Dança das cadeiras

Venda do Grupo Pueri Domus revela tendência de concentração de mantenedoras de escolas

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No final do dia sete de julho, os pais e alunos do colégio Pueri Domus, escola paulistana com mais de 40 anos de atuação, receberam, pelo sistema on-line, uma carta que anunciava a venda da escola para o Sistema Educacional Brasileiro (SEB), mantenedor do Sistema COC e do Grupo Educacional Dom Bosco. O texto, entre outras coisas, assegurava a manutenção da filosofia e dos valores do Pueri, bem como da equipe de educadores e colaboradores administrativos. No total, o valor da compra foi de R$ 41,5 milhões, sendo R$ 32,9 milhões pagos no fechamento da operação e os R$ 8,6 restantes referentes à assunção da dívida da instituição.

"A transação foi efetuada com essa condição: de que a marca Pueri fosse mantida", explica a diretora-geral, Fernanda Zocchio Semeoni, filha da fundadora da escola, Beth Zocchio. A partir de 2007, conta, o Pueri Domus passou a ser assediado por uma série de companhias. "Começamos a olhar o mercado de maneira diferente. Como uma empresa de médio porte e familiar pode concorrer num mercado cada vez mais forte?", questiona. A conversa inicial da SEB com o Pueri, realizada no mesmo ano, aconteceu por conta de um plano de expansão da rede de ensino: entrar nas grandes capitais e nas regiões mais populosas do Brasil. "Eles optaram por entrar num patamar de escolas classe A, que é o caso da nossa", relata Fernanda.

Segundo o diretor financeiro e de relação com investidores da SEB, Marco Rossi, as duas unidades que continuam sob a gestão do próprio Pueri (Araraquara e Paineiras) não integravam o foco da linha de negócios da SEB. "São unidades pequenas, antieconômicas", explica Rossi. A previsão é de investimentos na área de tecnologia das escolas adquiridas. "Vamos incrementar a experiência de aprendizagem com lousas digitais e aulas 3D, por exemplo", diz.

Sobre as reações à mudança, Fernanda relata que foram diversas. "A grande preocupação é o rompimento de vínculo afetivo com a equipe do colégio. Mas tanto educadores como pais têm a percepção de que pode ser uma boa chance", afirma.

Para o professor da Faculdade de Educação da USP Romualdo Portela, aquisições e fusões no mercado educacional revelam uma tendência inerente à atual ordem econômica. O que está acontecendo, diz ele, é que empresas muito capitalizadas estão comprando as menos capitalizadas. "A previsão, em médio prazo, é de que as matrículas se concentrem nas mãos de poucos grupos. A maior parte do mercado vai ficar na mão de poucos", analisa. Romualdo aponta que, para se salvaguardar de possíveis críticas em relação ao desempenho acadêmico nas escolas adquiridas, empresas como a SEB apostam nos resultados de avaliações do governo federal, como o Enem e a Prova Brasil. "Se o argumento é esse, não há prejuízo na qualidade de ensino", diz.

Luís Motta, sócio da área de fusões e aquisições da consultoria KPMG no Brasil, analisa o quadro de maneira diferente. O aquecimento do mercado educacional começou em 2007, a partir da abertura de capital na bolsa de quatro grandes empresas: SEB, Kroton, Anhanguera e Estácio (as duas últimas atuam no ensino superior). De janeiro a maio de 2008, ocorreram 20 fusões ou aquisições no segmento – no total, foram realizadas 53 operações ao longo daquele  caiu para quatro. "No embalo da crise econômica, as empresas optaram por integrar e consolidar as empresas adquiridas anteriormente", explica Luís. Apesar de reconhecer a tendência de que as matrículas se concentrem nas mãos de poucas empresas, ele pondera que ainda há escolas públicas e particulares no mercado. "Não é o caso desse tipo de concentração acontecer. Há varias outras opções de escola. É um mercado pulverizado que tende a se profissionalizar", afirma.

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