Dinheiro é assunto para ser ensinado na escola?

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“Educar para a vida”, escreveu o pedagogo espanhol José Sacristán, “é educar para um mundo em que nada nos é alheio.” Cada hora dentro de uma escola ou faculdade deveria apoiar-se nessa convicção. A grande tarefa é educar para o conhecimento e para a participação de tudo o que nos toca na vida.

E tudo nos toca!

Entre os inúmeros temas cotidianos, prementes, um deles nos preocupa o tempo todo: o uso do dinheiro. Aprender a lidar com ele (e saber lidar com a sua escassez…) é tão importante quanto aprender os meandros de uma ciência ou familiarizar-se com os segredos de uma arte que serão a chave de nosso crescimento profissional.

Nos últimos tempos aumentaram as discussões em torno da educação financeira para adultos, jovens e crianças. Basta uma visita às livrarias para constatar o interesse de editoras e leitores. Livros sobre terapia financeira, sobre formas de livrar-se das dívidas, sobre enriquecimento e investimentos vão ocupando espaço no meio dos livros de autoajuda, emagrecimento, sexualidade e religião. Dinheiro como objeto de leituras educadoras.

Quantos professores, a exemplo de milhões de trabalhadores, acumulam problemas no campo financeiro por não possuírem conhecimentos básicos que poderiam, a despeito dos baixos salários, tornar sua situação mais tranquila e até mesmo próspera? E se a escola precisa ensinar modos práticos e éticos de lidar com o “vil metal”, os professores devem ser os primeiros a evitar reprovação nessa importante matéria.

Nem todos veem bons exemplos ou recebem em casa a devida orientação. Famílias pobres ou ricas podem ser vítimas do consumismo, que consome reservas e vidas. No Brasil, o endividamento descontrolado nos últimos dez anos é fruto do analfabetismo financeiro, mesmo entre pessoas detentoras de invejados diplomas. Um milhão de reais ou algumas moedas são vendaval em mãos imprudentes.

Avareza também é falta de educação. O dramaturgo francês Albert Guinon dizia que o avarento é um infeliz que experimenta todas as preocupações do rico e todas as torturas do pobre. É um pobre rico! O dinheiro educado resulta de estudo específico. Nem todo mundo nasce em berço de ouro ou nada em rios de dinheiro, mas quem não aprende a nadar pode afogar-se num copo d’água.

A universidade do centavo

A primeira lição é gastar menos. Centavos são dinheiro como outro qualquer e, guardados, se multiplicam. Faz alguns anos, um agricultor baiano septuagenário, de Bom Jesus da Serra, virou notícia. Comprou um carro zero quilômetro com 34 mil moedas de 1 real. Durante sete anos trocou cédulas de valores diferentes por moedas, e foi juntando no cofre, na casa de um amigo. Se entendesse um pouco de juros, teria comprado esse mesmo carro em menos tempo.

Para gastar menos é necessário refletir mais e descobrir um objetivo maior, que justifique o ato de poupar. Quantos de nós, ao contrário, pagamos por dois carros, adquirindo um só, porque temos pressa demais? Se um adolescente começasse a economizar, com paciência e objetividade, chegaria à idade adulta com mais dinheiro (isto é, com liberdade para realizar alguns dos seus sonhos) e, sobretudo, com maturidade para assumir outros compromissos.

As crises financeiras, no âmbito de um país ou de uma família, têm muito de irresponsabilidade. O valor do amanhã, para citar o título de um livro do economista Eduardo Giannetti, nem sempre está muito claro para nós. Para “comprar” o porvir nós temos de apostar corretamente no dia a dia, no momento presente. Uma aposta racional, calculando os riscos na ponta do lápis. O agricultor baiano, escolado na profissão do plantio e da colheita, semeou centavos durante 84 meses e colheu um carro novo.

Tema transversal

Todas as disciplinas podem contemplar a questão financeira. Todos os professores podem ser educadores na arte de lidar com o dinheiro.

Na disciplina de educação física, a ascese física (askésis, em grego, designava o estilo de vida dos atletas em busca da excelência) e a ascese financeira obedecem aos mesmos princípios: devemos nos dedicar com ânimo, determinação e fair play para atingir objetivos existenciais. No jogo financeiro, criatividade e regras dialogam.

Uma interface entre a física e a educação financeira reside no conceito de resiliência, que migrou da terminologia científica para outras áreas (psicologia, pedagogia, business etc.). Resiliência é encontrar forças para retornarmos à forma original, depois de termos sido submetidos a algum tipo de deformação, condição sine qua non para a nossa sobrevivência. A resiliência financeira procede das atitudes que a pessoa possa despertar em si, ampliando sua visão da realidade. Para a filosofia como disciplina, uma discussão oportuna é a relação entre virtude e dinheiro. De que modo adquirir mais dinheiro sempre de modo virtuoso? Ou será insolúvel a antinomia entre essas duas realidades, conforme algumas propostas radicais no campo do pensamento e da religião, de modo especial na vida do grego Diógenes de Sinope, fundador da escola cínica, e, mais tarde, na de São Francisco de Assis, renovador do cristianismo medieval?

 

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