De olho nos erros

Deslizes de gramática e ortografia podem ser bons pontos de partida para ensinar e aprender a língua portuguesa

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Até então soberana nas aulas de português, a gramática não está mais sozinha. Para deixar o aprendizado mais eficiente e dinâmico, os professores têm investido no uso dos erros dos próprios alunos como recurso pedagógico. Deles e da ficção. Nas livrarias, é cada vez mais fácil encontrar títulos como os da série As Aventuras do Capitão Cueca, escrita pelo norte-americano Dav Pilkey e publicada pela CosacNaify. Em seu oitavo volume no Brasil (Capitão Cueca e a Sina Ridícula do Povo do Penico Roxo, 176 págs., R$ 28),  a coleção ficou conhecida pelos diálogos cheios de falhas de gramática e ortografia dos protagonistas da trama, dois estudantes da quarta série. Dessa forma, os debates em torno do tema, iniciados no país com a publicação dos gibis do Cebolinha, de Maurício de Sousa, na década de 70, ganham força. Um clássico do falar errado ao trocar os "Rs" pelos "Ls", o criador de planos infalíveis contra a Mônica já fez muita gente prestar atenção na grafia correta das palavras.


"Os textos do Capitão Cueca imitam a maneira de escrever dos alunos da quarta série, inclusive em suas hesitações e erros", explica Isabel Lopes Coelho, editora de livros infanto-juvenis da Cosac. "Ao perceber os equívocos, as crianças reconhecem o jeito certo de grafar as palavras, segundo a norma culta", diz. Entre as recomendações que faz às escolas, em relação ao uso do personagem como recurso pedagógico, a editora destaca a leitura orientada. A medida tornaria mais divertida a tarefa de identificar deslizes em termos como "assidentalmente" e "aveintura", entre muitos outros. Tradutor de três dos oito volumes da série com o herói em trajes íntimos, o estudante da segunda série do ensino médio Daniel Schiller, 15 anos, garante nunca ter escrito uma palavra errada por causa dos livros. "São erros básicos, colocados para causar efeito humorístico", conta.



Estilo literário


A possibilidade de aprender com o que está fora dos padrões não se resume a um segmento específico da literatura. Diretora da escola Lourenço Castanho, na capital paulista, a professora Sylvia Figueiredo Gouvêa ficou surpresa quando a neta Tereza, de 8 anos, a procurou para perguntar o significado de "sobrelogo", palavra inexistente no dicionário e descoberta no livro Fita Verde no Cabelo, de João Guimarães Rosa.


"Ela adorou saber que sobrelogo significava, segundo o autor, ir depressa, mais que logo. E já avisou que vai espalhar a novidade no colégio", lembra a avó.



Erro relativo


No Lourenço Castanho, os professores são orientados a agir como Sylvia fez com sua neta: investigar cada situação antes de corrigir a colocação feita pelo aluno. "O ensino não pode ficar limitado à gramática", avalia. Nas turmas de alfabetização, principalmente, as hipóteses colocadas pelos pequenos são respeitadas e ampliadas. "Algumas crianças acham que bola se escreve apenas com as letras O e A. O professor deve apoiar a iniciativa da escrita e apresentar a maneira completa de grafar aquele termo", explica Sylvia.


Debater os erros com a turma é uma das principais mudanças pelas quais passaram as aulas de português. Até há bem pouco tempo, a questão se limitava à correção de exercícios na lousa ou em folhas de papel fadadas ao esquecimento. "Nossas correções são sempre avaliativas, diagnósticas", ressalta Débora Vaz, diretora pedagógica da Escola Castanheiras, em Santana do Parnaíba (SP).


"A cada problema, o professor discute como aquela frase ou palavra poderia ter sido colocada de um jeito diferente", afirma Débora. As causas dos equívocos também são levantadas: "É quando o aluno reflete se errou por falta de atenção ou desconhecimento". Outra tática é a de "olhar para a grama do vizinho", na qual os estudantes trocam os textos e analisam os conteúdos uns dos outros. "Isso amplia a visão de cada um em relação à escrita e às construções gramaticais", diz.
 
Para Edison da Cruz Salaki, coordenador pedagógico da Escola Estadual Dr. José Pires de Carvalho e professor de português do Ceta Anglo, ambos em Taquarituba (SP), os erros cometidos pelos alunos são o melhor material para ensinar a língua a partir da noção do que está fora dos padrões.


"Diante disso, o professor tem a indicação exata de onde deve partir e de como pode acrescentar informações novas, levando o estudante a refletir sobre suas concepções e hipóteses de escrita", explica. Em suas aulas, Salaki faz sucesso com atividades como a leitura, em voz alta, de uma história. Qualquer uma, de preferência conhecida. "O importante é envolver todo mundo e permitir que os alunos interfiram e até antecipem alguns pontos", conta. Ao final, os ouvintes participantes reproduzem de memória, em grupo, o texto todo. Depois, cada equipe apresenta o seu trabalho, o que dá início ao debate sobre eventuais deslizes. "A cada história, novas lições eram assimiladas, como num ciclo", ensina.



Errar é aprender


O aprendizado a partir dos erros também é uma boa oportunidade de mostrar que a língua é um fenômeno vivo. E que por isso está em constante mudança. "O foco deve ser mostrar variações em relação à norma culta, com cuidado para não ser purista", avalia Neusa Bastos, professora de Letras da PUC-SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "As crianças precisam entender que muitas vezes falamos e escrevemos de formas que não seguem os padrões da gramática", observa Neusa.


 Nesse sentido, o Lourenço Castanho inclui a discussão dos regionalismos em suas aulas de Língua Portuguesa. "Explicamos que falar porta com o R acentuado, como fazem as pessoas do interior, não é um equívoco, mas um jeito próprio de se expressar", afirma Sylvia Figueiredo Gouvêa. "Queremos que os alunos aprendam a gostar da língua portuguesa em toda a sua diversidade", diz. Com lições tão divertidas quanto as citadas nesta reportagem, não será difícil atingir o objetivo.

De olho nos erros

Deslizes de gramática e ortografia podem ser bons pontos de partida para ensinar e aprender a língua portuguesa.

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Até então soberana nas aulas de português, a gramática não está mais sozinha. Para deixar o aprendizado mais eficiente e dinâmico, os professores têm investido no uso dos erros dos próprios alunos como recurso pedagógico. Deles e da ficção. Nas livrarias, é cada vez mais fácil encontrar títulos como os da série As Aventuras do Capitão Cueca, escrita pelo norte-americano Dav Pilkey e publicada pela CosacNaify. Em seu oitavo volume no Brasil (Capitão Cueca e a Sina Ridícula do Povo do Penico Roxo, 176 págs., R$ 28),  a coleção ficou conhecida pelos diálogos cheios de falhas de gramática e ortografia dos protagonistas da trama, dois estudantes da quarta série. Dessa forma, os debates em torno do tema, iniciados no País com a publicação dos gibis do Cebolinha, de Maurício de Sousa, na década de 70, ganham força. Um clássico do falar errado ao trocar os “Rs” pelos “Ls”, o criador de planos infalíveis contra a Mônica já fez muita gente prestar atenção na grafia correta das palavras.


“Os textos do Capitão Cueca imitam a maneira de escrever dos alunos da quarta série, inclusive em suas hesitações e erros”, explica Isabel Lopes Coelho, editora de livros infanto-juvenis da Cosac. “Ao perceber os equívocos, as crianças reconhecem o jeito certo de grafar as palavras, segundo a norma culta”, diz. Entre as recomendações que faz às escolas, em relação ao uso do personagem como recurso pedagógico, a editora destaca a leitura orientada. A medida tornaria mais divertida a tarefa de identificar deslizes em termos como “assidentalmente” e “aveintura”, entre muitos outros. Tradutor de três dos oito volumes da série com o herói em trajes íntimos, o estudante da segunda série do ensino médio Daniel Schiller, 15 anos, garante nunca ter escrito uma palavra errada por causa dos livros. “São erros básicos, colocados para causar efeito humorístico”, conta.



Estilo literário


A possibilidade de aprender com o que está fora dos padrões não se resume a um segmento específico da literatura. Diretora da escola Lourenço Castanho, na capital paulista, a professora Sylvia Figueiredo Gouvêa ficou surpresa quando a neta Tereza, de 8 anos, a procurou para perguntar o significado de “sobrelogo”, palavra inexistente no dicionário e descoberta no livro Fita Verde no Cabelo, de João Guimarães Rosa.
“Ela adorou saber que sobrelogo significava, segundo o autor, ir depressa, mais que logo. E já avisou que vai espalhar a novidade no colégio”, lembra a avó.



Erro relativo


No Lourenço Castanho, os professores são orientados a agir como Sylvia fez com sua neta: investigar cada situação antes de corrigir a colocação feita pelo aluno. “O ensino não pode ficar limitado à gramática”, avalia. Nas turmas de alfabetização, principalmente, as hipóteses colocadas pelos pequenos são respeitadas e ampliadas. “Algumas crianças acham que bola se escreve apenas com as letras O e A. O professor deve apoiar a iniciativa da escrita e apresentar a maneira completa de grafar aquele termo”, explica Sylvia.


Debater os erros com a turma é uma das principais mudanças pelas quais passaram as aulas de português. Até há bem pouco tempo, a questão se limitava à correção de exercícios na lousa ou em folhas de papel fadadas ao esquecimento. “Nossas correções são sempre avaliativas, diagnósticas”, ressalta Débora Vaz, diretora pedagógica da Escola Castanheiras, em Santana do Parnaíba (SP).


“A cada problema, o professor discute como aquela frase ou palavra poderia ter sido colocada de um jeito diferente”,afirma Débora. As causas dos equívocos também são levantadas: “É quando o aluno reflete se errou por falta de atenção ou desconhecimento”. Outra tática é a de “olhar para a grama do vizinho”, na qual os estudantes trocam os textos e analisam os conteúdos uns dos outros. “Isso amplia a visão de cada um em relação à escrita e às construções gramaticais”, diz.
 
Para Edison da Cruz Salaki, coordenador pedagógico da Escola Estadual Dr. José Pires de Carvalho e professor de português do Ceta Anglo, ambos em Taquarituba (SP), os erros cometidos pelos alunos são o melhor material para ensinar a língua a partir da noção do que está fora dos padrões.


“Diante disso, o professor tem a indicação exata de onde deve partir e de como pode acrescentar informações novas, levando o estudante a refletir sobre suas concepções e hipóteses de escrita”, explica. Em suas aulas, Salaki faz sucesso com atividades como a leitura, em voz alta, de uma história. Qualquer uma, de preferência conhecida. “O importante é envolver todo mundo e permitir que os alunos interfiram e até antecipem alguns pontos”, conta. Ao final, os ouvintes participantes reproduzem de memória, em grupo, o texto todo. Depois, cada equipe apresenta o seu trabalho, o que dá início ao debate sobre eventuais deslizes. “A cada história, novas lições eram assimiladas, como num ciclo”, ensina.



Errar é aprender


O aprendizado a partir dos erros também é uma boa oportunidade de mostrar que a língua é um fenômeno vivo. E que por isso está em constante mudança. “O foco deve ser mostrar variações em relação à norma culta, com cuidado para não ser purista”, avalia Neusa Bastos, professora de Letras da PUC SP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “As crianças precisam entender que muitas vezes falamos e escrevemos de formas que não seguem os padrões da gramática”, observa Neusa.


Nesse sentido, o Lourenço Castanho inclui a discussão dos regionalismos em suas aulas de português. “Explicamos que falar porta com o R acentuado, como fazem as pessoas do interior, não é um equívoco, mas um jeito próprio de se expressar”, afirma Sylvia Figueiredo Gouvêa. “Queremos que os alunos aprendam a gostar da língua portuguesa em toda a sua diversidade”, diz. Com lições tão divertidas quanto as citadas nessa reportagem, não será difícil atingir o objetivo.

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