“Seja qual for o contexto tecnológico, as pessoas e a sua solidariedade vão ser o mais importante”

Essa é a premissa que deve nortear a elaboração de políticas públicas para a educação, acredita a deputada portuguesa Margarida Mano

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Deputada na Assembleia da República Portuguesa desde 2015, quando deixou a vice-reitoria da Universidade de Coimbra, e representante do parlamento português na Assembleia Parlamentar da União para o Mediterrâneo, Margarida Mano defende que, independentemente do contexto tecnológico, a sociedade deve focar a formação de pessoas solidárias. Autora de várias publicações de educação, ensino superior e governança, ela também destaca a força da língua portuguesa na globalização. Leia trechos da entrevista concedida na sede do Conselho de Reitores de Universidades Brasileiras (Crub), em Brasília (DF).

A senhora acredita que um dos principais desafios de política pública para a educação é garantir uma base social alargada no ensino superior e também assegurar padrões de qualidade em nível mundial. Estamos longe de alcançar isso?
É tudo um caminho. Mais do que onde estamos, precisamos saber onde conseguimos evoluir nos últimos tempos. Cada instituição terá um ponto no seu contexto. Por mais que estejamos próximos, estamos sempre muito longe. O sistema europeu está ainda longe, embora seja importante o caminho que fizemos nos últimos anos. No sistema brasileiro, há instituições que estão muito adiantadas, pensam numa lógica global e com padrões que, naturalmente, se revelam entre os professores e os estudantes. Naturalmente, há instituições e subsistemas que têm caminhos mais longos a fazer, mas eu diria que o mais importante é dizer como nós já evoluímos.

Outro desafio que a senhora aponta é que o ensino superior deve ser a alavanca de inovação e desenvolvimento dos países e organismos. Esse aspecto tem relação com a mobilidade estudantil, principalmente entre Brasil e Portugal. Isso tende a se fortalecer?
Quanto mais fortalecer, melhor. Acho que temos todos muito a ganhar em nos conhecermos, nos aproximarmos e aprendemos muito com isso. A Universidade de Coimbra é a maior universidade brasileira fora do Brasil. Temos cerca de 5 mil brasileiros em várias áreas. Estudantes regulares são 2,5 mil. O apoio do Brasil para a Universidade de Coimbra é muito grande. Do mesmo modo que temos muito estudantes portugueses que vêm para programas do Brasil. Isso e fantástico. Eu acho que é muito importante fortalecer os laços entre Portugal e Brasil e ainda temos uma vantagem estratégica que é a língua portuguesa.

De que forma a senhora vê essa vantagem estratégica do idioma em um mundo cada vez mais globalizado?
O português é a quinta maior língua do mundo por população. São 267 milhões de falantes, o que corresponde a 3.8% da população mundial. Portugal e Brasil estiveram entre os 12 países com crescimento mais rápido no sistema nacional, entre 1995 e 2011. Isso tudo permite que cresçamos com as diferenças que temos.

A senhora acredita que essa diversidade de pessoas se reflete no acesso delas ao ensino superior?
O acesso é uma questão muito importante da política pública. Criamos um sistema de acesso que privilegiou muito a avaliação do conteúdo, o que não é justo. A questão do acesso, do ponto de vista da igualdade e da oportunidade, precisa ser trabalhada. A qualidade é um aspecto que não pode ser descuidado, mas não é só. Na sociedade do conhecimento, também é preciso discutir outros aspectos, como a motivação e a capacidade de adaptação. Muitos alunos entram no curso e desistem. Então o acesso precisa ser melhorado no sentido de igualar oportunidades e garantir justiça para que os jovens possam ter aquilo que planejam para o seu futuro.

No Brasil, quando houve a abertura de vagas em cursos de acesso mais restrito, alguns setores criticaram a postura do governo, dizendo que isso afetaria a qualidade da formação dos estudantes. Essa preocupação faz sentido?
No curso de Medicina, por exemplo, os alunos devem ter determinadas condições, como hospitais e uma capacidade instalada. Colocar 30 alunos em volta de um doente não é bom nem para os alunos nem para o doente. Portanto, manter o equilíbrio é importante.

Qual a premissa que deve nortear o pensamento e as decisões das pessoas que atuam na elaboração de políticas de educação?
Uma sociedade justa no futuro, uma sociedade baseada nas pessoas. Temos muitas restrições quando fazemos política pública, como restrições financeiras, que só criam problemas para o sonho. O que não devemos perder de vista é que todos queremos uma sociedade justa, em que a pessoa esteja no centro enquanto ser humano, respeitada e respeitadora, solidária e ligada a todos os outros. Devemos ter solidariedade. Também devemos ter noção da questão da sociedade 4.0. Hoje temos nossos iPhones e smartphones. Como vai ser daqui a 20 anos? Não sabemos. Teremos um chip? Não sabemos. O que sabemos é que seja qual for o contexto tecnológico, as pessoas e a sua solidariedade vão ser o mais importante. Isso é que deve ser a premissa de políticas públicas de educação.

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