Ensino local, alcance global

Ex-reitor da Universidade de Salamanca e presidente do Comitê Organizador do III Encontro Internacional de Reitores Universia comenta a pesquisa que aponta para a aproximação da formação universitária com as necessidades do mercado nacional

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Ex-reitor da Universidade de Salamanca e presidente do Comitê Organizador do III Encontro Internacional de Reitores Universia comenta a pesquisa que aponta para a aproximação da formação universitária com as necessidades do mercado nacional

por Márcia Soligo e Luciene Leszczynski

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Uma pesquisa virtual realizada com mais de 20 mil integrantes de comunidades acadêmicas da América Latina, Espanha e Portugal apontou que a maioria dos estudantes está satisfeita com a sua formação universitária. Na sondagem, os brasileiros aparecem como os mais satisfeitos com a relação entre os conhecimentos aprendidos na universidade e as exigências do mercado de trabalho.

O levantamento faz parte das atividades preparatórias para o III Encontro Internacional de Reitores Universia, promovido nos dias 28 e 29 de julho, no Rio de Janeiro. O aquecimento para o evento conta ainda com seminários e fóruns on-line, antecipando-se ao debate a respeito da universidade do século 21, tema central do encontro.

Acompanhando o ritmo de preparação para a reunião internacional, a revista Ensino Superior conversou por e-mail com o presidente do Comitê Organizador do Encontro de Reitores Universia, e ex-reitor da Universidade de Salamanca, Ignacio Berdugo, para comentar os resultados do levantamento realizado pela organização do evento. Entre outras questões levantadas, a pesquisa mostra que os brasileiros são os que mais reconhecem avanços no acesso ao ensino superior pelas pessoas de menor renda.

Na entrevista a seguir, Berdugo ainda destaca o papel da internacionalização para as instituições universitárias. “Ao falar sobre internacionalização, não podemos deixar de ressaltar também a importância das universidades no desenvolvimento regional. Onde chega uma universidade chegam também cultura e cidadania. Essa é uma riqueza inerente a toda instituição de ensino superior e deve ser valorizada”, sugere.

Berdugo acredita que entre os papéis das instituições de ensino superior está responder às demandas das sociedades nas quais se inserem. Para ele, entre as necessidades mais importantes e recorrentes da atualidade estão a globalização e a universalização do conhecimento e da formação prática e sociocultural. “A internacionalização contribui com a mobilidade do conhecimento e também com a formação de profissionais capacitados para atuar tanto local como globalmente”, defende.

Ensino Superior: Qual é o objetivo principal da pesquisa realizada antes do III Encontro Internacional de Reitores Universia?
Ignacio Berdugo: As pesquisas integram uma série de ações preparatórias promovidas para o III Encontro, que englobam ainda debates e seminários virtuais que também estão disponíveis no site do evento. Essas ações visam fomentar as discussões sobre as prioridades e desafios do ensino superior, além de promover a participação de toda a comunidade acadêmica, entre professores, pesquisadores, estudantes e profissionais de gestão e serviços da América Latina, Portugal e Espanha. Os conteúdos gerados estão sendo contemplados na pauta de debates dos reitores durante o III Encontro, além de estarem disponíveis no site para consulta. Atualmente, constam na homepage 18 seminários on-line e os resultados de quatro das cinco pesquisas já realizadas, que contaram com a participação de mais de 60 mil pessoas.

Qual é o papel da internacionalização no ensino superior e como isso pode melhorar a educação universitária?
Para uma instituição se internacionalizar, ela deve estar capacitada para transpor as fronteiras culturais, políticas e econômicas, além de poder atuar em parceria com outras universidades e centros de pesquisa para ampliar e aperfeiçoar o resultado do ensino e da pesquisa. Isso requer estruturas organizadas, como a criação de escritórios que deem suporte ao aluno migrante e pesquisadores ou centros de pesquisas especializados no estudo de outros países. Além disso, o ensino precisa assegurar uma mobilidade do conhecimento, possibilitando que um profissional formado em instituições brasileiras possa atuar também em outros países, dentro da sua área de formação.

O senhor acredita que é indispensável para uma instituição ser internacionalizada?
Acredito que é papel das universidades responder às demandas das sociedades em que estão inseridas. E entre as necessidades mais importantes e recorrentes da atualidade estão a globalização e a universalização do conhecimento e da formação prática e sociocultural. A internacionalização contribui com a mobilidade do conhecimento e também com a formação de profissionais capacitados para atuar tanto local como globalmente.

Na sua opinião, qual é o ponto que merece mais atenção nos debates sobre ensino superior atualmente?
São muitos os pontos importantes e eles variam para cada região. Mas, ao falar sobre internacionalização, não podemos deixar de ressaltar também a importância das universidades no desenvolvimento regional. Onde chega uma universidade chegam também cultura e cidadania. Essa é uma riqueza inerente a toda instituição de ensino superior e deve ser valorizada. Portanto, a relação das universidades com as sociedades e a valorização dos projetos de extensão são também pontos importantes do debate atual. O III Encontro pode contribuir com a criação de mecanismos de financiamento e qualificação locais e globais.

Como o Encontro de Reitores impacta a realidade dos estudantes e a educação universitária na América Latina e Península Ibérica?
As edições anteriores do encontro, promovidas em Sevilha em 2005 e Guadalajara em 2010, criaram programas bilaterais de mobilidade de estudantes e troca de conhecimento que impactaram mais de 26.500 universitários nos últimos quatro anos. Esta terceira edição, que prevê reunir mais de 1.100 reitores das mais relevantes universidades de todos os continentes e figura como a maior iniciativa de aproximação internacional entre os líderes de instituições de educação superior, visa superar a própria marca com novos acordos que permitam às instituições transpor as fronteiras culturais, econômicas e políticas. As universidades ibero-americanas serão as protagonistas do Encontro e terão uma grande oportunidade para se projetarem internacionalmente.

Uma das pesquisas realizadas pelo Universia concluiu que o intercâmbio entre instituições de ensino superior e empresas deve ser intensificado. Como isso pode ajudar a educação?
A contribuição que a iniciativa privada pode oferecer à educação depende de cada cenário regional. No caso do Brasil, temos alguns exemplos de sucesso como programas de incentivo para projetos de extensão universitária, programas de intercâmbio, programas de incentivo a projetos e centros de pesquisa, entre outros. É de interesse de todos que um país tenha um sistema educacional eficiente e de qualidade. Inclusive das empresas que apostam em países que possuem bons profissionais e potencial de desenvolvimento.

Outro resultado do levantamento realizado para o Encontro de Reitores diz que a maioria dos entrevistados acredita que a universidade ensina o que é exigido pelo mercado de trabalho, cumprindo o seu papel de preparação de profissionais qualificados. Como o senhor analisa essa questão?
Isso mostra que a formação universitária está conectada com as necessidades do mercado nacional. No entanto, essa é uma questão que deve receber atenção constante, já que a formação de bons profissionais é importantíssima, pois um país que não investe em bons profissionais terá de importá-los para se desenvolver.

Que mudanças inerentes à educação superior o senhor citaria como importantes para a transformação de um país como o Brasil?
Para parte da população, que antigamente não tinha acesso a uma universidade, o ingresso nas salas de aula é, hoje, uma realidade. Segundo informações do Censo da Educação Superior de 2012, na última década o número total de matrículas no ensino superior brasileiro teve alta de 81%. Em 2003, foram registrados 3,8 milhões de matrículas e, em 2012, esse número saltou para 7 milhões. Questões como a ampliação do acesso aos ensinos básico e fundamental públicos e a implementação do sistema de cotas desempenham papéis relevantes nesta mudança de cenário. Essa última contribuiu inclusive para compor um novo perfil dos estudantes de nível superior

O Brasil vem observando a ampliação do acesso ao ensino superior graças a diversos fatores, mas ainda deixa muita gente de fora. Na sua opinião, qual ponto precisa de mais atenção na realidade brasileira?
Os desafios do Brasil são tão grandes quanto sua extensão territorial. Além disso, não possui uma distribuição populacional homogênea. Para garantir a igualdade de acesso ao ensino é necessário, entre outras medidas, descentralizar as universidades. O Brasil também possui menos visibilidade internacional do que merecem as suas instituições de ensino e pesquisa, são excelentes em diversas áreas.

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