Ensinando robôs

Professores da escola de negócios Saint Paul estão transmitindo conhecimentos para um sistema de inteligência artificial. Adriano Mussa explica que o objetivo é democratizar o acesso ao conhecimento

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Adriano Mussa, diretor acadêmico da Saint Paul: plataforma utilizará o sistema de inteligência artificial da IBM

A falta de sintonia entre a educação e os demais setores da economia inquieta os diretores da escola de negócios Saint Paul. Enquanto a produção e a circulação de bens e serviços mudam drasticamente, a aquisição de conhecimentos formal, mediada por uma escola, continua igual. Um profissional que quiser fazer mais um MBA, por exemplo, terá de cursar todas as disciplinas previstas no curso, mesmo que já tenha uma boa parte daquele conhecimento.

O LIT, plataforma de aprendizagem on-line que entrará em operação em março, é uma resposta a esse problema, explica o diretor acadêmico da instituição, Adriano Mussa.

A novidade opera com sistema de inteligência artificial (IA) e permite a criação de trilhas de formação individuais.

Ele mapeia a personalidade dos alunos para indicar quais técnicas de aprendizagem funcionam melhor para cada um deles e ainda testa seus conhecimentos para saber quais conteúdos devem ser priorizados em seus escassos tempos – uma característica comum a grande parte dos profissionais de hoje.

O sistema de IA também foi utilizado para criar um tutor-robô, batizado Paul. De acordo com Mussa, os professores estão transmitindo conhecimentos e didática ao robô para que ele seja capaz de responder as dúvidas dos alunos, como os próprios professores da Saint Paul o fariam.

O LIT entrará em operação com o conteúdo de aproximadamente 10 MBAs da Saint Paul, eleita em diversos rankings como uma das melhores escolas de negócios do mundo. “Se uma pessoa tirar um ano sabático e se dedicar 8 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, ela não conseguirá estudar nem 20% do conteúdo já disponibilizado”, conta.

Outro diferencial da plataforma é que ela estará disponível para qualquer pessoa pelo custo mensal de R$ 99. Ela atenderá tanto aqueles que precisam se atualizar constantemente como aqueles que estão buscando uma qualificação formal, inclusive o certificado de um MBA. Para este caso, contudo, será preciso cumprir alguns requisitos extras, como o professor detalha na entrevista que segue.

A Saint Paul está lançando o LIT, uma plataforma de aprendizagem que tem como diferencial o uso de inteligência artificial. Que são seus diferenciais?
Estamos utilizando o Watson, o sistema de inteligência artificial (IA) da IBM, para algumas coisas. Uma delas é para nos ajudar na personalização do ensino. A gente questiona muito o fato de os profissionais terem de rever, necessariamente, conteúdos que eles já sabem quando decidem fazer uma nova pós, um novo MBA. O executivo já sabe matemática financeira, mas porque está na ementa do curso, na grade curricular do curso, ele será obrigado a cursar essa disciplina de novo. A gente sempre questionou isso e agora, com o LIT, estamos rompendo com essa lógica. A cada novo tema de estudos, o Paul – como batizamos o tutor – fará uma avaliação do aluno para que ele possa trilhar um caminho de aprendizado personalizado.

Isso acontecerá sempre que ele acessar um novo tópico?
Sempre que ele acessar uma nova disciplina, o Paul vai convidá-lo a fazer autoavaliação para então sugerir que, daquele conteúdo de 16 horas da disciplina de Planejamento estratégico I, por exemplo, ele pule as duas primeiras unidades e curse apenas as duas últimas. A decisão final caberá ao aluno, mas se seguir a sugestão, ele poderá, de fato, trabalhar com micromomentos de aprendizado. Hoje se fala muito nesse conceito, mas trabalhar com micromomentos não é só permitir que o aluno acesse o conteúdo do smartphone. Eu preciso ir adiante e ajudar o aluno a otimizar seu tempo. Isso tem um valor muito forte, porque eu posso acelerar demais o aprendizado. Em vez de dois anos para cumprir a grade de um MBA, será possível completá-la em seis meses se a pessoa já tiver uma boa base de conhecimentos. Esse é um pedaço da personalização. O outro pedaço, que também utiliza muito IA, nos ajuda a descobrir alguns traços da personalidade do aluno.

Como isso é feito e que diferença isso fará no processo de aprendizagem?
Esse mapeamento será feito por meio de alguns inputs que o aluno vai nos fornecer. Eles se referem, basicamente, a textos autorais e incluem e-mails e mensagens do WhatsApp. Vamos pedir que o aluno copie e cole textos já prontos, e-mails já enviados, para compor esse quadro, que será construído como base na teoria do Big Five [que identifica cinco fatores da personalidade: neuroticismo, extroversão, abertura a novas experiências, amabilidade e conscienciosidade]. Acessamos estudos do mundo inteiro para criar dois algoritmos que nos possibilitassem dizer: pessoas com o perfil tal normalmente aprendem mais utilizando as seguintes técnicas de aprendizagem. Isso está no LIT e funciona como um coaching de aprendizagem. Sabe-se que pessoas muito introvertidas travam em grupos grandes de trabalho. Para essas pessoas, nós vamos recomendar que elas participem de grupos menores no LIT. Já as pessoas com elevado percentual no fator conscienciosidade costumam ser muito disciplinadas para estudar. Para estas, nós vamos sugerir que acessem os tópicos complementares.

Personalização do ensino para que o aluno possa otimizar seu tempo de estudos

Muito se fala na personalização da aprendizagem, mas plataformas como a Khan Academy ainda são muito simples perto do desejável. O LIT supera isso?
O LIT é o primeiro passo. A gente vai fornecer um relatório, um coaching de aprendizagem e ainda vamos ordenar os objetos de aprendizagem, considerando que há pessoas que lidam melhor com textos e outras com vídeos, infográficos etc. Naturalmente, alguns princípios serão respeitados. Se a gente acha que é importante que o aluno leia um texto antes de assistir a um vídeo, essa sequência será mantida. Mas, sempre que houver flexibilidade, o algoritmo vai ordenar de acordo com cada um. Afinal, por que alguém deveria perder tempo lendo um texto exaustivo se não absorve nada dessa forma? Essa pessoa vai desistir. Para ela, talvez seja melhor ver um infográfico e depois se aprofundar. Esse é um primeiro uso do Watson para personalização, tanto para dizer o que você vai estudar (ou o que a gente sugere que você estude), quanto como vai estudar.

Como o Paul aprende?
Imagina o seguinte: a programação tradicional trabalha da seguinte forma: se ‘isso’, então ‘aquilo’. E segue o caminho. Agora põe na sua cabeça um mapa de infinitos ‘se isso, então aquilo’. Se isso, então aquilo, mais aquilo, mais aquilo… E cada um desses nós com outros infinitos. É isso o que a IA permite que a gente faça. Desenvolvemos um jeito de colocar todos esses ‘se-então’ de determinados conteúdos para dentro do Paul para que ele fale com o aluno como o professor o faria.

Pensar em todas as possíveis perguntas e possíveis respostas parece um trabalho de infinitas horas. Os professores estão participando desse processo?
É um trabalho de muitas horas sim. A gente está dedicando muito tempo nisso – e o tempo de pessoas muito fortes para desenvolver o algoritmo. Temos uma equipe de cinco pessoas exclusivamente dedicadas a treinar o Paul. São as pessoas mais seniores que eu tenho aqui – e nós só temos professores altamente qualificados; todos são doutores. Qual é a nossa ambição? A gente quer facilitar o aprendizado do aluno e fazer com que mais pessoas tenham acesso a conteúdo de alta qualidade. Muitos professores já estão envolvidos e outros o serão. A partir de 1º de março, teremos três temas prontos, mas tem uma esteira de produção programada. A gente segmentou o processo em fases. O professor da disciplina faz um bom pedaço. Depois quem assume são os professores mais ‘núcleo’, que a gente tem na equipe de coordenadores.

E como um robô pode aprender didática?
Um professor que tem 15 anos de experiência na explicação de Ebitda, por exemplo, tem uma didática incrível. Só ele sabe as travas que o aluno tem quando chega a esse assunto. Ele fala disso há 15 anos e sabe todas as perguntas que serão feitas. Toda essa experiência do professor nós conseguimos passar para o Watson com a criação de um algoritmo próprio. O Watson já é bastante usado, mas para coisas muito simples. Já o conhecimento é complexo. Além da complexidade natural das coisas, tem muita ambiguação, do tipo: quando você pergunta sobre juros, você pode estar querendo saber da taxa Selic, dos juros do cheque especial, dos juros das Casas Bahia, enfim. São taxas completamente diferentes, apesar de o conceito ser o mesmo. Se eu fizer a pergunta no buscador, o resultado trará de tudo. Mas o Paul sabe dessas variações, porque a gente ensinou para ele que existem vários juros. E ele vai esclarecer isso do jeito que os alunos melhor entendem, porque aquele professor que há 15 anos explica aquele tópico o treinou a fazer isso.

Como surgiu a ideia de criar o LIT?
Surgiu com a nossa inquietação com o que está acontecendo ao nosso redor. O valor de mercado da Airbnb, que não tem nenhum quarto, nenhum ativo, é maior que o do Hilton. O Uber ele vale mais no mercado que a maior locadora de carros do mundo. Isso é disruptivo e não estávamos conformados com a ideia de que continuaríamos ensinando do mesmo jeito e cobrando cada vez mais caro. Porque existe uma corrida para aumentar a qualidade do ensino. E se eu aumento a qualidade, eu cobro mais caro. Nesse processo, em vez de democratizar, você vai eliminando pessoas. Você vai elitizando a educação.

Na contramão dos outros setores…
Exatamente. Com R$ 99 por mês, a gente vai conseguir que o aluno faça em dois anos, o que dá R$ 2,4 mil no total – praticamente toda a trilha de um MBA. Para conseguir o certificado, no entanto, ele terá de cumprir com todos os requisitos do MEC e com os requisitos que estamos estabelecendo, entre os quais uma parte presencial. Ele também terá de ser selecionado e aprovado. Mas imagine alguém que já tenha esses pré-requisitos e seja aprovado. Isso é completamente disruptivo. Em vez de pagar R$ 60 mil, que é o custo de um MBA hoje na Saint Paul, ele vai pagar bem menos de R$ 10 mil. No LIT, muita gente vai ter acesso a professores aos quais, de outra forma, não teriam contato.

Se o LIT crescer muito, como fica a sustentabilidade da escola?
A sustentabilidade fica ameaçada, mas estamos dispostos a enfrentar isso, pois estamos inconformados e os alunos também.

Há receio de que Paul substitua o professor no futuro?
Esse questionamento veio quando começamos a desenhar o projeto, mas na Saint Paul estamos convictos de que o Paul é mais um papel para o professor, que já escreve o livro, já grava as aulas… O professor jamais vai perder sua importância. O que nós estamos fazendo é facilitar o processo de aprendizagem do aluno, que terá o Paul 24h por dia, 7 dias por semana. Talvez isso o ajude, pois um dos maiores problemas do EAD é que o aluno se sente sozinho. Eu não consigo deixar um professor ou um tutor à disposição do aluno 24h por dia. Mas eu consigo colocar o Paul. É claro que há limites. O professor sempre saberá muito mais e, além disso, o conhecimento é infinito. A gente vai exaurir, ensinar tudo para o Paul? Impossível. Em nossa concepção, o ideal é o programa blended. Nele, o aluno faz tudo o que for possível on-line para que, na sala de aula, consiga avançar, sair da superfície.

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