Onde estão os empreendedores e investidores

Mapa da atividade empreendedora aponta a localização de startups, incubadoras e financiadoras no Brasil. O objetivo é fornecer uma radiografia do setor e estimular novos negócios

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Uma pesquisa inédita desenvolvida pela Fundação Getulio Vargas vem confirmando o que os especialistas da área já deduziam há algum tempo: a cidade de São Paulo é o principal celeiro da inovação no país e concentra a maior fatia do ecossistema empreendedor nacional. E mais: as microrregiões da Avenida Paulista e do bairro Vila Olímpia reúnem sozinhas quase a metade do total desses atores inseridos na maior capital brasileira.

Essa constatação é fruto de um trabalho em andamento desenvolvido pelo professor e pesquisador Gilberto Sarfati, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP) da FGV. Com apoio do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios (GVcenn), o docente contratou um serviço estrangeiro de mapas digitais e criou o site Mapped in Brasil. Pioneira, a iniciativa, que teve início em fevereiro deste ano, ganhou dimensão e já é considerada um dos maiores mapeamentos da atividade empreendedora do país.

Até o início de junho, o mapa – que utiliza como base a estrutura do Google Maps –mostrava mais de 850 pontos, distribuídos em 14 diferentes indicadores.

Dentre os dados mais significativos, o projeto apontava a existência de 221 incubadoras de negócio, 53 aceleradoras, 46 instituições de venture capital – financeiras que fornecem capital de risco – e 206 startups, número este que deve crescer de forma mais acentuada que nas demais categorias.

Já as instituições de ensino superior que desenvolvem algum tipo de atividade empreendedora também entraram no radar. Inseridas na guia ‘Pesquisa e tecnologia’, o indicador mostrava 28 pontos, dentre eles a própria FGV, o Instituto Gênesis, da PUC-Rio, e o Núcleo de Inovação Tecnológica da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc).

Após o recente boom do empreendedorismo no país, o Mapped in Brasil se tornou uma ferramenta importante para aproximar os diversos atores desse ecossistema. Construído num modelo de crowdsourcing, ou seja, de forma colaborativa, cada ponto é adicionado no mapa pela própria pessoa ou instituição sem custo algum. Como ressalta o professor Gilberto Sarfati, o mapa é um “projeto do bem”. “Ninguém paga para se cadastrar e não ganhamos nada com isso”, explica o idealizador.

Assim, uma startup sediada no Paraná, por exemplo, tem a possibilidade de, através do mapa, entrar em contato com uma das três venture capital marcadas em Curitiba e sondar um investimento para o seu projeto. Além disso, o jovem empresário descobrirá a existência de outras três incubadoras na capital paranaense e também da aceleradora Hotmilk, que é ligada à PUC-PR e ajuda a alavancar novos negócios.

De olho nos investimentos externos
O Mapped in Brasil também contribuiu para revelar algumas discrepâncias. Se, por um lado, as regiões Sul e Sudeste são as que apresentam maior concentração de pontos, os estados do Norte e Centro-Oeste ainda enfrentam grande carência em todos os segmentos do ecossistema empreendedor, e em especial na área de financiamento.

“O mapa tem 46 pontos de venture capital e nenhum deles está nas regiões Norte e Centro-Oeste[39 estão no Sudeste, cinco no Sul e dois no Nordeste]. Quer dizer que não há investidores nesses estados, e isso tem uma implicação que já estudamos. Essas empresas investem, normalmente, até 100 quilômetros de onde estão sediadas. Com isso, dificilmente uma startup local conseguirá receber investimentos nestes lugares”, ressalta o professor sobre um dos resultados preliminares do projeto.

E além de revelar, geograficamente, o cenário do empreendedorismo para os próprios atores brasileiros e com isso apontar o que poderíamos chamar de ‘rota da inovação’, o objetivo mais valioso, segundo Sarfati, é que o Mapped in Brasil permite a abertura desse panorama para além das fronteiras nacionais. “Nossa ambição é que o mapa seja uma ferramenta de apoio para a vinda de novos investidores estrangeiros ao Brasil e que, através dele, possam perceber que o nosso ecossistema é muito maior do que se imagina”, afirma o professor.

Gilberto Sarfati, professor da FGV: a
inspiração veio de uma iniciativa israelense

A inspiração para a iniciativa veio de um projeto internacional. Com quase uma década de pesquisas na área, Gilberto Sarfati conheceu a plataforma Mapme, criada por um jovem americano que, em 2012, lançou o primeiro mapa de um ecossistema empreendedor no território de Israel. Com o sucesso desse experimento, o professor, juntamente com o apoio da FGV, adquiriu uma licença e lançou a versão brasileira em fevereiro de 2017. Sem a necessidade de maiores investimentos e sediado numa sala da própria fundação, o Mapped in Brasil começou a ganhar forma.

Com ajuda de um estagiário, Sarfati deu o start no projeto e nas duas primeiras semanas fez a marcação manual de aproximadamente 200 pontos. Já com esta base inicial, o Mapped in Brasil passou a ser divulgado nas redes sociais e praticamente de imediato iniciou o efeito de multiplicação. Organizações como Sebrae e Senai ingressaram no mapa e com elas trouxeram outras centenas de instituições. Já no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os pontos começaram a ‘pipocar’ no mapa logo após um executivo do Grupo RBS compartilhar a publicação em uma rede social.

Guia para políticas públicas
Ainda recente, o mapa deverá seguir o seu caminho natural de expansão nos próximos meses, principalmente com a adição de novas startups – categoria pouco representada. Segundo algumas estimativas, o Brasil tem entre 2,5 mil a 4 mil startups, número bastante volátil devido à própria natureza de risco da atividade. Mas é numa perspectiva de médio prazo que os resultados começarão a ganhar forma. E um dos principais frutos, comenta Sarfati, será a utilização desse banco de dados para o estabelecimento de políticas públicas focadas nas necessidades e características de cada região.

Enquanto ganha corpo, o idealizador do mapa acompanha de perto o desenvolvimento iniciativa, que cresce de forma independente. A única intervenção necessária é a sua aprovação – que é feita de forma quase imediata – para que cada novo ponto cadastrado fique visível no mapa. “Apesar de ser um crowdsourcing, os pontos não aparecem automaticamente. Eu faço toda a curadoria. Olho o cadastro e vejo se os dados batem. O objetivo é que assim tenhamos acuidade na informação”, explica Sarfati.

E com cada vez mais pontos inseridos, o projeto deverá dar um novo passo num futuro próximo. O professor da FGV revela que já estuda a possibilidade de criar um relatório com a síntese e as análises advindas do mapeamento. “Estamos gerando um grande fundo de matéria-prima para nós mesmos pesquisarmos. A ideia é criarmos um indicador desse ecossistema para que possamos publicá-lo anualmente”, completa.

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