Em busca legado

Eventos esportivos que serão sediados pelo Brasil têm estimulado investimentos na área de educação, mas não devem ser suficientes para superar a falta de equipamentos e incentivo ao esporte nas escolas

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Portal da Copa/ ME
Projeção da Arena da Amazônia, em Manaus: investimento poderia resultar em mais de mil quadras poliesportivas


Não há dúvidas de que os eventos esportivos que o Brasil sediará no intervalo de dois anos – a Copa do Mundo, as Olimpíadas e as Paraolimpíadas – trouxeram à tona diversas questões até então adormecidas do debate público. Os grandes eventos abriram as portas para reivindicações, questionamentos e cobranças. Mas o chamado “legado esportivo” que ficará desse cenário também pode resvalar para a educação, talvez de maneira positiva.

No caso da Copa, prestes a ser realizada, os trabalhos come­çaram há pelo menos quatro anos, com projetos voltados para a prática esportiva nas escolas. As iniciativas são desenvolvidas especialmente por entidades da sociedade civil, sem participação governamental direta. Já nas Olimpíadas, a serem realizadas em 2016, o governo federal trabalha com metas para intensificar o incentivo à prática esportiva nas escolas até o ano da competição.

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De acordo com o diretor do departamento de Esporte de Base e de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, André Arantes, a participação em jogos escolares em 2013 chegou a 4,1 milhões de alunos, superando a meta inicial de 3,8 milhões. Juntando os programas Segundo Tempo, de incentivo ao esporte em áreas de vulnerabilidade social, e o Mais Educação, de educação integral, o governo estima que a prática esportiva tenha chegado a 8,6 milhões de estudantes no ano passado.

Outra meta superada é a da construção de quadras esportivas. Segundo o Ministério da Educação, entre 2011 e 2013 foram investidos R$ 2,8 bilhões na área, acima da meta de R$ 400 milhões nesses equipamentos até 2016. Para este ano, o investimento deve alcançar 10.116 escolas com quadras esportivas novas ou cobertas com recursos do governo federal.

Embora os números pareçam altos, eles se apequenam comparados com o tamanho dos desafios. Num universo de 50,5 milhões de estudantes na Educação Básica, cerca de 13 milhões foram beneficiados pelos programas Mais Educação, Segundo Tempo e Atleta na Escola. O diretor do Ministério do Esporte admite que as metas estão sendo alcançadas, mas não resolveram a dificuldade das escolas brasileiras em garantir o acesso ao esporte. “Do ponto de vista do compromisso estamos muito bem, mas a pergunta é: qual a necessidade do Brasil? Se é ofertar a 100% das crianças e jovens a prática do esporte da escola, em todas as suas possibilidades, tem-se ainda muito o que avançar”, analisa Arantes.

Defasagens
Segundo levantamento com base em dados oficiais de 2011 da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), faltam aulas e ambientes adequados para a prática esportiva nas escolas brasileiras. O estudo mostra que 83% das escolas têm aula de educação física, sendo que a porcentagem varia de acordo com a região. Vai de 67,7% no Nordeste a 99,3% no Sul. No ensino médio, 71,1% das públicas e 69,9% das privadas têm quadras esportivas polivalentes. No ensino fundamental, a situação piora: apenas 27,5% das escolas públicas e 48,1% das particulares têm quadras.

A Andi alega que, com o valor investido na Arena da Amazônia, estádio que está sendo construído para os jogos da Copa em Manaus (AM), seria possível fazer 1.051 quadras poliesportivas cobertas, que beneficiariam 168.160 alunos por dia. O cálculo foi feito quando o investimento na Arena estava previsto em R$ 515 milhões. Hoje o valor já foi recalculado para R$ 669,5 milhões, o que acrescenta ao cálculo da Andi 315 novas quadras.

Para a socióloga e especialista em infância e adolescência Graça Gadelha, a dívida do Estado brasileiro na promoção dos direitos das crianças e adolescentes vai continuar. “Independentemente dos grandes eventos, a situação já era preocupante. Perdeu-se a oportunidade de pensar o direto ao esporte e ao lazer de forma mais organizada.”

Graça acrescenta: “O Brasil tem índices positivos no direito à educação, mas conta com uma grande defasagem na complementaridade a esse esforço: no esporte, cultura e lazer”.

Copa
Em 2013, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) começou a implementar no Brasil o projeto Os 11 pela Saúde. O projeto existe desde 2009 e já foi aplicado em 19 países. O governo brasileiro entra como parceiro dessas atividades.

Os 11 pela Saúde começou em Cu­ritiba e deveria chegar em fevereiro às demais 11 cidades-sede do mundial (Manaus, Fortaleza, Natal, Recife, Salvador, Cuiabá, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). O projeto, que será concluído até o início da Copa, poderá se estender a todo o país a partir de 2015. Em Curitiba, foram escolhidas 15 escolas, uma turma de cada. Os alunos, de 10 e 11 anos, tiveram 11 aulas de 90 minutos, cada uma com dois tempos distintos de 45 minutos, como numa partida de futebol. Em cada uma das demais cidades, participarão 11 escolas com turmas de alunos com 11 e 12 anos.

O programa consiste em 11 mensagens baseadas nos principais problemas globais de saúde. Utilizando termos do futebol, são abordados temas como o controle de peso e a importância da higiene pessoal e da vacinação. As aulas têm uma parte teórica e uma parte prática. Cada uma delas é reforçada por depoimentos em vídeo de um astro do futebol, como Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e Marta. “O conteúdo é complementar ao que já se trabalha na escola. Eu acho essencial que aconteçam atividades como essa. O impacto tem de acontecer. Não pode vir um evento que mobiliza tanto a cidade e não ter contribuição nenhuma para a educação”, diz a gerente de Educação Integral do Departamento de Ensino Fundamental da Secretaria de Educação de Curitiba, Giseli Marzalek Gumiel.

O universo que será beneficiado pelo programa da Fifa é pequeno – no total, 136 escolas – se comparado às 192 mil escolas de ensino básico no Brasil, das quais 154 mil, ou 80%, são públicas.

Com outro foco de atendimento, uma parceria do Instituto Rodrigo Mendes, da Fundação FC Barcelona e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) tem como objetivo o aprendizado dos estudantes com deficiência nas escolas regulares. O projeto Portas Abertas para a Inclusão – Esporte para Todos conta também com a parceria do governo federal. Até o momento, a iniciativa envolveu 183 escolas com o desenvolvimento de 121 projetos locais nas 12 cidades-sede. Os professores e gestores são formados para desenvolver uma educação física inclusiva nos centros de ensino.

“A escola é um grande palco, onde o trabalho de formação e sensibilização em relação às diferenças deve estar presente com o envolvimento de toda a comunidade escolar. É neste ambiente que também se manifestam várias facetas do preconceito em todo ser humano, mas ninguém quer admitir”, diz o professor de educação física João Ferreira Marques Filho, da escola municipal Rozemar de Macedo Lima, de Recife, em depoimento ao programa.

Rodrigo Hübner Mendes, do Instituto Rodrigo Mendes, explica que é importante que os educadores partam da premissa de que é imprescindível repensar as aulas de educação física, de forma a garantir a participação dos estudantes com deficiência.

“Isso envolve, em primeiro lugar, entender as particularidades de cada estudante. Com base nisso, o educador deve replanejar recursos e regras com o objetivo de permitir que essas particularidades sejam contempladas. Para isso, o educador pode partir das atividades usuais de suas aulas, como, por exemplo, as modalidades dos esportes, ou criar atividades totalmente novas.”

Inglaterra
Outra iniciativa, uma parceria do governo brasileiro com a Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), tenta trazer para o Brasil a experiência dos ingleses com as Olimpíadas de Londres em 2012. São Paulo sediará um seminário em setembro com conferencistas do Reino Unido, Estados Unidos, Holanda, China, Alemanha, Austrália e Brasil. A universidade de Birmingham é referência no país na área esportiva, conta com diversos atletas olímpicos entre seus estudantes e chegou a servir de local de pré-treinamento para a equipe jamaicana de atletismo em 2012.

O seminário será voltado às universi­dades, mas as conferências serão transmitidas e disponibilizadas on-line, possibilitando acesso também aos professores de Educação Básica.

O professor de políticas do es­porte da Universidade de Birmingham, Jonathan Grix, um dos or­ganizadores do evento, diz que quando se pensa em um legado é preciso considerar as especificidades do Brasil, bem diferentes da realidade britânica. Enquanto aqui nem todas as escolas possuem aulas de educação física, lá todas as escolas têm um currículo esportivo. “Com as Olimpíadas acontecendo, é mais fácil fazer com que os mais jovens se interessem pelos esportes. Por isso é importante investir e colocar bons professores nas escolas.”

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