“Diretoria”

Que outro nome você colocaria à sua porta?

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"Mude". Vocês devem se lembrar. É o título do poema da Clarice Lispector que citei num artigo passado. É um conselho que contraria o que nos foi ensinado: somente as pessoas que não mudam são confiáveis. Elas pensarão amanhã o que pensaram ontem. Pessoa que não muda é mar de baía, tranqüilo e sem onda. Mas as pessoas que mudam são como o mar aberto: há sempre a possibilidade de tempestade e naufrágio… Mas a Clarice disse "Mude"…

As cigarras vivem muitos anos debaixo da terra, nas raízes das árvores. Seu mundo é feito de túneis escuros. Mas então, de repente, chega o momento de fazer amor, o que faz com que elas mudem. Saem então da terra, sobem em troncos das árvores onde deixam suas cascas, ganham asas e se põem a tocar violino para atrair namorados.

Acontece também com as lagartas, taturanas de fogo, pragas dos jardins. De repente, deixam de ser o que eram. Mudam. Constroem casulos, entram dentro deles, dormem e depois de passado o tempo devido nascem como borboletas leves e coloridas que se alimentam do mel das flores.

A vida, com o passar do tempo, vai cobrindo o nosso corpo com conchas duras, à semelhança dos moluscos. Nossos pensamentos e ações passam a ser moldados pelas nossas conchas. Roland Barthes, já velho, sentiu a prisão da sua concha e se dispôs a sair de dentro dela. Eis o que ele disse: "Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda a vida viva: o esquecimento. Vem agora a idade de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos…" Somente assim, esquecendo-nos das conchas que o costume impõe, podemos voltar a ser jovens. Jovem é molusco que ainda não construiu concha. Daí o conselho da Clarice: "Mude"

Sua concha imediata é o seu escritório. É provável que, à porta, esteja escrito um nome pomposo: "Diretoria". Todo mundo sabe que é o lugar mais importante da escola. Você é a pessoa que tem poder e dá ordens. Confiável.

Mas, mais importante que o poder é a sabedoria. Freqüentemente, pessoas de poder que não têm sabedoria fazem besteiras. Barthes definiu a sabedoria como "nenhum poder, um pouco de saber e o máximo de sabor possível".

Você já pensou que sua sala deveria ser um lugar de sabor? Sabor é coisa de prazer… O mesmo Barthes definiu uma aula como "maternagem". Maternagem: a mãe se assenta, o filhinho se move à sua volta, pega uma pedrinha, pega um barbantinho, mostra-os para a mãe que recebe essas dádivas com um sorriso. O que importa, diz ele, não é nem a pedrinha (a matemática!) e nem o barbantinho (a gramática!) mas o espaço de liberdade e exploração no qual pedrinha e barbantinho são apenas peças de um jogo tranqüilo, estabelecido pela simples presença da mãe. Isso é o que importa, na escola. A escola precisa ter um centro manso.

Mude! Que outro nome você colocaria à sua porta e que sugerisse "maternagem" ou "sabor"? Nada de poder. Uma coisa é certa: você pode ter poder sobre muitas coisas na escola, mas não há ato de poder que faça as crianças aprenderem.


Rubem Alves

Educador e escritor


rubem_alves@uol.com.br

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