Dois mil e catarse

Não me surpreende a educação seguir ao compasso de leigos

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Adentramos o século XXI buscando no hemisfério norte aquilo que temos de sobra no hemisfério sul. Vamos adiando uma catarse que nos liberte de atávicos procedimentos. Mas, recebi boas notícias: algumas secretarias de Educação emanciparam-se de práticas fósseis e uma universidade brasileira trocou a aula pela aprendizagem por projetos.

Juro que pretendia escrever um textinho feito de esperançosas palavras. Mas, ao meu lado, alguém matraqueou o celular – cena comum nas salas de espera de aeroporto – até fazer uma ligação: Vou chegar à faculdade em cima da hora da aula. Poderás xerocar as páginas que os meus alunos de pedagogia vão ler hoje? Haja paciência! Quando Gadotti afirma que a pedagogia tradicional, centrada, sobretudo, na escola e no professor não consegue dar conta de uma realidade do­mi­nada pela globalização das co­mu­nicações, da cultura e da própria educação, continuamos a enfeitar o obsoleto modelo de ensino com aulas de apoio, de reforço, de “bem-estar”, ou de ética; com rankings, jogos, “qualidade total”, cursos de “planejamento de aula”.

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Os jornais informam que professores universitários vão ser inscritos em cursos, para adotarem novos modelos de aula (…) Adoção de novos tipos de aula, para que os alunos possam absorver melhor os conteúdos (sic) nas suas universidades. Peremptório, o diretor de uma universidade afirma: Não dá para abandonar as aulas tradicionais de uma vez. E, somente neste ano, essas universidades vão pagar R$ 335 mil a norte-americanos doadores de aula. Um absurdo! Mais dinheiro jogado no lixo em pedagogia requentada, quando, no Brasil, há muito melhor formação do que aquela que vão comprar no Norte. E quase gratuita!

Os doutos personagens deste imbróglio não conhecem o elementar princípio do isomorfismo na formação, não sabem que o modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Nem percebem que, mesmo adjetivada de tradicional, invertida, ou híbrida, aula é aula, dispositivo central de um modelo de escola, que condena à ignorância 30 milhões de brasileiros. Não será tragédia suficiente? Quantas mais vítimas as escolas e as universidades das aulas irão fazer? Não será tempo de a universidade assumir a sua quota de responsabilidade? Se a universidade é matriz e produtora de ciência, não deverá abandonar práticas desprovidas de qualquer fundamento científico?

Se ainda há professores universitários, que, podendo dispensar aula e xerox, recorrem a práticas medievais, não me surpreende o fato de a educação seguir ao compasso de vontades e decisões de economistas, empresários, especialistas em novas tecnologias e outros leigos, gente para quem a pedagogia ainda é ciência oculta.

Diz-nos o dicionário que catarse (do grego kátharsis) é a palavra pela qual Aristóteles, na sua Poética, designa “purificação”. Na psicologia, equivale a experimentar liberdade em relação a situações opressoras. Psicanaliticamente, sig­nifica trazer à consciência recordações recalcadas, enquanto, na medicina, é o mesmo que purgação, libertação do que é estranho à natureza do sujeito.

Em dois mil e catarse, talvez seja tempo de ouvir Freire e expulsar o sarro da velha escola, que se mantém enraizado nas nossas entranhas. Ao invés de importar novos modelos de aula enfeitados com novas tecnologias, conheçamos aquilo que de bom temos cá dentro.

*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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