Crise: ameaça ou oportunidade?

CAPA PLANEJAMENTO | Edição 197 Programação da 11ª edição das Jornadas Regionais inclui palestra sobre como realizar um bom planejamento estratégico e estar preparado …

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CAPA PLANEJAMENTO | Edição 197

Programação da 11ª edição das Jornadas Regionais inclui palestra sobre como realizar um bom planejamento estratégico e estar preparado para mudanças futuras

por Eliane Silva

© iStockphoto

Aumento de 40% na conta de energia, crise hídrica, mudança cambial, queda no nível de emprego, alta na conta de supermercado, preço do combustível nas alturas, inflação acima da meta, índice de confiança do empresariado caindo para o menor nível desde 1999, avaliação do governo despencando, Congresso e governo em rota de colisão. Em pinceladas gerais, esse é o atual cenário econômico e político do Brasil. Diante disso, o melhor negócio é ficar parado e esperar a sorte mudar, certo? Errado! Sorte, como diz o pensador norte-americano Anthony Robbins, é o encontro da preparação com a oportunidade. Trocando em miúdos, em tempos de crise, fazer um bom planejamento estratégico pode ser a chave para o gestor identificar oportunidades ou ameaças aos seus negócios.

E como as instituições de ensino superior privadas podem enfrentar os desafios de fazer um planejamento estratégico em tempo de crise? Como agir, por exemplo, diante das mudanças e limitações de crédito do Fies que já tiram o sono de muitos gestores? Para responder a essas questões, a 11ª Jornada Regional do Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp) apresenta, entre outros temas, a palestra do especialista em administração de empresas e coordenador da Universidade Corporativa Semesp (UC) Márcio Sanches. A abertura do evento ocorreu em Ribeirão Preto, depois passou por Santos ainda em março e São José do Rio Preto no dia 14 de abril, e agora segue para Campinas e Bauru, nos dias 19 e 26 de maio, respectivamente, e se encerra em São José dos Campos no dia 23 de junho.

Visão ao longe

De acordo com Sanches, ao fazer o planejamento estratégico o gestor terá a visão do que deseja alcançar nos próximos anos e, com o auxílio de algumas ferramentas, conseguirá criar um processo e um plano de ações a serem implantados em um tempo determinado. Na elaboração do plano, é necessário considerar vários fatores, entre eles a escassez de recursos, o cenário pessimista e, principalmente, a incerteza em relação ao futuro.

É fato que o país está saindo de um período de crescimento que teve boom imobiliário, muita oferta de crédito e uma economia estável. Muitos podem se perguntar por que fazer planejamento agora se as coisas vão mudar, se ninguém sabe como a economia vai se comportar nos próximos anos.

Para quem tem essas dúvidas, Sanches diz que fazer planejamento estratégico é como fazer o projeto de construção ou reforma de uma casa. “Não se pode ter a ilusão de que a execução será igual ao projeto. Não temos bola de cristal nem estamos no ramo do Walter Mercado (astrólogo porto-riquenho) ou da mãe Dinah para prever o futuro. É preciso partir do pressuposto de que vamos lidar com as incertezas.” Ou seja, em tempos de crise, é fundamental identificar os cenários possíveis, sempre lembrando que, se a situação não é boa para determinada instituição, também não é para as concorrentes.

O fato de o setor educacional ser um dos poucos no país a ter muita informação disponível é uma vantagem apontada pelo consultor. A partir das informações que as próprias instituições têm do mercado, do perfil econômico, demográfico e social dos clientes e da regulação do setor, o gestor terá de definir um caminho, a estratégia para os próximos anos, terá de escolher o que fazer e o que não fazer.

“Nós vivemos numa sociedade multiplural, formada por pessoas com diferentes necessidades. Num processo de planejamento estratégico, cabe à liderança olhar para o futuro, identificar como esse futuro pode ser e tentar, sempre com o maior volume de informações possível, conduzir a organização para um determinado lugar”, diz Sanches.

Além de analisar o cenário dos próximos anos, é preciso estudar a concorrência e buscar dentro da própria instituição quais são os recursos e competências disponíveis para a execução do plano.

Ambiente externo

Na análise do ambiente externo, entram vários fatores, entre eles as tendências da economia. Segundo Sanches, a organização tem várias opções para fazer essa leitura econômica. Pode contratar uma consultoria econômica, buscar informações nos bancos ou diretamente no noticiário de TVs e jornais.

E como essas tendências econômicas geram oportunidades ou ameaças para o setor educacional? Por exemplo: uma instituição que deseja oferecer um novo curso ou abrir novas unidades em determinada região precisa considerar o PIB regional, o PIB per capita, saber o que está movimentando a economia, quais classes sociais têm maior perspectiva etc. Sem essas informações não terá como estabelecer uma mensalidade que torne viáveis os cursos.

Outro exemplo de como a análise econômica influencia muito no planejamento estratégico é a recente mudança no câmbio, que deve trazer um impacto para as escolas. “Provavelmente, a mudança do câmbio vai trazer algumas ameaças, mas também vai gerar oportunidades. Em reunião recente no Semesp, concluímos que agora vale mais a pena trazer professores de fora para dar curso aqui do que mandar nossos profissionais para se capacitar no exterior”, diz Sanches. A análise das tendências demográficas e sociais é outra importante ferramenta para o gestor.

No planejamento, é fundamental também saber quais são as tendências das políticas públicas. Para Sanches, as questões legais são as que mais afetam o setor educacional brasileiro. Por exemplo: que mudanças vão ocorrer no Fies? “O ambiente regulatório é muito sufocante, mas as organizações que obtêm mais sucesso são aquelas que conseguem lidar melhor com esse ambiente. É preciso en­tender as regras e antever as mudanças para projetar quais alternativas a instituição tem se ocorrer isso e quais tem se acontecer o contrário.”

Existem outros fatores, como os avanços tecnológicos, que precisam de análise porque trazem grandes impactos para o negócio. A educação a distância, por exemplo, é uma mudança tecnológica e ambiental que já trouxe impactos para o setor. “Se uma instituição quiser iniciar ou ampliar sua participação na EAD, não vai conseguir fazê-lo da noite para o dia. É preciso tempo e planejamento para lidar com a questão regulatória, treinar pessoal, estruturar o setor de Tecnologia da Informação etc. Todos são projetos de longo prazo”, explica Sanches.

Uma segunda análise externa fundamental no plano estratégico é a da concorrência, saber como as forças que atuam no mercado podem ser ameaça ou oportunidade. O setor educacional mudou muito nos últimos anos. As ameaças não vêm mais do concorrente pequeno e conhecido, mas sim dos grandes grupos educacionais que têm ações em Bolsa e fundos de investimentos. Esses gigantes têm determinadas vantagens, mas também têm flancos. Saber quais são ajuda o gestor a se preparar para explorar as deficiências do concorrente.

Ambiente interno

O terceiro passo do planejamento estratégico é a análise da própria instituição, começando pelos recursos financeiros. Quanto está disponível para investimento em novos negócios? Se não tiver recursos, a instituição tem a possibilidade de buscar no mercado financeiro? Também é necessário analisar os recursos humanos e a capacitação, assim como os recursos administrativos e tecnológicos e a estrutura de comunicação da instituição. É hora de saber que atividades a organização já tem e pode aproveitar em novas oportunidades de negócios e se a estrutura física é compatível com o que se quer fazer ou se será necessário investir em obras ou reforma.

Após fazer toda a análise externa e interna, a instituição estará preparada para elaborar um plano de ações para os próximos anos. “Ou, talvez, depois de fazer todo o planejamento, o gestor chegue à conclusão de que não há uma oportunidade de negócio para sua organização. Ao contrário, só há riscos, inclusive o de a instituição ser comprada pelo concorrente”, finaliza Sanches.

 

Os desafios do Fies
Desenvolver mecanismos alternativos antes dos concorrentes para atrair alunos é o grande desafio das instituições de ensino superior privadas nesse momento de crise do Fies. A afirmação é de Mário Sanches, doutor em administração de empresas pela FGV e coordenador da Universidade Corporativa do Semesp. Para o especialista, as mudanças nas regras do financiamento público que estão por vir representam uma ameaça para todas as instituições privadas, mas também são uma oportunidade de negócios para aquelas que se adequarem com mais rapidez.“Até agora o Fies atendia todo mundo, era uma espécie de commodity, ou seja, bastava ser uma instituição de ensino privada para acessar o recurso. Agora, será preciso competir com as outras instituições porque o recurso deve ficar escasso.”Nessa competição, diz Sanches, as instituições terão de desenvolver mecanismos próprios de financiamento, parcerias com agentes financeiros, alongar pagamentos, enfim, pensar em formas de ofertar crédito para atrair alunos sem depender totalmente do financiamento público. “Na maioria dos ambientes empresariais e na sociedade, os recursos são escassos. Isso vale também agora para o setor educacional: os mais adaptados é que vão sobreviver.”Também será preciso avaliar se a organização tem viabilidade para atender aos novos critérios. Se for estabelecida, por exemplo, uma nota mínima no Enade para obter o recurso, a instituição pode ter de preparar seu aluno para alcançar a nota ou até fechar determinado curso com avaliação baixa e investir naqueles com melhor avaliação. Segundo Sanches, apesar da crise e de as regras do jogo ainda não estarem determinadas, existem boas perspectivas a longo prazo para o negócio de ensino superior, mas o setor vai demandar cada vez mais eficiência e a tendência é que haja um aumento das aquisições e fusões.

 

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