Empoleirados no fio da literatura

Os pássaros continuam muito presentes e centrais em narrativas para crianças e jovens

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O deslumbramento humano pela natureza e por quem nela vive aparece na literatura de forma recorrente. É possível observar tal fascínio nas fábulas de La Fontaine (1621-1695), nas lendas indígenas, nos contos populares russos e em tantas outras expressões de lugares e tempos diversos que fica difícil listar todas elas. Dentre os seres que habitam esse mundo natural, selvagem, talvez os pássaros sejam os mais lembrados pelos autores de livros infantojuvenis. É o que se supõe ao somar os volumes enviados pelas editoras à redação de Educação, desde o início do ano, com temas centrais ligados ao que os pássaros podem representar para o homem, sua imaginação, seu desejo de liberdade.


Tão empenhado como os irmãos Grimm na Alemanha, o russo Alexander Afanássiev (1826-1871) registrou e editou 600 contos tradicionais disseminados oralmente em sua cultura. Entre eles, os seis que compõem a coletânea O pássaro de fogo: contos populares da Rússia, cujo fio condutor é justamente a importante presença das aves no percurso das narrativas. Em “Língua de pássaro”, a saga do herói Vassíli tem início porque ele consegue entender a fala de um rouxinol. Na história, o mesmo saber mágico que leva o menino a uma desventura o faz encontrar a felicidade no futuro. Este ciclo também é percebido no conto que dá nome ao livro.
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Já o livro O pássaro do sol, da escritora baiana Myriam Fraga, apresenta o surgimento do fogo segundo uma lenda indígena. Quais atributos dev ter o guerreiro designado a buscar as chamas no sol? Um deles é coragem, o outro é conseguir alçar voo rumo ao astro. Ao passo que se lê as palavras de nhá Inácia contando essa jornada às crianças de férias na fazenda, as ilustrações da argentina Anabella Lopez invadem as páginas duplas do livro para completar a narrativa. A relação entre imagem e texto é diferente da encontrada em O pássaro de fogo, no qual os desenhos de Nicolai Troschinsky são menos constitutivos das histórias e mais simbólicos.


Em Os pássaros, o livro é a ilustração. O premiado trabalho a guache dos suíços Germano Zullo e Albertine estimula a pensar em diversos motivos que podem ter levado o motorista de um caminhão a estacionar no fim da estrada e libertar dezenas de pássaros. Deixa ainda para o leitor a reflexão sobre o que levou um único pássaro a não voar com o resto do bando quando lhe foi devolvida a liberdade.


O sonho de voar como um pássaro é o mote de O avião de Alexandre, o menino que queria percorrer todo o seu vasto reino. Nesse caso, a mineira Anna Cunha ilustra exatamente o que o texto de sua conterrânea Alaíde Lisboa nos entrega, até mesmo o momento em que “Alexandre corria batendo os braços como se fossem asas, mas os pés não saíam do chão”.


Em Poemas empoleirados no fio do tempo, Neusa Sorrenti se lembra dos pássaros ao escrever uma justificativa poética para a composição de seus versos, dedicados a estações do ano e comemorações anuais. “E não é que os passarinhos resolveram fazer ninhos bem perto de onde havia alguns velhos calendários? Levaram palha e alfazema e cada um se aninhou num cantinho de um mês e teceu o seu poema.”

Saiba mais


O avião de Alexandre, de Alaíde Lisboa, ilustrações de Anna Cunha (Peirópolis, 22 págs., R$ 32)


O pássaro de fogo: contos populares da Rússia, edição de Alexander Afanássiev, tradução de Denise Sales, ilustrações de Nicolai Troshinsky (Berlendis&Vertecchia, 78 págs., R$ 38)


O pássaro do sol, de Myriam Fraga, ilustrações de Anabella López (Girafinha, 60 págs., R$ 28)


Os pássaros, de Germano Zullo e Albertine (Editora 34, 72 págs., R$ 39)


Poemas empoleirados no fio do tempo, de Neusa Sorrenti, ilustrações de Marta Neves (Autêntica, 72 págs., R$ 39)

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