Diáspora em perspectiva

Programa educacional destaca o caráter central das culturas africanas na constituição dos povos americanos

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Na coluna anterior, apresentei um trabalho de educação musical desenvolvido em uma escola municipal. A ideia era analisar uma experiência escolar cujo alto potencial formativo não pode ser captado por qualquer instrumento padronizado, mas cujas marcas provavelmente permanecerão indeléveis naqueles que por ela passaram. Nesta coluna, e pelas mesmas razões, passo a expor brevemente o Projeto Ónarin Kojá (“andando pelos caminhos de nossos antepassados”, numa apropriação poética
da língua iorubá), fruto de um convênio entre o Museu Afro Brasil e escolas públicas brasileiras e norte-americanas.

Para a maior parte dos alunos da Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio era a primeira visita a um museu e a primeira vez que cruzavam a cidade para chegar ao Parque do Ibirapuera. Para muitos, era também a primeira vez que objetos e práticas culturais que marcam a identidade brasileira apareciam como frutos da diáspora dos povos africanos. Era a primeira vez que seus antepassados longínquos não eram representados apenas como força de trabalho escravo, mas como homens que produziam cultura, cujos saberes, técnicas, costumes e valores se enraizaram e germinaram em novos solos.

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A experiência foi o início de uma jornada que deve ocupá-los por pelo menos mais um ano. Nesse período, serão realizadas aulas, oficinas, visitas e conversas com o artista plástico Claudinei Roberto e encontros com alunos de uma escola pública americana engajada em um projeto semelhante.

O objetivo da iniciativa é reconhecer o caráter central das culturas africanas na constituição dos povos americanos e perceber como elas dialogaram com outras culturas e desenvolveram formas peculiares em cada local. Do samba ao rock, da rumba ao hip hop, dos tambores do candomblé aos Negro Spirituals soam os ecos da diáspora africana. Escutá-los é percorrer os caminhos de nossos antepassados para atribuir um sentido para o presente e um compromisso com o futuro.

É claro que um projeto educacional como esse representa uma ampliação significativa das informações que alunos, pais e professores têm tanto dos povos africanos como de sua presença no Brasil e nos EUA. São evidentes ainda seus potenciais benefícios no desenvolvimento de capacidades e competências, como a apreciação estética ou o domínio de uma língua estrangeira (cuja necessidade se torna premente no contato com os alunos norte-americanos). Mas o significado do trabalho não se deixa apreender por seus efeitos secundários. Ele representa, antes, a própria afirmação da relevância cultural de uma experiência escolar que não se deixa domar pelo cumprimento burocrático da lei nem pela submissão ao estabelecido. Uma experiência em que a escola se engaja numa causa e a ela atribui um sentido formativo que ultrapassa qualquer possível caráter instrumental que se possa conferir às aprendizagens que dela resultam. Um sentido que encontra sua expressão radical na formulação singela de um dos alunos: “Isto vale muito mais do que nota ou dinheiro!”.

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII jsfc@editorasegmento.com.br

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