Educação personalizada

Ainda em teste, plataformas prometem revolucionar o processo educativo, fazendo com que cada aluno possa estudar no seu ritmo

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© iStockphoto

Se duas pessoas aprendem de maneiras diferentes, por que são ensinadas da mesma forma? Essa é a questão-chave a partir da qual foi concebido um novo modelo de ensino centrado no uso das tecnologias para personalizar a aprendizagem. As plataformas adaptativas surgem com a missão de reverter um processo histórico de massificação que democratizou o acesso à educação, mas que está em xeque ao oferecer respostas padrão a todo tipo de aluno. Ao que parece, a fórmula (acrescida de outros fatores, como má formação docente) tem resultado em reprovação, alto índice de evasão e desinteresse do estudante. Os defensores do novo modelo afirmam que o formato tradicional vem perdendo a capacidade de engajar o aluno, pois aposta na uniformização numa era em que, cada vez mais, as diferenças são valorizadas.

Um professor, numa turma de 50 alunos, é capaz de identificar como cada um deles assimila de forma mais eficiente o conhecimento? Se é através de textos, aulas expositivas, vídeos, slides ou exercícios? Provavelmente não. É o que diz Claudio Sassaki, cofundador da Geekie. “As escolas e os professores ainda não conhecem o perfil de seus alunos. Não têm informação para saber como cada pessoa aprende melhor”, avalia. É nesse ponto que a tecnologia pode oferecer um salto para a educação. As plataformas adaptativas registram como cada aluno se sai em determinado conteúdo, quais suas dificuldades e qual o formato em que aprende melhor. Com esses resultados, o programa aplica o desafio adequado ao nível de cada um: nem simples, nem complexo demais. De posse dessas informações, o docente pode ajudar cada aluno a superar dificuldades.

“O aluno é desafiado e incentivado de acordo com suas habilidades atuais, de modo que sua evolução seja constante”, complementa Sassaki, que defende o uso das plataformas para todos os níveis de aprendizagem. O modelo altera também a atual função do professor. A diretora do Instituto Inspirare, Anna Penido, conta que o docente, hoje mais voltado à transmissão de conhecimento, passa a ter a missão de problematizá-lo, selecionando as melhores fontes e contextualizando a informação na vida prática do aluno. “Voltamos um pouco à ideia do mestre, um educador na essência do termo. O olhar do professor passa a ser voltado a cada aluno graças aos relatórios gerados em tempo real sobre o andamento dos estudantes”, ressalta. Mas essa mudança afeta as relações de poder na sala de aula: o professor acostumado a ter o controle terá de adaptar-se a um ambiente mais interativo em que a proposta é “construir junto”.

Para utilizar o modelo, é indispensável o acesso de qualidade à internet e o uso de algum dispositivo tecnológico, como smartphones, notebooks, computadores ou tablets. A diretora da D2L, Betina von Staa, conta que o custo da implantação das plataformas é condizente com a realidade financeira das IES brasileiras. Os gastos incluem a aquisição de um servidor, do software e da mão de obra. “Outro fator decisivo é a facilidade que os brasileiros têm em assimilar os novos recursos, ao contrário de outros países, onde, segundo Betina, há certo medo da tecnologia. “Ousaria fazer a previsão de que vamos transformar a educação de forma mais rápida que os demais países. Temos aqui a vontade das pessoas de enfrentar desafios. Quem encontrar as respostas primeiro vai seguir na liderança e os outros vão correr atrás. O Brasil está efervescente”, completa.

Entretanto, algumas barreiras terão de ser vencidas. Num país continental, a implantação de uma infraestrutura mínima em escolas espalhadas por todos os cantos ainda é um desafio. Além disso, existe um engessamento histórico na formatação dos currículos em escolas públicas, o que atravanca o processo. Para Anna Penido, este será o papel das instituições de ensino superior particulares: dar o primeiro passo. “A educação pública seguirá mais lentamente, mas as instituições privadas, com a competição entre si, vão precisar responder às demandas do aluno e aí está uma oportunidade de saírem à frente testando essas inovações e servindo de inspiração para as universidades públicas”, salienta.

Outro papel importante das IES será adequar a formação dos futuros docentes, com a utilização desses recursos tecnológicos já na graduação. “Boa parte dos professores vem de instituições privadas, e são eles que vão formar os alunos. Se não mudar o processo, essas instituições irão herdar os estudantes com deficiências”, acrescenta Anna Penido.

O modelo tradicional de avaliação, centrado na realização de provas, pode estar com os dias contados. Com o apoio da tecnologia, será possível avaliar em tempo real e saber exatamente o que o aluno aprendeu. “Não quer dizer que não haverá mais avaliações, mas chegaremos ao ponto de não precisar delas. Quando se acompanha o aluno, seus resultados e superações, o processo se torna mais preciso do que uma prova, feita num modelo e dia específicos, que não avalia de fato o que o aluno sabe”, diz Anna.

Resultados iniciais

As plataformas adaptativas já deram os primeiros resultados no Brasil. A D2L mantém parcerias com a Universidade Tiradentes, Faculdades Integradas Espírito-Santenses (Faesa) e Universidade do Grande Rio (Unigranrio) para oferecer a educação personalizada. O sistema baseia-se num modelo de “tagueamento”, ou seja, todo o conteúdo é mapeado por uma equipe técnica. Atualmente, a empresa conta com tecnologia mais moderna e automatizada, que utiliza um motor semântico, e com isso elimina a necessidade das marcações.

Já a Geekie pôs em prática um projeto-piloto com a Anima Educação em 2014. Os resultados prometem: melhora de 30% no desempenho dos universitários participantes da pesquisa. O programa utilizou o resultado de simulados on-line realizados semanalmente com os estudantes. Com os relatórios, os professores souberam quais conteúdos precisariam ser mais bem explorados, e no caso específico de alguns alunos, reforçaram a área de maior dificuldade. A parceria será expandida para 30 mil estudantes ao longo de 2015.

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