Diálogo aberto

Escolas utilizam redes sociais para ampliar o contato com os pais e aproximá-los do universo escolar. Embora benéficos, uso inadequado dos canais de comunicação pode trazer problemas

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© Shutterstock

 

Márcia Brito é mãe de uma aluna de 8 anos que estuda em uma escola particular de São Paulo. Ela e outras mães trocam figurinha todos os dias pelo WhatsApp sobre a vida escolar dos filhos. “Conversamos sobre o que os nossos filhos fizeram, sobre as matérias dadas em sala de aula e o que vai cair na prova”, exemplifica Márcia, que trabalha em uma indústria do ramo farmacêutico. Se dependesse dela, a ferramenta também seria empregada na comunicação com a escola, que envia grande parte dos comunicados por e-mail. “Recebo muitos e-mails por dia, devido ao meu trabalho. Seria mais fácil acompanhar tudo pelo WhatsApp”, afirma.

Atentas a esse fluxo de informações, que também acontece pelas redes sociais – notadamente o Facebook -, algumas escolas vêm tentando inovar no contato com as famílias de seus alunos. O Colégio Elvira Brandão é um dos entusiastas dessa adaptação. “Os pais se comunicam uns com os outros pelas redes sociais e pelo WhatsApp.

Por que não usar os mesmos recursos para falar com a escola?”, indaga Renato Judice de Andrade, diretor do colégio. “Mais cedo ou mais tarde, vamos substituir o e-mail pela comunicação via aplicativo”, adianta.

Por enquanto, a rede social mais utilizada é o Facebook, mas a escola também tem um canal no YouTube para transmitir suas mensagens. Outra que segue a mesma estratégia é o Colégio Oswald de Andrade, que há anos compartilha fotos e informações das atividades pedagógicas desenvolvidas na escola. A interação com os familiares acontece por meio dos comentários, mas como reforça André Meller, coordenador pedagógico de Comunicação e Tecnologia Educacional do ensino médio, essa troca sempre ocorreu, mesmo antes da adoção das redes sociais.

Além de aproximar os pais da rotina escolar, a utilização dos canais também possibilita à escola debater com mais frequência – e não apenas durante as reuniões presenciais – suas posições filosóficas e pedagógicas. Mas para isso, é preciso que a instituição saiba usar as ferramentas adequadamente. Apenas postar fotos das atividades extraclasse e comentários autoelogiosos não contribui para esse fim.

E uma vez iniciado o diálogo, os diretores devem estar conscientes das eventuais polêmicas que podem surgir. A recomendação nesse caso é encará-las de frente.  “A escola foge da polêmica, mas a polêmica faz parte do processo de ensino e aprendizagem”, comenta Andrade, do Elvira Brandão. Os gestores também devem se preparar para um fluxo maior de mensagens. Ao utilizar as redes sociais, as escolas conseguem incluir no debate os pais que, por falta de tempo, se ausentam das reuniões presenciais. Além disso, muitos familiares se sentem mais à vontade para se expor quando estão digitando.  “Mesmo comentando sob um perfil reconhecível – ou seja, mesmo não estando anônima – a pessoa tende a se soltar mais em uma sessão de comentários na rede social e fala o que não falaria pessoalmente. Isso porque as redes dão uma sensação de proteção”, comenta Antônio C. de Barros Jr., psicanalista e pesquisador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Cuidados

Embora possam fortalecer a marca da instituição e ampliar o contato com os pais de alunos, as redes sociais devem ser usadas com cautela. Naturalmente, os assuntos delicados devem ser abordados pessoalmente ou, no máximo, por e-mail. “Se tenho, por exemplo, um menino com sarampo em uma sala, o e-mail é a melhor maneira de orientar os pais”, fala Andrade.

A natureza instantânea da comunicação em redes sociais e em aplicativos como o WhatsApp também pode contribuir para a exacerbação da ansiedade por parte dos pais, aumentando a pressão sobre professores e gestores escolares. Uma das razões disso é o fato de que, em vez de avaliarem o progresso de seus filhos durante as reuniões escolares – ocasiões em que os fatos são tratados com ponderação e reflexão -, os familiares passam a fazer comparações diárias com base em informações compartilhadas por outros pais. “Cabe à escola orientar pais e mães para que não comparem seus filhos com outras crianças o tempo todo. Todo ser humano é diferente”, comenta Andrade.

Márcia Brito, no entanto, acredita que a comunicação com outros pais e mães no grupo do WhatsApp não necessariamente acirra a competitividade. Para ela, o relacionamento pode estimular a solidariedade. “Em nosso grupo, há uma mãe cuja filha apresenta sinais de dislexia. Para ajudá-la, o grupo ”acolheu” uma mãe, que apesar de ser de outra turma, tem uma experiência semelhante”, comenta.

Outro problema que precisa ser gerenciado pela escola são os rumores espalhados pelos grupos do aplicativo. Sem um controle efetivo, eles podem até evoluir para um problema complexo. Por essa razão, independentemente da maneira como cada escola lida com as redes sociais, é fundamental que o contato presencial com as famílias jamais seja negligenciado. “Toda turma (do Elvira Brandão) tem pais e mães em um grupo do WhatsApp. Eu não me preocupo e até fomento isso”, afirma Andrade. “Claro que volta e meia surgem burburinhos, mas não damos espaço para que tomem proporções maiores porque mantemos as portas abertas para pais e mães que queiram vir aqui esclarecer o que for”, comenta o diretor.

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