Alunos de ensino superior enfrentam ansiedade, depressão e outros problemas psicológicos

A crise ocorre por não conseguirem lidar com as incertezas da vida profissional e com as pressões da vida adulta

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Muitos jovens acreditam que o vestibular é a maior barreira que têm de cruzar em sua vida escolar. No entanto, uma vez conquistada a vaga num curso de graduação, surgem desafios inesperados, que podem desestabilizar o equilíbrio emocional e psíquico dos estudantes: o nível de exigência de algumas disciplinas, o volume de leitura e trabalhos, a adaptação fora da casa dos pais e as dúvidas quanto ao futuro são alguns deles.

E não se trata de casos isolados. O Perfil Socioeconômico dos Universitários, realizado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2018, aponta que 8 em cada 10 alunos relataram sentir ansiedade e sensação de desesperança. Além disso, 6% deles informaram ter ideias de morte, e 4% deles, pensamentos suicidas.

Outro estudo, realizado por Ilton Teitelbaum na PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), aponta que 36% dos entrevistados (1.620 jovens de 18 a 34 anos) fazem ou já fizeram tratamento psicológico e outros 36% gostariam de fazê-lo.

Para ele, boa parte do mal-estar entre os jovens captado pela pesquisa está associado ao ambiente de pressão e instabilidade, especialmente quanto à vida profissional. “Saímos do mundo do emprego e estamos caminhando para o mundo do trabalho.

Este é um fenômeno mundial, mas no Brasil existem características especificas”, assinala Teitelbaum, que é coordenador do Laboratório de Pesquisas da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUC-RS.

Segundo o pesquisador, os jovens brasileiros, especialmente os da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), estão enfrentando o “primeiro solavanco” de suas vidas. “Eles foram preparados por seus pais para uma vida estável, mas estão chegando à vida adulta e se deparam com desemprego e com a instabilidade política. Por isso, sentem-se pressionados”, analisa Teitelbaum.

Alunos sem perspectiva

O medo do desemprego é um fator de pressão para estudantes universitários, especialmente os de pós-graduação, concorda a psiquiatra Tania Maron Vichi Freire de Mello, coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica (Sappe) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Depois de anos de esforço e dedicação para obter um título, a falta de perspectivas de inserção profissional é um fator que gera ansiedade”, explica a psiquiatra.

Na graduação, explica Mello, a adaptação à vida acadêmica pode ser difícil. “As exigências numa instituição de ensino superior são muito diferentes das de uma escola de ensino médio. Na universidade, é preciso ter uma autonomia que não era necessária no ensino médio nem para se preparar para o vestibular”, detalha (leia mais na matéria de capa).

Essa nova rotina pode fazer com que os jovens se sintam pressionados e entrem em sofrimento emocional. “As queixas comuns estão relacionadas a estresse, pressão por resultados e insegurança quanto ao futuro diante da escolha profissional que fizeram”, relata a psicóloga Débora Menezes da Silva Motta, do Setor de Apoio Psicopedagógico e Inclusão do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte.

Mas também há casos mais graves, com queixas de surgimento de sintomas de transtorno de ansiedade, transtornos do pânico e medicalização, em decorrência do baixo rendimento acadêmico e de problemas pessoais.

Segundo Débora, as pressões do cotidiano, a autocobrança por resultados e os desafios da contemporaneidade têm atingido os jovens cada vez mais cedo. “Antes, boa parte desses questionamentos surgiam quando iniciavam no mercado de trabalho”, afirma.

Nesse sentido, a psicóloga alerta para a incidência de suicídios entre jovens. “A questão do sofrimento mental sempre existiu, no entanto, a população mundial tem vivido períodos de grandes crises: econômica, cultural, política, moral e religiosa. Os sintomas dos jovens explodem nas instituições de ensino, pois é ali onde passam boa parte do tempo deles.”

O Mapa da Violência, realizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), aponta que desde 2015 o suicídio é a quarta causa de morte na faixa etária de 15 a 29 anos no Brasil. Em 2016, foram computados 11.736 casos – um aumento de 73% em relação a 2000.

Mobilização

O aumento de casos de suicídio reportados entre estudantes foi um dos fatores que levaram à criação da Frente de Saúde Mental na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A Frente é uma iniciativa dos alunos, com apoio da instituição.

Todos os meses, são realizados eventos e oficinas sobre temas que envolvem o bem-estar e a saúde emocional e psíquica dos estudantes. Os temas são variados, assim como as técnicas usadas – desde palestra sobre “saúde mental e democracia” até oficinas de arte, musicalização e psicodrama.

“A ideia da frente surgiu porque existe uma demanda grande. Muita gente nem fica sabendo dos problemas que alguns alunos enfrentam e não se fala sobre o suicídio”, afirma a psicóloga Isadora Nicastro Salvador, aluna do mestrado em Psicologia na UEL e integrante da Frente. “Tem bastante gente que está sofrendo em silêncio e, por isso, recorre a medicação tarja preta e a drogas”, aprofunda Isadora, que pesquisa o assunto e presta atendimento a quem precisa. Segundo ela, um indício do problema são as inscrições nos banheiros, onde se leem frases como “cadê o meu tempo?” ou “esse lugar roubou todo o meu tempo”.

A psicóloga considera que um aspecto que favorece o desequilíbrio emocional dos universitários é o fato de eles estarem chegando cada vez mais novos ao ensino superior. “Eles chegam com 17, 18 anos e com 20, 21 estão se formando. Parece que são imaturos, com mais dificuldade de lidar com as frustrações e com a pressão do que as gerações anteriores”, analisa.

A imaturidade é uma chave para explicar a deterioração da saúde mental de estudantes universitários, segundo Mauro Félix, professor de Gestão do Centro Universitário Celso Lisboa, do Rio de Janeiro. “Por não ter atingido maturidade suficiente para lidar com as incertezas no mercado contemporâneo, com a pressão por ser bem-sucedido e pela conquista do sucesso profissional, o jovem enfrenta quadros de estresse, depressão e ansiedade”, afirma Félix.

Acolhimento

Não existe uma via única para cuidar da saúde emocional e mental dos universitários. Como reitera Tania Mello, da Unicamp, o acolhimento do estudante que passa por dificuldades envolve o atendimento psicológico e de saúde, se necessário, somado à orientação de estudos e de carreira. “Na Unicamp, esse é um trabalho interdisciplinar, que envolve o serviço de atendimento ao estudante e os coordenadores de curso”, explica Tania.

Essa também é a linha adotada por outras instituições de ensino superior, como a Universidade Presbiteriana Mackenzie, que possui o Programa de Atenção e Orientação aos Discentes (Proato).

Segundo Rinaldo Molina, coordenador do Proato, muitos estudantes procuram atendimento psicológico porque estão com dificuldade em uma disciplina. “A primeira coisa é acolher e entender a demanda. Pode ser um caso de orientação de estudos, mas também pode ser uma pessoa que sofra de depressão, por exemplo, e algum fator ligado ao curso disparou o quadro”, explica Molina. “Nesses casos, trabalhamos muito de perto com o coordenador do curso para que sejam feitas as adaptações necessárias”, conclui.

As instituições de ensino podem desempenhar, então, um papel importante no cuidado e, mais do que isso, na prevenção dos problemas de saúde mental em seus estudantes. “As universidades precisam entender que o papel delas não está somente na formação técnica, mas sim na formação global”, afirma o professor Félix. Desse modo, além de preparar os professores para atuar no desenvolvimento integral do jovem, na opinião dele, cabe aos programas e serviços incluir a educação atitudinal e emocional, por meio de orientação, acompanhamento, aconselhamento e encaminhamento de estudantes.

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Foto: Shuttetstock

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