Diversificando experiências

Diante do dilema entre a busca por uma formação ampla ou o foco no vestibular, escolas que ampliam a oferta de disciplinas obrigatórias no ensino médio garantem estar obtendo bons resultados

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Gustavo Morita
No Colégio Santa Maria, os alunos escolheram química quântica como disciplina extra

Um entre tantos caminhos apontados para que o ensino médio encontre o seu rumo, a diversificação do currículo encontra-se em estágio inicial na rede privada, com experiências isoladas, e uma perspectiva remota na rede pública. A ideia da diversificação curricular dialoga com a premissa de que os alunos do EM estão maduros para entrar em contato com conteúdos diferenciados, voltados para uma formação mais ampla e que integrem conhecimentos sistematizados nas diversas áreas do conhecimento, inclusive aquelas que não são exploradas pelos componentes tradicionais da Educação Básica. Porém, sua adoção ainda esbarra na famosa dicotomia desta etapa: buscar uma formação ampla ou focar os conteúdos exigidos para os processos seletivos do ensino superior? Na dúvida, aparentemente, a aposta das escolas tem sido manter-se fiel aos conteúdos clássicos. Quem “arrisca”, no entanto, diz estar obtendo bons resultados.

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Novas diretrizes
Diferentemente das chamadas atividades extracurriculares, a diversificação do currículo pressupõe a inclusão de disciplinas extraordinárias como parte da carga horária obrigatória para a conclusão do ensino médio. Não há uma indicação clara de como isso deve ser feito, nem esta é uma obrigação imposta às escolas. As novas diretrizes curriculares do EM abrem diversas possibilidades, deixando aos sistemas e às unidades de ensino que decidam como dar conta dos componentes obrigatórios – as disciplinas mais “tradicionais” -, dos conteúdos transversais previstos em lei (educação nutricional, ambiental, para o trânsito, em direitos humanos e promoção do respeito à terceira idade) e de outros conteúdos. A indicação é que estes últimos sejam tratados “ou como disciplina ou com outro formato, preferencialmente, de forma transversal e integradora”.


O xis da questão parece ser, justamente, fazer tantos elementos caberem no currículo de forma organizada. “Os alunos do ensino médio têm uma maturidade cognitiva maior e é um desafio pensar um currículo que desenvolva mais competências de analisar a sociedade, explorar os problemas e as soluções”, diz Jaqueline de Jesus, gerente Educacional da Província Marista Brasil Centro-Norte (PMBCN), que administra 17 colégios e atende 6.660 alunos de EM em 16 estados. Jaqueline chama a atenção para o fato de que os temas escolhidos para as disciplinas extras contam com um vasto conhecimento organizado, citando como exemplo a Sustentabilidade, disciplina que passou a fazer parte do currículo do 2º ano. Outro exemplo é o curso Brasilidade, Arte e Cultura, oferecido aos alunos do 1º ano.


Referências
A ousadia de incluir novidades no currículo, no entanto, precisa de referências. No caso da Província Marista, elas foram retiradas das habilidades e competências exigidas pelo Enem. “Fizemos o exercício de associar nossa matriz ao Enem, o que nos deu mais segurança da importância e legitimidade dessas novas disciplinas que estamos trazendo para nosso currículo”, conta Jaqueline.


No Colégio Santa Maria, em São Paulo, os próprios alunos têm sido a referência. A escola desenvolveu uma metodologia participativa para decidir quais disciplinas oferecer. Antes, todos os professores apresentavam suas propostas de disciplinas extraordinárias e os alunos poderiam escolher qualquer uma delas. “Acontecia de termos salas superlotadas e outras com meia dúzia de alunos”, diz Silvio Soares Moreira Freire, diretor do EM do colégio. Agora, os alunos apontam até três cursos de seu interesse e a grade diversificada é definida a partir desta consulta. “Criamos mais racionalidade desde o ponto de vista do trabalho dos professores e também mais comprometimento dos alunos, que têm disciplinas mais próximas dos seus interesses”, comenta Freire.


A consulta aos alunos mostra que esses interesses são mesmo diversos. Os alunos do 2º ano, por exemplo, escolheram cursos como química quântica, astrofísica e cosmologia e fundamentos da nutrição. No 3º ano, há estudos avançados de biologia e um curso de geopolítica. De acordo com Freire, essas escolhas também refletem muito das vocações dos alunos ou de suas projeções para o vestibular.


O processo seletivo para o ensino superior, aliás, é outra questão a ser equilibrada nas tentativas de diversificação. Jaqueline ressalta que, embora aprovem a diversificação, a demanda dos estudantes e das famílias segue sendo que não se perca o foco dos processos seletivos das grandes universidades. Isso acaba sendo transferido também para o currículo diversificado. Na Província Marista, por exemplo, uma das disciplinas que devem ser cursadas pelos estudantes do 1º e 2º anos é indicadores sociais, análise de dados e probabilidades. O objetivo expresso no documento que registra a nova matriz curricular é desenvolver “competências analíticas para a leitura da realidade social, política e econômica”, trabalhando a coleta, a confecção e a interpretação de dados e gráficos. A interpretação de gráficos e tabelas é uma constante nas provas do Enem e nos vestibulares. Já os alunos do 3º ano cursam culturas contemporâneas, política e economia, disciplina voltada para a análise de temas contemporâneos, também constantes nos processos seletivos.


Questão de tempo
Outra questão é encaixar tantas demandas em um período letivo curto. No Colégio Santa Maria, a parte diversificada do currículo é realizada em duas horas por semana, no contraturno. Em cada semestre, os alunos escolhem uma disciplina para cursar. “É pouco, ainda mais considerando que essas disciplinas são também uma forma de satisfazer certas carências do currículo atual, como línguas ou artes”, diz Freire.


Se esta é uma questão para as escolas privadas, para a rede pública o fator tempo é crucial. Referência no ensino médio público, o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, mantém uma grande oferta de atividades extracurriculares, mas não há planos para a diversificação. “Para colocarmos mais alguma disciplina como obrigatória teríamos de diminuir o número de turmas e isso é impensável quando a rede pública precisa dar conta de uma demanda de vagas ainda muito grande”, comenta a diretora adjunta do ensino médio, Eliana Mira. Ela chama a atenção para o fato de que a instrução do Ministério da Educação, concretizada no programa Ensino Médio Inovador – de cujo Comitê Gestor o Colégio Pedro II faz parte, é trabalhar com o conceito de “aluno integral” e não “escola integral”. A questão está justamente nas limitações físicas e de pessoal das escolas para dar conta da demanda.


Para a professora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Branca Jurema Ponce, as dificuldades operacionais reforçam que o cerne do debate sobre o ensino médio não está na diversificação das disciplinas, mas na definição de um novo currículo. “A diversificação pode ser boa se as condições da escola e até a demanda do público a favorecerem”, diz Branca. As experiências com o currículo diversificado acabam, assim, se encaixando no roteiro de tentativas e erros que marca a história do ensino médio no Brasil.








Tentativas de indução

Após a divulgação do Ideb, o ensino médio voltou à pauta nacional. Os baixos índices alcançados pela etapa de ensino, que passou de 3,4 em 2005 para 3,7 em 2011, aumentaram as discussões sobre a necessidade de alterações curriculares. As primeiras tentativas de indução de mudanças foram realizadas pelo Ministério da Educação, em 2009, com o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Programa Ensino Médio Inovador. Ao utilizar o Enem como nota de acesso às universidades, o MEC contava com a possibilidade de induzir o currículo do EM para as competências propostas pelo Exame. Já o Ensino Médio Inovador prevê ampliação da carga horária, professores com dedicação exclusiva e diversificação curricular, mas as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio Inovador só foram sancionadas em janeiro deste ano. Um dos itens obrigatórios é o aumento das horas de aula anuais. O mínimo são mil horas por ano. Hoje, o ensino médio tem 800 horas anuais. Segundo o MEC, 2.074 escolas públicas de ensino médio entraram no Programa no ano passado. Agora, ao divulgar os resultados do último Ideb, o ministro Aloizio Mercadante chegou a dizer que o problema do EM era o alto volume de disciplinas, 13 obrigatórias que, com o acréscimo de outras optativas, sobem a 19 nas escolas públicas. Durante encontro do ministro com representantes do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), foi proposta a criação de um grupo de trabalho para debater a valorização do ensino médio. Outros temas que o grupo deverá discutir serão o redesenho curricular do ensino médio, a ampliação do ensino médio inovador e do ensino integral diurno. Os resultados das discussões estavam previstos para serem apresentados no final de outubro.

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