Corrupção como tema de estudo

Aumenta a oferta de cursos de pós-graduação lato sensu com conteúdos sobre fraude, lavagem de dinheiro e compliance. O objetivo é atender às demandas de mercado oriundas da crise política e econômica

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Destaque

A transformação de um juiz de primeira instância em celebridade nacional dá pistas do que se tornou a Lava Jato. Considerada a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro que o Brasil já teve, a operação tem influenciado os rumos político e econômico e está reverberando em outros setores, como o do ensino superior.

Para atender à demanda por profissionais habilitados a lidar com fraudes, lavagem de dinheiro e compliance, instituições de ensino superior estão apostando em cursos direcionados, especialmente nos departamentos de pós-graduação lato sensu presenciais e a distância. Em Curitiba (PR), epicentro da crise, a Faculdades Opet, lançou em 2015 um programa de MBA em Governança, Risco e Compliance. “Falta gente com conhecimento para atuar preventiva e corretivamente em situações que colocam em risco a imagem e a reputação das empresas”, afirma o advogado e coordenador do curso Carlos Alberto Schmidlin Filho.

Um indício disso vem do levantamento feito pela ICTS Protiviti (consultoria especializada em auditoria interna, serviços em gestão de riscos e compliance) com uma amostra de 642 companhias. O material mostra que 70% das empresas analisadas atendem o setor governamental, mas 67% ainda não mapearam seus riscos de exposição à nova Lei Anticorrupção, que, entre outras coisas, responsabiliza e multa empresas que exercem práticas ilícitas contra a administração pública.

“As leis endureceram e a sociedade cobra uma postura ética das empresas e governos. Nesse sentido, há uma clara necessidade de profissionais qualificados que entendam e impeçam que empresas corram riscos desnecessários, que impeçam e alertem sobre o envolvimento em esquemas fraudulentos, como pagamento de propinas ou outras situações ilícitas”, diz Schmidlin Filho, da Opet.

Para Flávia Schwartz Cardoso, coordenadora e professora no Centro Universitário Celso Lisboa, no Rio de Janeiro, as IES que estão investindo em cursos antenados com os desdobramentos legais da crise política e econômica estão preenchendo uma lacuna do mercado. “Organizações públicas e privadas, cada vez mais, precisarão olhar com atenção para a governança, e, portanto, demandarão profissionais especialistas na área”, afirma. A docente pontua ser indispensável que as especializações comprometidas com essas temáticas promovam discussões sobre conduta e sustentabilidade nas empresas, dentro da pirâmide ambiental, social e de governança.

Bem estruturados
Dividido em dez módulos, o curso de Governança, Risco e Compliance da Opet tem duração de 18 meses. Seu objetivo é desenvolver os conhecimentos técnicos e práticos necessários para profissionais atuarem como especialistas em integridade corporativa, a chamada compliance. Schmidlin Filho destaca que as leis anticorrupção do Brasil e de outros países são um dos principais temas abordados nas aulas. “Procuramos levar material em português e em inglês para os alunos. A maior parte do conteúdo vem de artigos internacionais e da experiência de compliance officers do mundo todo”, diz o coordenador, pontuando que o corpo docente do curso é diverso. “Temos professores do direito, da administração e da contabilidade”, completa.

A reunião de professores de diferentes áreas também foi uma preocupação para a instauração do curso de pós-graduação em Gestão e Investigação de Fraudes na unidade de São Paulo da Trevisan Escola de Negócios. Para o melhor aproveitamento do conteúdo, a metodologia das aulas consiste no ensino dinâmico, enriquecido com experiências não só acadêmicas, mas também de mercado dos professores.

Segundo Renato Almeida Santos, coordenador do curso, 100% do corpo docente tem atuação profissional direta com o tema no seu dia a dia dentro de organizações de diversos ramos do Brasil e do exterior. “Temos professores com especialização em direito, psicologia, digital forense, entrevistas forenses, entre outros”, diz. Para ele, a demanda por cursos como esse tem relação com “o fato de que a sociedade brasileira está quebrando o paradigma do ‘jeitinho’. “Essa mudança requer um tratamento mais pragmático e assertivo sobre os temas fraude e assédio, exigindo uma postura mais profissional das empresas”, afirma.

Os alunos da Trevisan aprendem como se dá a constituição de uma área de investigação de fraudes, passando pelo planejamento da condução de análises de casos de corrupção, apropriação indevida, assédio moral e sexual. O curso também ensina como lidar com o período pós-fraude, considerando os aspectos jurídicos, de gestão de imagem e a continuidade dos negócios.

Na Faculdade Fipecafi, em São Paulo, o tema ‘fraude’ se tornou uma disciplina do MBA a distância em International Financial Reporting Standards (IFRS). Criado em 2016, o curso está em sua terceira turma, é dividido em dez módulos e tem duração de 18 meses. Dentre as 21 disciplinas oferecidas está a de Combate e prevenção ao crime de lavagem de dinheiro. “A disciplina está extremamente relacionada com a questão de mitigar riscos dentro das organizações. Esses riscos são cada vez mais presentes nas sociedades modernas e precisam ser tratados com profissionalismo”, diz o coordenador Edgard Cornacchione.

Uma vez que o curso tem como foco as normas internacionais de contabilidade, a análise de crimes de lavagem de dinheiro entra como estudo de casos concretos. É proposto um entendimento sobre os principais métodos e técnicas para realização do crime e sobre legislação e regulamentações específicas vinculadas ao assunto.

Feedbacks
Para os alunos, as aulas têm sido recompensadoras. Há mais de três anos, Viviane Kwiatkowski atua na área de estruturação de compliance e está matriculada no MBA da Opet. “No atual cenário envolvendo corrupção na administração pública, é fundamental que as empresas possuam em seu quadro funcional profissionais habilitados para lidar com ações administrativas escusas”, afirma.
Já Marcus Vinicius Cardoso, também aluno do curso e com sete anos de carreira na área de consultoria, auditoria e controles internos, conta que o contato com assuntos que não eram do seu domínio, como compliance, fraude e gestão de projetos, ampliou seus horizontes de trabalho. “A formação veio em linha com as necessidades do mercado, e, graças a esse alinhamento, pude assumir um novo desafio em uma nova empresa.”

Por parte das IES, há um esforço para acompanhar e dar feedbacks quanto ao rendimento dos estudantes. Na Trevisan Escola de Negócios, a atenção é para que os conteúdos do curso “agreguem muito valor ao dia a dia profissional” dos alunos. “Os feedbacks são colhidos de forma qualitativa pelos próprios professores e também em visitas em sala de aula feitas pelos coordenadores”, diz Santos, responsável pela pós-graduação em Gestão e Investigação de Fraudes.

No caso da Fipecafi, que oferece um curso não presencial, são feitos acompanhamentos rotineiros pelos administradores do programa, visando ampliar a qualidade e tornar a experiência dos participantes mais apropriada. “Temos monitoramento constante junto aos participantes, não apenas pelos professores tutores, mas também por uma equipe própria para essa finalidade”, diz o coordenador Cornacchione.

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