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Se os alunos dispõem de livros e de internet, por que terão de ir à escola?

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O jovem “aprontou” e a professora pô-lo “fora da sala de aula”. Tão discreto quanto me era possível ser, observei o deambular do jovem pelo pátio da escola. Não tardou a interpelar-me, fones nos ouvidos, celular de última geração premido entre polegares:


– Tio, aqui tem aifai?
– Queres dizer Wi fi? – perguntei.
– Tio, cê não sabe o que é aifai.? – retorquiu com um esgar de desdém. E encaminhou-se para a biblioteca vazia, de onde seguiria para o gabinete da diretora.
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Os jornais anunciam que os alunos podem aprender em casa, acessar sites com os conteúdos que o professor daria numa aula. Se os alunos dispõem de livros e de internet, por que terão de ir ouvir aula na escola? Para socialização! – bradam os teóricos de serviço. Mas de que socialização estarão a falar? De alunos postos fora da sala de aula, castigos, expulsões? De bullying? Entre a “socialização” das escolas que ainda temos e a “socialização” de monstrinhos de tela de computador, que venha o diabo e escolha.


Salman Khan recebeu um pedido dos seus jovens primos, que nada entendiam da matemática escutada nas aulas dadas por professores. Os primos de Khan moravam longe e não restava outra solução se não a de recorrer ao YouTube. As aulas de Khan, “dadas” através da internet, foram um sucesso. Em aulas com cerca de 20 minutos, os primos compreendiam os temas de matemática, que, em 50 minutos, um professor não conseguia fazer compreender.


A fama das aulas do Khan correu mundo e o site das aulinhas foi sendo utilizado por milhares de estudantes. Com um milhão e meio de dólares, que Bill Gates lhe ofereceu, Khan fundou uma academia digital. Eu estive lá e, ao vivo, pude compreender o drama educativo: as novas tecnologias têm servido para congelar aulas num computador, aulas que os alunos skinnerianamente consomem, sem resquícios de cooperação com o  vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários estabelecidos com identidades virtuais.


Algumas escolas se vangloriam de oferecer tablets aos alunos, instrumentos que contêm tudo aquilo que precisam pôr nas provas. E, no mundo virtual, muitos jovens consomem informação, escapando de acordar de madrugada e obrigar os progenitores a sofrer no caos do trânsito. Longe do edifício-escola e a qualquer hora, acessam sites, numa aprendizagem solitária idêntica à das monótonas aulas de 50 minutos.


Na verdade, Khan não está sozinho: a internet é generosa na oferta de informação sob a forma de vídeos, ou de outros recursos. Basta carregar no enter, que o mister Google atende. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela do computador. 


Reencontrei o moço do “aifai”, no “laboratório de informática”, no cumprimento de (nas palavras da diretora) uma “suave punição”: terá de refletir sobre os seus atos! Suave? Ou pura crueldade? Durante quase uma manhã inteira, o solitário moço do “aifai” sofreu a tortura de ter dezenas de computadores à sua volta e não lhes poder tocar.  

– E agora, José? – perguntarão os professores que dispõem de lousa digital e de acesso à internet. Iremos instalar-nos em novas fórmulas de mesmice? Dispondo de novas tecnologias de informação e comunicação, iremos replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets? Quem as escutará? Será possível usar o digital ao serviço da pessoa? Entre a escola de dar aula e a internet de dar aula, haverá uma terceira via?


*José Pacheco
Educador e escritor, ex–diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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