Escola brasileira precisa ensinar melhor a língua inglesa

Licenciaturas tentam renovar-se, mas procura é maior para bacharelado e tradução

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Num mundo literalmente obcecado pelas ideias de inovação e livre circulação, a língua inglesa cristaliza-se cada vez mais como idioma oficial de interação, em especial quando isso acontece via internet. Para se ter uma ideia, quando se digita a palavra “english” no Google, a resposta é 10 vezes maior do que quando se escreve “português”, 25,7 bilhões de respostas, contra 2,2 bilhões.

Num cenário em que o aprendizado dessa nova língua franca universal se faz cada vez mais essencial, a educação brasileira continua derrapando, assim como em outros terrenos. Segundo o índice de proficiência Education First, que em 2015 mediu as habilidades de alunos maiores de 19 anos em 70 países, o Brasil tem proficiência baixa. O país ficou em 41o lugar, com 51,05 pontos, contra 70,94 da Suécia (primeiro lugar, com proficiência muito alta) e 60,26 da Argentina (15o lugar, proficiência alta).

Melhorar a aprendizagem do inglês é pré-condição para que o país consiga mudar de patamar no cenário global, como mostram alguns entraves vigentes na educação local. Um deles foi a recente dificuldade para atingir as metas do programa Ciência sem Fronteiras, que buscava proporcionar experiência acadêmica internacional para universitários, em razão do baixo número de candidatos aptos a requerer vagas em instituições que ministram aulas em inglês. Outro é o baixo número de cursos ministrados em inglês por universidades brasileiras, fator que dificulta a internacionalização do ensino superior brasileiro. Assim, deixamos de fazer parcerias que podem elevar o nível de formação de nossos alunos e melhorar a qualidade da pesquisa científica praticada no Brasil.

Já com essa questão no radar, a recente proposta de reforma do ensino médio traz a língua inglesa como uma das disciplinas obrigatórias para todos os alunos da etapa, independentemente da trilha que escolham (se as trilhas e a reforma efetivamente vierem a ser aprovadas, algo dificultado por sua inoportuna apresentação como Medida Provisória). A reforma também propõe mudança no fundamental 2, com a menção de que a língua inglesa deverá ser ofertada a partir do 6o ano. A redação anterior mencionava a oferta de uma língua estrangeira, não especificada.

Imersão na língua

Um dos pontos-chave para que o país dê um salto no domínio da língua é, sem dúvida, a melhora do ensino ofertado na educação básica. E, por consequência, a excelência de quem o ministra. Pesquisa divulgada pelo British Council em 2015 traz alguns dos fatores críticos identificados por 1.247 docentes que ministram a disciplina na educação básica: 55% afirmam não ter oportunidades para conversar em inglês; 22% afirmam ter dificuldade com a língua falada e 62% afirmam não fazer capacitações em função da falta de oferta pelas secretarias de Educação.
Como principais “dificuldades vivenciadas”, os docentes apontam a falta de recursos didáticos (81%), desvalorização e distanciamento do idioma (59%), dificuldades no planejamento (34%) e remuneração (30%).

Entre as instituições formadoras, no entanto, a análise é um pouco diferente, ainda que os pontos não sejam excludentes entre si. O principal fator crítico apontado por todos os entrevistados ligados a licenciaturas e cursos de extensão e pós-graduação é a falta de domínio linguístico dos candidatos a professor de inglês. Por isso, muitos cursos têm investido em proporcionar maior familiaridade com a língua.

É o caso da licenciatura em inglês da Faculdade Cultura Inglesa, cujo curso formará sua primeira turma em 2017. Segundo o coordenador Rodrigo Rosa, seu desenho foi feito a partir das necessidades constatadas pela própria Cultura Inglesa como empregadora. “Nossa matriz curricular privilegia o número de horas de exposição à língua inglesa. Buscamos formar professores que falem e sejam capazes de ministrar aulas 100% em inglês”, diz.

Outra intenção do curso é proporcionar ao aluno uma imersão cultural que o aproxime da língua. A estratégia, partilhada por outras faculdades e universidades, permite uma formação mais consistente, em que o aprendiz não só ganhe contexto para questões linguísticas como também reforce sua própria formação cultural por meio de conhecimentos literários ou da história dos países de língua inglesa. No caso da Cultura, isso é facilitado por outras ações, como a possibilidade de fazer e assistir a peças de teatro em língua inglesa, ou pela oferta de exposições como a Beatlemania Experience, patrocinada pela instituição, que ficou em cartaz em São Paulo até novembro.

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Empecilhos

Uma questão problemática é a falta de interesse dos jovens pelas licenciaturas em geral, à qual o inglês não está imune. Dar aulas na educação básica, em especial na escola pública, não os tem animado muito. A PUC-SP, por exemplo, tradicional reduto formador, tem encontrado dificuldades para fechar novas turmas de licenciaturas desde que, por força de determinação do Ministério da Educação, teve de acabar com a dupla licenciatura português-inglês.

Segundo Maria Fachin Soares, coordenadora do curso de letras e inglês, há bom número de candidatos no vestibular, mas na hora da matrícula, o interesse não tem sido o mesmo. Uma das maiores dificuldades na formação são as deficiências que os alunos carregam da educação básica. “Além de falta de repertório e consciência linguística, lhes falta um repertório mais geral, de conhecimento de mundo”, diz. “Mas são alunos que gostam muito da língua inglesa. Muitos acabam se interessando mais pelo bacharelado em tradução, que oferece mais oportunidades profissionais.”

Para suprir essas deficiências, a PUC-SP tem investido no aumento da carga horária de disciplinas de língua inglesa, linguística de língua inglesa e conteúdos como sintaxe, semântica e fonologia. Também tem ofertado mais disciplinas de literaturas de língua inglesa (britânica, norte-americana, canadense, africana, indiana), de forma a garantir diversidade cultural.

Outro ponto que Maria Fachin destaca como central é o aumento dos estágios. “É o espaço para discutir metodologias de ensino de língua inglesa, questões como saberes locais e saberes globais. São 400 horas de estágios em escolas públicas e privadas”, diz.

O calcanhar de aquiles é que a universidade não tem convênio institucional para a graduação, apenas para professores já em serviço, com a secretaria estadual paulista. Professores e alunos têm de se virar para consegui-los.

Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, os problemas começam com a falta de professores para o curso de letras. A licenciatura é uma extensão do bacharelado em inglês. “Estamos com déficit de docentes, pois não houve a contratação para o ensino de língua inglesa”, diz Daniel Puglia, professor de estudos linguísticos e literários em língua inglesa.

Segundo ele, os formandos não têm ido lecionar em escolas públicas. Quando vão para a docência, preferem as escolas privadas ou de idiomas. “Quando entram, são idealistas, querem ser professores do ensino público. No 4o ano, decidem ir para as escolas privadas, ou desistem da docência e vão para a área de tradução”, relata.

Os alunos de letras, diz Puglia, têm perfil socioeconômico diferente do de outras unidades da USP, como direito, medicina ou engenharia. No geral, vêm mais de escolas públicas e têm de trabalhar. De quatro ou cinco anos para cá, o programa sofreu pequenas modificações para tornar-se mais atraente para esse estudante. Uma delas é que, a partir do 2o ano, podem optar por concentrar mais matérias nas áreas de língua ou de literatura, de acordo com sua preferência. “Antes eram muitas aulas de ambas. É uma tentativa de responder ao cansaço desses alunos”, resume.

Como diretriz, ainda que não consensual, o curso busca fazer com que os estudantes não sejam “repetidores de técnicas que apliquem as mesmas soluções em situa­ções distintas”. “É importante que os alunos pensem os processos de linguagem e de cultura como fenômenos sociais, dentro da dinâmica da sociedade”, teoriza Puglia.

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Os nós do problema

De certa forma, entender o contexto cultural em que se está ensinando é uma questão que diz respeito não só ao professor de inglês, mas aos docentes de maneira geral. No caso específico dos candidatos a docentes de inglês, quais seriam os outros pontos críticos?

Antonieta Megale, coordenadora geral de pós-graduação e extensão do Instituto Singularidades, mestre e doutoranda em linguística aplicada, arrisca alguns outros aspectos, além do domínio suficiente apenas para expressar-se, e não para lecionar em inglês que vê nos jovens professores.
“Falta articulação entre a reflexão teórica e o que fazem em sala de aula. Falta repertório para pensar sobre a própria prática. Normalmente, o trabalho é muito atrelado ao material didático”, avalia. E, se o material didático é visto como insuficiente, como revela a pesquisa do Bristish Council, forma-se aí um grande vazio.

Antonieta aponta ainda outros pontos problemáticos: a falta de oferta de didáticas específicas para o ensino de línguas (“bem diferente do manual do professor”!), a ausência de currículo escolar que defina o perfil do aluno que se quer formar e o entendimento falho do que seja o trabalho com cultura no âmbito do ensino de línguas.

“Confunde-se cultura com curiosidade; aí, trabalha-se com comidas típicas, festivais. É preciso dar categorização de mundo para o aluno, fazê-lo ter contato com narrativas diferentes daquelas relacionadas ao universo em que ele vive”, diz.

A licenciatura da Cultura Inglesa tenta atacar alguns desses problemas. O primeiro deles é o do domínio linguístico. Em torno de 70% da carga horária é em inglês. Em português, apenas disciplinas nos dois primeiros anos. Outro aspecto importante é formar um professor que consiga olhar tanto para a evolução da classe como para cada aluno individualmente.

“É preciso saber gerenciar todas as variáveis presentes na sala de aula. Acompanhar a aprendizagem, fazer um plano de ação, propor percursos individuais”, diz Rodrigo Rosa, lembrando que os alunos trazem bagagens muito diferentes.

Outro aspecto frisado é a incorporação de novas tecnologias ao ambiente. “O professor tem de estar preparado para recebê-las, não para evitá-las”, diz Rosa em relação a WhatsApp, mídias sociais e outras realidades do mundo dos alunos.

Outro fator distintivo, em sintonia com o que muitas universidades mundo afora têm feito, é que os alunos têm professores tutores desde o início do curso, com quem terão contato semanal. Esse tutor irá auxiliá-los em três esferas: acadêmica, pessoal e profissional, dando suporte para sua inserção no mercado de trabalho.

Cada vez mais, parece ser necessário pegar os candidatos a docente pela mão e ajudá-los não só em sua formação, como também em seus primeiros anos de trabalho. Do contrário, o número de professores ficará à míngua ou se restringirá àqueles que não têm alternativa melhor.


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