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Como identificar as demandas pontuais de oportunidades e mudanças sociais para sair na frente com o lançamento de novos cursos por Antonio Carlos Santomauro …

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Como identificar as demandas pontuais de oportunidades e mudanças sociais para sair na frente com o lançamento de novos cursos

por Antonio Carlos Santomauro

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Explorar oportunidades e aproveitar nichos são práticas usuais presentes nas estratégias de mercado de qualquer segmento da economia. No caso do ensino superior, por exemplo, após o anúncio do Brasil como sede das próximas edições da Copa do Mundo e Olimpía­das, houve a necessidade de criar diversos cursos relacionados a temas como organização de grandes eventos e esportes. No processo de lançamento de cursos inéditos e inovadores, as instituições educacionais valem-se de circunstâncias e ocasiões específicas – como no caso da própria Copa e Olimpíadas –, mas precisam estar atentas e considerar sobretudo outras demandas não atendidas, como sociais e de mercado.

A princípio, grande parte desses novos cursos materializa-se como extensões ou especializações, que, além de não requererem credenciamento prévio no Ministério da Educação e exigirem menor dispêndio inicial de recursos, servem como testes para estabelecer produtos mais duradouros. Algumas instituições mais ousadas, porém, já partem para a formatação de uma nova graduação ou pós stricto sensu, muitas vezes saindo na frente do próprio mercado.

Entre as áreas em que atualmente disseminam-se de maneira mais acelerada cursos ainda pouco comuns estão as relacionadas a conceitos como bem-estar e qualidade de vida, passíveis das mais diversas abordagens, começando pela saúde e desdobrando-se em vertentes como estética e terapias alternativas, entre outras. Nesse campo, apenas na última década, a Universidade Anhembi Morumbi lançou as novas graduações em naturologia e quiropraxia, e transformou em graduações os cursos de estética e podologia, antes oferecidos na modalidade técnica.

Força para ousar
Além de ousar, para lançar cursos desse gênero, destaca Josiane Tonelotto, pró-reitora acadêmica da Anhembi, a instituição precisa dispor de uma marca suficientemente forte para referendar a novidade. “Precisa reservar um tempo para a maturação do produto, correspondente a pelo menos uma vez e meia a quantidade de anos necessária para a sua conclusão”, acrescenta. Na Anhembi, esses cursos ainda estão em fase de consolidação, conta Josiane.

No entanto, alguns fatores não controláveis pela instituição podem interferir no processo. Quiropraxia, por exemplo, forma profissionais ainda não formalmente reconhecidos no Brasil, o que atrapalha sua popularização.

De acordo com Inajara Vargas Ramos, pró-reitora de ensino da Universidade Fee­vale, onde o curso foi lançado em 2000, o fato de essa profissão não estar ainda regulamentada vem reduzindo a procura pela graduação. Ela conta que a Feevale disponibilizou este ano cem vagas, em dois vestibulares, e preencheu metade delas.

Outro problema enfrentado pelo lançamento de cursos inéditos é ganhar espaço entre tantas instituições e opções de graduações ofertadas. Ainda assim, para Inajara, vale a ousadia de quem quer sair na frente, como no caso da Feevale, pioneira no curso de quiropraxia. Ela conta que a Feevale agora aposta no mestrado em economia criativa que começa a ser oferecido no próximo ano. “Um dos grandes desafios do lançamento de um novo curso é a diversidade de oferta de instituições e cursos, o que exige agilidade de quem quer sair na frente”, diz a pró-reitora.

Plano estratégico
A expansão do interesse por assuntos relacionados aos conceitos de qualidade de vida e bem-estar vem sendo aproveitada também pela Universidade São Francisco (USF), que está lançando este ano uma pós-graduação lato sensu voltada a fitoterapia, alimentos funcionais e suplementação. Outra pós ainda pouco comum ofertada pela USF é em psicologia do trânsito. Para o lançamento do curso e a estruturação do currículo, a universidade se baseou na perspectiva da obrigatoriedade da especialidade para os profissionais responsáveis pelas avaliações psicológicas necessárias à habilitação de motoristas. Lançada em 2009, essa pós já formou cinco turmas – em campi localizados em São Paulo e em Campinas –, e, de acordo com Iara Andrea Alvares Fernandes, pró-reitora de ensino, pesquisa e extensão da USF, a demanda é crescente.

Qualquer novo curso, ressalta Iara, deve estar alinhado ao planejamento estratégico da instituição, e fundamentar-se na atividade de profissionais com expertise nos respectivos conteúdos. “O modo mais eficaz para construir um curso sólido é seguir as diretrizes propostas por profissionais que atuam na área”, comenta. “Na USF, temos especialistas que avaliam os movimentos em seus respectivos campos de conhecimento, assim como áreas que mantêm contato com empresas, e colaboram na concepção de novos cursos”, acrescenta Iara.

Fortalecendo a expertise
A importância do contato com empresas como fonte de subsídios para o lançamento de um novo curso é ressaltada também por José Luiz Trinta, diretor de negócios do grupo Ibmec. Segundo ele, os alunos de cursos formatados a partir desse intercâmbio podem inclusive servir como campo de geração de demandas para outros projetos.

O Ibmec lançou este ano o curso Gestão de MMA, de 64 horas de duração, e decorrente do grande interesse hoje no Brasil por essa modalidade de luta. “Percebemos que muitos de nossos alunos praticam MMA. Em duas semanas, preenchemos 27 vagas do curso”, conta Trinta. O Ibmec já lançou também cursos – de pós ou de especialização –, focados em temas como marketing esportivo, gerenciamento da moda e design thinking, entre outros.

Para minimizar riscos e potencializar os benefícios, Trinta recomenda associar qualquer novo curso a um know-how já consolidado na instituição. “Tirando o marketing esportivo, nossos MBAs e pós são sempre linkados a nossos cursos de graduação, pois são áreas nas quais já temos conhecimento, estrutura e pessoal”, ressalta o diretor.

A criação de cursos pouco comuns pode ainda ser usada para redirecionar ou fortalecer a marca de uma instituição. Essa é uma das premissas com as quais trabalha a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, que desde 2003 vem renovando a grade de cursos. Entre os últimos lançamentos estão as graduações em gestão para inovação e liderança, realização audiovisual e outro de produção fonográfica, voltado a músicos e produtores de rock.

Nesse caso, a geração de receita não é o foco principal, como conta Gustavo Fischer, gerente dos cursos de bacharelado da Unisinos. “Até porque não são formatados para grandes turmas, mas eles formam porta-vozes da instituição como instituição inovadora”, destaca Fischer. Segundo ele, esse gênero de cursos também ajuda a instituição a se renovar, possibilita a experimentação de metodologias diferenciadas de ensino, e serve ainda para revigorar os conteúdos dos cursos mais tradicionais, que com eles podem estabelecer intercâmbios.

Mas nem sempre os cursos experimentais conseguem se estabelecer definitivamente. A própria Unisinos há cerca de três anos não abre novas vagas para a graduação tecnológica em gestão cultural. “É um curso reconhecido pelo MEC, mas não vinha tendo demanda relevante, e estamos decidindo o que fazer com ele”, conta Fischer.

Atenção social
O desenvolvimento de um curso inovador pode apoiar-se em parâmetros habi­tuais das fórmulas de marketing, como a existência de um público capaz de demandá-lo (o chamado público-alvo). Mas diversas oportunidades, ressalva Mauri Herdt, vice-reitor da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), são percebidas basicamente pela observação de movimentos conjunturais mais amplos, e não exatamente de um público predefinido.

Ele cita o caso da realização no Brasil da Copa do Mundo e das Olimpíadas, que a princípio foram vistas como uma oportunidade para a formação de gestores de eventos esportivos. Após as recentes manifestações populares, esses grandes eventos se tornaram alvo de críticas, exigindo o redirecionamento do investimento público para áreas como saúde, educação, mobilidade e segurança. Nesse sentido, de acordo com Herdt, novas demandas de desenvolvimento foram criadas, o que leva à geração de novas formações. “Uma das áreas que se amplia para a criação de novos cursos e especializações, por exemplo, é a da segurança pública. É um de nossos cursos mais procurados”, cita o gestor.

A Unisul é também uma das poucas instituições de ensino superior brasileiras que, assim como a Anhembi, disponibilizam graduação em naturologia. “Há cursos que o próprio mercado aceita, mesmo sem conduzirem a uma profissão regulamentada. É o caso desse curso, que desde seu lançamento, em 1998, ocupa todas as 40 vagas que disponibiliza em cada um dos dois vestibulares por ano”, afirma Herdt.

Integrando conhecimentos
A interdisciplinaridade é também apontada como balizadora relevante do processo de desenvolvimento de cursos novos e inovadores. “É essa uma das premissas de nossa recém-lançada pós em economia criativa”, destaca Inajara, da Feevale. Para ela, além das indispensáveis percepções e pesquisas de mercado, uma instituição pode minimizar os riscos inerentes ao lançamento de um novo curso com um componente adicional. “É preciso estabelecer o que a novidade vai agregar de diferencial à oferta do curso”, recomenda Inajara.

Também Herdt, da Unisul, destaca a interdisciplinaridade como tendência marcante no processo de lançamento de novos cursos, e pensa até na possibilidade de cruzamento de conteúdos aparentemente pouco afins, como saúde e engenharia civil, direito e empreendedorismo, esporte e inovação. Ele lembra ainda que um curso nascido dessas possibilidades não necessariamente precisa constituir uma graduação ou uma pós, podendo, ao menos inicialmente, ser criado em forma de uma extensão ou especialização.

O vice-reitor da Unisul lamenta, porém, a morosidade das instituições de ensino em antever as necessidades de mercado, que somente quando notam indícios fortes de existência de um nicho mobilizam-se para atender tal demanda. Além disso, ao atendê-la muitas vezes precisam enfrentar a desconfiança com a qual o mercado geralmente encara o novo projeto. “Um desafio para cursos inovadores é conseguir que estudantes e o mercado de trabalho reconheçam a existência dessa demanda”, ressalta Herdt.

Vencidas as resistências iniciais, um novo curso só se consolidará definitivamente caso ofereça um conteúdo de qualidade. Para isso, as instituições precisam atender a algumas normas básicas. “Devem garantir a qualidade dos profissionais que irão ministrar e gerir o curso, a qualidade das instalações onde ele será ofertado, e atender às demandas dos alunos, o que não significa ser leniente quanto aos procedimentos próprios do curso”, recomenda Iara.

Idas e vindas
Alguns novos cursos, observa Mauri Herdt, vice-reitor da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), consolidam-se sem muitos percalços, mas outros logo desaparecem sem deixar vestígios. E existem também ciclos, nos quais cursos tradicionais durante algum tempo são relegados a um plano secundário, e em seguida revigorados. “A engenharia civil durante algum tempo foi pouco demandada, e hoje tem grande procura”, exemplifica. Na opinião de Josiane Tonelotto, pró-reitora acadêmica da Universidade Anhembi Morumbi, podem estar atravessando uma etapa de menor demanda os cursos de fonoaudiologia e terapia ocupacional, hoje com menos espaço nas grades das instituições. Outros cursos, pensados a partir da realização dos eventos esportivos no Brasil, e associados a temas como hospitalidade e eventos, também não tiveram o impacto e demanda esperados. “Os cursos surgiram, e foram ofertados, mas não tiveram demanda suficiente, e assim não houve o esperado aumento na quantidade de cursos, principalmente de especialização”, diz Josiane.

 

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