Educação universitária em tempos de cibercultura

ENSAIO | Edição 199 Tecnologias não pensam, não formulam estratégias pedagógicas, não implementam ou aprimoram metodologias por Cristina Zukowsky Tavares Gosto de pensar que …

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ENSAIO | Edição 199

Tecnologias não pensam, não formulam estratégias pedagógicas, não implementam ou aprimoram metodologias

por Cristina Zukowsky Tavares

© iStockphoto

Gosto de pensar que o jovem universitário de hoje, uma geração que nasceu depois dos anos 1980, integra um grupo de pessoas engajadas na formação de melhores espaços de convivência e compartilhamento de ideias e projetos. Um grupo que não se conforma com a vida pulsando em compasso contrário ao desenvolvimento de novas interfaces digitais.

Como interagem os jovens estudantes hoje com o mundo ao seu redor e com a construção de novos saberes? Posso insistir na aula magistral, técnico-linear, de exposição e transmissão de conteúdos, revisão, seguida dos exames unicamente na modalidade lápis e papel quando o mundo fervilha com opções para moldar novos contextos e cenários de aprendizagem de forma crítica, integrada e colaborativa?

Que bom que a “aula” na qual eu fui formada envelheceu diante dos apelos e necessidades dessa nova geração, mais  questionadora e que acessa rapidamente qualquer tipo de informação em sala de aula e está sempre pronta a compartilhar sem limite de fronteiras físicas e temporais.

No entanto, toda essa avidez pela tecnologia pode ou não ser canalizada para a investigação científica, para buscas sistemáticas e pesquisas mais elaboradas em bancos de dados confiáveis, bibliotecas virtuais e grupos de estudo no contexto nacional e externo e que resulte em inovações que repercutam na qualidade de vida das pessoas. Urge repensar também a construção de valores, de projetos e de saberes que permitam o desenvolvimento socioeconômico, cultural e pessoal. Em vez de consumir aulas prontas e empacotadas e nos contentar em ter todas as respostas instantaneamente, penso que poderíamos seguir fazendo perguntas, traçando novas metas, desequilibrando nossa forma de conceber e planejar o ensinar e o aprender na universidade.

Hoje, em cursos de formação docente nas licenciaturas e pós-graduação lato e stricto sensu, procuro desenvolver parte da mediação e aprendizagem usando plataformas digitais em ambientes virtuais de construção de saberes. Fazemos uso de aprendizagens em redes colaborativas por meio de instrumentos como os e-portfolios reflexivos para a construção de competências político-pedagógicas e profissionais.  Ao formar docentes do ensino superior tendo como um dos eixos estruturadores o planejamento, discuto em primeira instância a quem o projeto ou aula está endereçada e quais concepções e cenários sociopolíticos, filosóficos e pedagógicos norteiam nossas escolhas docentes.

A mudança de contextos e perfis me leva a pensar em diferentes planos de ensino.  Estimulo os estudantes dessa geração e também os que saíram da exclusão digital na fase adulta a descobrir possibilidades de interação e construção ativa on-line e off-line. A mudança nos contextos, usos e preferências do alunado desencadeia relevantes desafios e oportunidades para as universidades, e as novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) podem ser também repensadas para que estejam a serviço das aprendizagens sem perder de vista o perfil do egresso e profissional delineado.

Lembro-me de ter visitado uma universidade europeia que conservava em suas salas nítidos vestígios de um ensino transmissivo e centralizador dos saberes na figura do professor. A escada de madeira ricamente esculpida conduzia a uma plataforma superior no desenho da classe, de onde o mestre proferia suas palestras enquanto os estudantes faziam suas anotações, sem direito ao diálogo e questionamento. Esses conhecimentos supostamente “absorvidos” seriam depois devolvidos em exames.

Esse modelo seria designado por Paulo Freire como “ educação bancária”, em que o aluno passivamente recebe os depósitos por meio dos professores, que depois se julgam no direito de fazer o saque exato do que ali deixou nas provas escolares. No entanto, a mesma sala de aula universitária que naquele dia contemplei mantinha muitos fios espalhados pelo chão. Eles se conectavam ao projetor multimídia, a uma tela móvel de projeção à frente e a um retroprojetor abandonado em um canto da sala. Como os estudantes já haviam encerrado suas aulas, entrei na sala e me questionei:  estamos transferindo o suporte da cátedra para a transmissão e leitura de slides? Que uso fazemos da internet em sala de aula? Como planejamos e interagimos em plataformas virtuais?  Poderá nada ter mudado? Sem o que Pierre Levy define como “personal knowledge management”, será difícil avançar. Faz-se necessário mapear relevâncias, partilhar sínteses e produções com responsabilidade.

Tecnologias não formulam estratégias pedagógicas nem aprimoram metodologias. Mesmo imersos em um contexto de valorização da cultura digital, cada instrumento acionado para o trabalho pedagógico e avaliativo deveria, a meu ver, ser regido por considerações éticas, estéticas e políticas. Alteramos ferramentas sem repensar concepções? O que fundamenta nossa perspectiva de ensino, aprendizagem e avaliação? Se não nos apropriarmos das novas ferramentas digitais de maneira crítica e reflexiva, correremos o risco de inviabilizar a construção de aprendizagens significativas e com um potencial ativo e propositivo frente às demandas sociais vigentes.

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