Pelas ruas de São Paulo

Coordenador do curso de Arquitetura da FAAP desperta nos alunos um olhar mais atento para a cidade e as pessoas que nela habitam

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Pé na rua e mão na massa. Esses são os novos princípios do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAAP, que desde 2017 têm estimulado os alunos a cruzar os portões da faculdade para explorar a cidade – e aprender com ela. “Não que os alunos não saíssem antes. A diferença é que agora isso acontece de forma estruturada”, explica Marcos Costa, coordenador do programa e idealizador da reestruturação curricular.

O objetivo das mudanças é formar profissionais mais sensíveis para os problemas da cidade e para as pessoas que vivem nela, tendo em perspectiva o aumento da urbanização e os desafios decorrentes disso. “Vivemos em um mundo hiperurbanizado, com mais da metade da população vivendo em cidades. As metrópoles gigantescas, com mais de 10 milhões de habitantes, também vão crescer. Isso afeta todas as escalas do trabalho do arquiteto, ainda mais daqueles que estão em uma metrópole como São Paulo”, explica.

Dessa forma, o coordenador e um grupo de professores definiram o que eles chamaram de temas de coordenação horizontal. Cada semestre tem um tema e as disciplinas daquele semestre devem dedicar, no mínimo, 20% de sua carga horária a ele. No 1º período, o tema é “Ocupar o espaço residual” e seu objetivo é levar os estudantes a pensar em novos modos de ocupação para os baixos de viadutos, as rótulas rodoviárias, os edifícios abandonados e as orlas ferroviárias, para citar alguns exemplos. O Minhocão foi eleito o “laboratório” do semestre. “No local, os alunos conseguem materializar o conceito. Estamos dando sentido para a atividade pedagógica, além de qualificar o trabalho do arquiteto. Mesmo aquele que vai atuar como arquiteto de interiores não pode se desvincular desse contexto”, acredita o professor.

“Compartilhar na comunidade” é o nome de outro tema e este levou os alunos a realizar um trabalho no Jardim Panorama, uma ocupação irregular localizada nas imediações do Shopping Cidade Jardim. Com a ajuda de uma ONG, o coordenador e os professores organizaram visitas ao local para que os alunos tivessem contato com uma realidade muito distante da maioria deles e pensassem em soluções para os problemas urbanísticos que encontraram ali. Um deles foi o acesso à estação Berrini da CPTM, localizada na margem oposta do rio Pinheiros. Em linha reta, a travessia daria 300 metros, mas os moradores precisam percorrer até 4 km para chegar ao local.

“Para resolver esse isolamento, os alunos propuseram a construção de uma passarela para dar mais qualidade de vida aos moradores da comunidade. Eles teriam acesso não apenas à estação de trem, mas também a serviços, como farmácias”, detalha Costa. “Nós, arquitetos, temos a tendência de falar mais do que ouvir. Somos mais propositivos. Mas, nessas experimentações que estamos fazendo, estamos invertendo isso. Estamos educando o arquiteto para ouvir mais”, acrescenta o professor.

“Se não fosse por essa vivência, de que outro jeito os estudantes pensariam em soluções para essa comunidade? A percepção deles mudou e isso é visível. A qualificação não é só acadêmica, mas se estende ao campo pessoal. Há um ganho de caráter”, acrescenta.

O bairro do Pari também está servindo de laboratório para os estudantes. A região é conhecida pela abundância de áreas comerciais e por abrigar, historicamente, levas de imigrantes. No começo do século 20, foram os italianos, espanhóis, portugueses e gregos que adotaram o bairro, escolha hoje feita por coreanos, sírios, bolivianos, haitianos e africanos. O desafio dos estudantes é conceber meios de ressignificar espaços que antes eram ocupados por indústrias e hoje se mostram inadequados, obsoletos, desconectados. “São trabalhos que instigam os alunos a repensar a cidade e a si próprios”, finaliza o professor.

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