Diagnóstico sumário

A secretária de Educação insistia que eu explicasse o baixo Ideb do município

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Enfrento o calor tórrido de quartos de hotel do Brasil profundo, encaro com estoicismo noites maldormidas em precárias enxergas, ataques de pernilongos, morcegos voando no quarto… Suporto crónicos atrasos, suporto tudo, excepto discurso de político demagogo, em tempo de campanha eleitoral.


Naquela manhã, a palestra estava marcada para começar às oito horas. Após o hino, discursou o deputado, discursaram secretários, durante mais de uma hora de promessas de obras feitas e de outras por fazer. Já passava das nove, quando tomei a palavra e pedi um tópico para debate. A senhora secretária de Educação lamentou que, tendo investido tanto na formação dos professores, o Ideb do município não tivesse melhorado. Professores fizeram eco com a secretária. E não tardaram as perguntas sobre as causas do descalabro da educação: “só conseguimos atingir o Ideb 4”.


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O que nos diz o Ideb? Tentei explicar que as causas são múltiplas e complexas, mas a secretária insistia: professor, faça, ao menos, um diagnóstico sumário. Acedi ao pedido e, “sumariamente”, apontei algumas das causas. Após cada afirmação, era evidente o aumento do desconforto no auditório.


Falei da manutenção de uma alfabetização quase toda pautada num único “mêtodo”, o qual, sendo um entre muitos modos de ensinar a ler, é hegemônico e, “sumariamente”, causa de analfabetismo. Falei da falsidade ideológica de projetos político-pedagógicos, que, na prática, não são uma coisa nem outra, ou serão, “sumariamente”, apenas políticos no ato


Denunciei as estratégias tradicionalmente adotadas para combater a indisciplina – mais câmeras de vigilância, mais catracas, mais expulsões de alunos – que, não agindo nas causas, perenizam as consequências.


Denunciei uma gestão burocratizada, o predomínio de decisões de natureza administrativa – pesquisa recente diz-nos que 90% dos diretores de escola gastam mais tempo a tratar da merenda escolar do que em assuntos de natureza pedagógica.


“Sumariamente”, enunciei os graves efeitos do predominio de uma cultura assente numa competição desenfreada, na ausência de trabalho em equipe. Referi a ausência de rigor na avaliação, quase sempre e erradamente, confundida com classificação. Acrescentei que o EJA e as classes de reforço são inevitáveis sucedâneos de um obsoleto modelo de ensino.


Descrevi os erros de um modelo de formação, que faculdades alimentam e secretarias patrocinam, bem como os nulos efeitos de inúteis consultorias. E concluí o monólogo, acrescentando que admitir que jovens escolarizados possam não aprender (é aquilo que o Ideb 4 significa) é criminoso.


Desejando suscitar o debate, proferi a pergunta habitual: Que mais quereis saber? O silêncio prolongou-se por longos e penosos segundos. Então, “sumariamente”, considerei consumada a discussão.


Nunca mais recebi convites para palestrar naquela cidade. Não lamento. Prefiro outras cidades, onde do diagnóstico já se passou à ação, onde secretários de Educação e educadores conscientes instituem novas práticas, que levarão o Brasil ao Ideb. 10.


*José Pacheco
Educador e escritor, ex–diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal) josepacheco@editorasegmento.com.br

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