, as sementes de açaí e cacau têm outras finalidades, além da culinária. Na sala de aula, coloridas pelas crianças, ajudam na alfabetização, utilizadas em atividades de expressão escrita. Em outros momentos, servem para o aprendizado de operações de adição e subtração. A centenas de quilômetros dali, na pequena Rio Largo, em Alagoas, é o cordel que entra na sala de aula como uma estratégia de estímulo à leitura, elevação da autoestima e construção da identidade local. Em Santa Catarina, é a história do boi de mamão; em Brasília, o resgate das raízes históricas da ocupação do Planalto antes da chegada da capital. Nas paisagens nordestinas, em geral, as comemorações de São João e o cordel.

Divulgação/Liz Wood
Alunos da Unidade Pedagógica Ilha do Combú, em Belém (PA), voltando para casa onde vive a população ribeirinha

E assim, estado por estado, os saberes locais de um país radicalmente multicultural sobrevivem em salas de aula nas quais conteúdos curriculares universais são ensinados às crianças. Essa história de verdadeira resistência cultural ganhou um registro à altura: o livro e o site Na trilha da cultura, lançados no final do ano passado, em Curitiba, que agora se transformam em uma exposição itinerante de belas fotografias.

Cultura sobrevivente
O projeto é assinado pela fotógrafa e produtora cultural Liz Wood e a jornalista H. Rocha, assessoradas pelos pesquisadores Joe Garcia, da área de Educação, e Mario Sergio Michaliszyn, da Antropologia, dois dos inspiradores da ideia. “Por já ter conhecido muitas escolas viajando pelo Brasil, eu sabia da riqueza que encontraríamos, mas não sabia de toda essa riqueza”, diz Joe Garcia.

Segundo Joe, a educação escolar é uma atividade fundamentalmente cultural. “Nas escolas, todos os dias, há um processo de reprodução e elaboração cultural, por meio das atividades do currículo. Mas o que desejávamos era destacar que nas escolas brasileiras há uma dimensão cultural muito diversificada e densa, da qual pouco ou nada se sabe, envolvendo cultura local e regional”, explica o pesquisador.

Ocorre que, ainda que valorizada nos textos e nas políticas, a dimensão cultural do currículo sobrevive quase como um resgate poético e silencioso de tradições preciosas, desconhecida fora dos limites locais. “É a velha história: os brasileiros desconhecem a profundidade cultural do Brasil. E, no caso das práticas educacionais, isso é uma triste verdade”, diz Joe.

Divulgação/Liz Wood
Alunos da Escola Municipal Nossa Senhora dos Humildes em roda de samba e capoeira pelo programa Mais Educação, em Santo Amaro (BA)

A jornalista Clarissa Rocha ficou surpresa com a força e naturalidade com que a cultura é incorporada ao trabalho educativo, quase sempre de forma associada à construção da identidade e ao consequente reforço da autoestima. Muitas vezes, ao chegar às escolas sem aviso prévio, encontravam os alunos representando o Boi Bumbá, como em Porto Velho, ou o Carimbó, no Pará, ou vivenciando as lendas amazônicas, em Manaus. Música, teatro, canto, dança, lendas, uso de recursos naturais típicos, arte, artesanato, festas, personagens – os ingredientes do caldo cultural brasileiro fazem parte da paisagem das escolas, temperadas com uma receptividade sempre característica, em todos os lugares visitados. “Fomos recebidas com alegria e hospitalidade inimagináveis”, lembra Clarissa.

Todos os estados brasileiros foram visitados, tanto da rede pública como também escolas particulares, escolhidas pelas experiências prévias dos pesquisadores, em pesquisas ou indicações do Instituto Positivo, um dos patrocinadores da viagem, ao lado do Instituto Joel Malucelli.

“O que procurávamos eram escolas que, sobretudo, usassem aspectos da cultura na educação de seus alunos, ou professores que inovavam no método de ensino ao inserir a cultura na sala de aula”, lembra Liz Wood. Entraram nos relatos também situações que envolviam histórias provenientes do contexto local, desconhecidas pelo restante do país.

Heróis anônimos
As aventuras, claro, também foram muitas. Os viajantes acompanharam, no litoral do Paraná, o cotidiano de muitos heróis anônimos, como a maratona do professor Zé Eduardo (como gosta de ser chamado), que, de segunda a sexta-feira, sai de casa de bicicleta, que deixa à beira de um mangue, cruzado com lama à altura das coxas, e ainda segue a pé um bom trecho até chegar a uma pequenina escola da aldeia indígena. Tudo para lecionar geografia e artes.

No Acre, por exemplo, viajaram horas para chegar a uma casa em que uma agente de educação alfabetizava Francisco, um menino de 5 anos, como parte do Asas da Florestania Infantil – programa estadual para levar educação à população que vive na floresta.

Foram quase 50 escolas visitadas, em oito meses de trabalho, no qual tudo foi registrado em vídeo e foto. O resultado foi exposto no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, em dezembro. Está previsto um novo lançamento em São Paulo (sem data até o fechamento desta edição) e, a partir daí, a montagem de uma exposição itinerante por todo o país, com 30 painéis fotográficos.

As fotos revelam o impacto da presença da cultura, com uma força inusitada. Segundo Liz Wood, poucos imaginam como a cultura local é valorizada no arquipélago de Fernando de Noronha, a mais de 500 quilômetros do Recife. “A população é educada de um modo particular, absolutamente imerso na cultura cotidiana do local, e seu foco principal no ecossistema e o meio ambiente nos quais está inserida”, recorda a fotógrafa.

Tradições e inovações
Nem sempre os aspectos culturais dizem respeito a tradições antigas. Segundo a jornalista Clarissa Rocha, uma das experiências mais tocantes veio de Brasília, a escola CEF 104 Norte, cujo diretor, professor de educação física, promove anualmente uma longa caminhada com os alunos, durante 15 dias. A cada ano o percurso se renova, sempre marcado por pontos históricos que recuperam a memória de uma região apenas recentemente ocupada pela burocracia federal. Dormindo em acampamentos, com o apoio do Exército, os jovens trabalham para resgatar a identidade local.

Em outros casos, é sim a tradição mais profunda que assoma – mesmo que, vista de longe, pareça algo folclórica, mas está muito viva na realidade de crianças e jovens. É o caso da experiência vivida em Rio Largo, em Alagoas, em que uma professora conseguiu mudar o clima da escola ao propor aos alunos que produzissem um cordel. Segundo Clarissa, diante da indisciplina, a professora pensou em desistir da proposta – o que fez imediatamente os líderes da bagunça mudarem de postura e trabalharem. O resultado final deixou a todos muito orgulhosos e impactou a aprendizagem: livretos de cordel, declamados com todos os acentos regionais.

Para Joe Garcia, relatos como esses põem em evidência outro aspecto da educação brasileira: a criatividade. Muitas vezes, a presença da cultura regional do trabalho pedagógico decorreu de projetos de inovação didática, propostos pelos professores em atividades pontuais ou mesmo sequências anuais. “O projeto Na trilha da cultura destaca o trabalho criativo dos nossos educadores”, ressalta. O livro foi editado em edição bilíngue, segundo Joe Garcia, para que seja uma contribuição à educação internacional.

Saiba mais
> Para saber mais ou entrar em contato com a equipe, acesse www.natrilhadacultura.com.br.

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