Entre as duas esferas

De um lado, o discurso de que é preciso ser um líder pedagógico. De outro, um dia a dia dominado por tarefas administrativas. O …

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De um lado, o discurso de que é preciso ser um líder pedagógico. De outro, um dia a dia dominado por tarefas administrativas. O descompasso entre a teoria e a prática do trabalho de diretor nos países da América Latina foi tema de palestra realizada por Ricardo Cuenca, diretor pesquisador do Instituto de Estudos Peruanos (IEP), no Seminário Internacional Liderança e Inovação na Educação, ocorrido em São Paulo no mês de setembro.

Cuenca explica que, apesar de recentemente ter se fortalecido a ideia de que o diretor deve ser um líder pedagógico, na América Latina esse papel ainda coexiste com concepções de décadas atrás. Há escolas em que o diretor é, antes de tudo, um professor de destaque. Em outras, ele é principalmente um gestor de documentos e rotinas administrativas.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontam a figura do diretor como um dos fatores mais importantes para o êxito da escola.

“Se é tão importante, por que há esse desencontro? Por que há poucas pesquisas sobre eles e poucas políticas voltadas a esses profissionais?”, questiona Ricardo Cuenca.

O pesquisador afirma que os projetos político-pedagógicos dos países da América Latina são muito parecidos. Além disso, nossos sistemas educacionais compartilham a mesma cadeia de reclamações. “Vemos os professores queixando-se dos diretores. Os diretores queixando-se dos ministérios ou secretarias. Os pais queixando-se dos professores. Os professores, dos pais. Todos queixando-se dos pesquisadores.”

Para Cuenca, precisamos mudar o foco do discurso do “como deve ser” para uma avaliação dos instrumentos disponíveis no dia a dia. “Precisamos definir a ‘identidade profissional’ a partir da realidade”, afirma Cuenca.

Ele defende uma liderança distribuída, em que exista um gestor dedicado às questões administrativas.

Cuenca apresentou pesquisas que mostram que mais da metade do trabalho realizado pelos diretores latino-americanos – e estabelecido em normas – é de caráter administrativo. Outros dados deixam ainda mais claro o descompasso: os ministérios não têm unidades dedicadas ao trabalho de diretor, não há representação sindical específica, não existe gestão de carreira nem escala de salários. Por fim, há poucas políticas de formação específicas para esses profissionais.

Cuenca também mostrou, durante sua fala, dados da Unesco que permitem desenhar um perfil do diretor escolar típico na América Latina. Veja a seguir.

O diretor de escola na América Latina
► Tem em torno de 47 anos de idade.

► Exerce a função há 9,8 anos. “É um grupo de diretores jovens, que não entraram há muito tempo no exercício da direção”, avalia Cuenca.

► É mulher (62,5% dos diretores são do sexo feminino).

► Trabalha em área urbana. Na maioria dos países da América Latina, a maior parte dos diretores (56,6%) exerce sua função em escolas nas cidades.

► Trabalha em escola pública. Com exceção do Chile, os países latino-americanos têm redes estatais maiores do que a privada. A média fica em 71,6% de escolas públicas e 28,4% de particulares.

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