Da disciplina escolar

Pequena reflexão sobre suas manifestações

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Há cerca de um ano, estive numa escola pública para discutir um tema que os professores consideravam como um de seus mais graves problemas: a indisciplina. Não foi um episódio isolado. Ao contrário, trata-se de uma queixa recorrente entre professores e profissionais da educação. Sua frequência e intensidade sugerem a existência de uma persistente crise que merece estudo e reflexão. A filósofa Hannah Arendt nos lembra, contudo, que uma crise só se transforma em desastre se a ela respondermos com preconceitos, privando-nos, assim, da oportunidade de pensar e refletir sobre nossa experiência e a ela atribuir sentido.

Pedi aos professores, então, que pensassem num aluno indisciplinado ou num episódio de indisciplina e o descrevessem. A intenção era levá-los a pensar a experiência e atribuir sentido ao termo que, de tão recorrente, poderia estar desgastado. Passamos a anotar e comparar os episódios individualmente classificados como atos de indisciplina. Foi impressionante a variedade – e mesmo disparidade – de condutas tidas como exemplos de indisciplina: agressões físicas ou verbais, ausência de polidez, conflitos entre alunos ou entre eles e professores, distrações, questionamento de regras…

A lista de queixas era longa e diversificada. E aí residia um primeiro problema para nossa reflexão: se não distinguirmos indisciplina de conflito, de questionamento, de falta de cortesia ou civilidade, como compreender seu sentido em nossa experiência docente? Chamou-me a atenção, por exemplo, a ausência de episódios que vinculassem a indisciplina à falta de métodos de estudo e de trabalho escolar. Passamos, então, a discutir: um aluno não pode ser questionador e até rebelde, mas disciplinado, no que diz respeito a seus estudos? Um grande artista não pode ser simultaneamente rebelde em relação a convenções sociais e disciplinado em relação a seu esforço criativo?

Se separarmos a disciplina escolar de seus objetivos precípuos – o de promover condições de convivência respeitosa e de favorecimento do estudo -, correremos o risco de termos uma imagem monástica ou militar de disciplina, que pode fazer sentido na igreja ou no exército, mas não na escola. Ora, isso implica reconhecer que não há uma ‘essência’ ou ‘substância invariável’ chamada ‘disciplina’ que certas pessoas possuem e outras não. Ao contrário, uma mesma pessoa pode ser indisciplinada em relação a seus estudos e disciplinada em relação a seus compromissos familiares, um jogador de futebol disciplinado, mas fraco no que concerne à observância das regras de seu credo religioso!

Não nos dividimos, pois, de forma congênita e irrevogável entre seres disciplinados e indisciplinados. Na verdade, aprendemos a ser disciplinados. Nesse sentido, a disciplina não é um pré-requisito para a aprendizagem, mas é ela própria resultante de uma aprendizagem. Por isso, o reconhecimento da gravidade do problema não pode elidir nossa responsabilidade coletiva em face dele. Se temos alunos indisciplinados é porque não temos sido capazes de cultivar a disciplina como um valor constitutivo da instituição escolar.  


José Sérgio Fonseca de Carvalho


Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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