Certeza de um grande negócio

A educação a distância no ensino superior segue uma tendência irreversível de crescimento, puxada pelas instituições particulares, que investem cada vez mais pesadamente na …

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A educação a distância no ensino superior segue uma tendência irreversível de crescimento, puxada pelas instituições particulares, que investem cada vez mais pesadamente na modalidade

por Patrícia Pereira

162Dados do Censo da Educação Superior 2010 (Inep/MEC) mostram que um em cada seis alunos que ingressam numa graduação no Brasil opta por um curso a distância e quase 15% dos formados já são oriundos desta modalidade de ensino. Mesmo após ligeira queda no número de alunos novos em 2009, o ensino a distância voltou a crescer em 2010, chegando a 930.179 matriculados. Especialistas analisam que o maior impulso da EAD no Brasil vem das instituições privadas de ensino superior, o que deve ser mantido nos próximos anos.

Tal realidade é fruto do contínuo crescimento no interesse de novos alunos nos cursos a distância. Em 2010, aumentaram em 14,4% os ingressantes na EAD, enquanto os novos alunos nos cursos superiores presenciais tiveram queda de 8,2%. O percentual de alunos de EAD entre os ingressantes de graduações no país saiu do patamar de 1,4% em 2002 para 19,3% em 2010, com maior alta registrada, 19,8%, em 2008.

Consolidação
A modalidade de educação a distância em cursos de graduação é um processo relativamente novo no Brasil, com respaldo legal à sua realização ditado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996. Até o ano de 2000, a oferta de graduações a distância ainda era quase insignificante, segundo dados do Censo: havia apenas 1.682 alunos matriculados. Mas o crescimento a partir de então foi se acelerando ano a ano: entre 2004 e 2008, o aumento no número de ingressantes foi sempre igual ou superior a 40% ao ano, chegando ao pico de 407% em 2005. Em 2010, o total de matriculados em graduações a distância chegou a 930.179 estudantes.

Em 2009, o número de ingressantes em graduações a distância caiu 28%. Essa queda no crescimento é associada a mudanças recentes na legislação, que passou a exigir maior rigor das instituições de ensino para o oferecimento de cursos a distância, explica Luciano

Sathler, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). O movimento de restrição à oferta de EAD no ensino superior privado, nos últimos anos, também é salientado por João Vianney, consultor em educação a distância e autor do livro A Universidade Virtual no Brasil. “O MEC desencadeou um processo de perseguição às instituições de 2008 até 2010, impondo termos de saneamento de maneira generalizada, sem considerar os indicadores de qualidade na aprendizagem que as universidades, centros universitários e faculdades apresentavam”, reclama.

Aposta num modelo
No entanto, a queda no número de ingressantes em EAD foi mesmo puxada pelas instituições públicas. De 185.859 novos alunos em 2008, o número de ingressantes nas públicas caiu para 43.186 em 2009. As instituições privadas chegaram a registrar crescimento no número de ingressos, embora bem pouco expressivo quando comparado aos anos anteriores: de 277 mil, em 2008, para 289 mil em 2009. Em 2010, o processo voltou a se repetir: crescimento de 17,5% no número de ingressos nas instituições privadas e declínio de 7,5% nas universidades públicas.

A dificuldade de emplacar a EAD nas instituições públicas, apesar dos esforços do governo, está justamente no modelo adotado. Vianney lembra que, entre 2008 e 2010, o MEC investiu pesadamente no Programa Universidade Aberta do Brasil visando fortalecer as universidades públicas na educação a distância. “O programa entrou em crise porque partia de uma premissa equivocada de criar um modelo único de educação semipresencial no Brasil, ignorando os fundamentos da educação a distância no mundo inteiro que são exatamente os da flexibilidade em tempo e lugar para o aluno estudar e aprender”, entende.

Apesar dos reveses nos últimos anos, os consultores são unânimes em afirmar que as perspectivas para a EAD no Brasil são boas e o crescimento é inevitável. “Há um contingente de mais de 20 milhões de pessoas em idade economicamente ativa que não cursaram a educação superior e devem encontrar na EAD melhores possibilidades de avançar na sua formação”, afirma Sathler.

O crescimento da EAD deve se dar ainda em níveis bem maiores do que o crescimento médio do país, opina Fábio Sanchez, pesquisador na área de educação a distância. Ele acredita no avanço de grandes projetos, com uma concentração de alunos em instituições de grande porte, e na diversificação da oferta. “Haverá cada vez mais cursos para todos os níveis e para todas as classes sociais. Nota-se hoje um grande crescimento das instituições, que investem na nova classe média, com cursos cujas mensalidades giram entre R$ 250,00 e R$ 350,00. Mas já há quem fale em ‘descomoditização’ e comece a investir em cursos um pouco mais caros para atingir um outro nível de estudante. Haverá uma pulverização de ofertas”, prevê Sanchez.

Investimento certeiro
A oferta de EAD está associada a uma série de benefícios para as instituições de ensino. Sathler ressalta a possibilidade de aumentar a abrangência geográfica e alcançar maior escala em termos de número de matriculados, além de atender segmentos da população antes excluídos do acesso à educação superior.

A oportunidade de novos negócios criados a partir do oferecimento da EAD também é citada. “É comum ver uma mesma instituição oferecendo, além dos cursos acadêmicos, outros de cunho corporativo ou preparatórios visando empresas”, exemplifica Sanchez (leia mais sobre oportunidades de negócios na EAD na página 22).

Já para Vianney, a principal vantagem é a modernização dos processos didáticos e dos procedimentos administrativos. “A educação a distância exige precisão, controle, agilidade e atendimento imediato aos estudantes. Os cursos e conteúdos precisam ser elaborados com um ano de antecedência. Os sistemas de tecnologia não podem falhar e os professores precisam aprender a trabalhar com um aluno que busca autonomia intelectual e disciplina. Este movimento contamina a educação presencial e revoluciona as instituições”, diz Vianney.

Numa outra análise, a desvantagem da EAD quando comparada à educação presencial, está na complexidade envolvida no processo de implantação e operação da modalidade. O Censo EAD Brasil 2010, da Abed, indica entre aspectos cruciais para o bom desempenho de cursos a distância lidar com o atendimento de alunos e professores, a capacitação dos docentes para o uso dos recursos tecnológicos e o indispensável suporte tecnológico para todos os envolvidos.

Os custos da EAD, ao contrário do que se possa imaginar, também não são baixos. É preciso fazer altos investimentos em plataformas tecnológicas, na produção de conteúdo específico, no treinamento de professores e na manutenção de polos de apoio presencial. Além disso, é preciso ter uma equipe de tutores para atender à flexibilidade de tempo demandada pelos alunos.

A rentabilidade se torna maior à medida que aumenta a quantidade de alunos em cada curso, já que despesas fixas, como professores e conteúdo pedagógico, ficam diluídas. Por isso, as instituições de ensino superior que concentram seu volume de estudantes em poucos cursos são mais rentáveis.

Infraestrutura exigida
Para oferecer cursos superiores a distância a instituição de ensino precisa ser credenciada pelo MEC. Há dois tipos de credenciamento: o pleno, que permite à instituição ter graduações e pós-graduações em EAD; e o específico para lato sensu. Os cursos a distância são avaliados por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Com relação à infraestrutura, a instituição deve contar com um espaço de coordenação acadêmico-operacional para dar suporte ao planejamento, à produção e à gestão dos cursos a distância. Ele deve ser composto por secretaria acadêmica, salas de coordenação acadêmico-operacional, salas para tutoria, biblioteca e sala de professores. Nestas unidades é obrigatória a presença do coordenador de curso, do coordenador do corpo de tutores, dos professores coordenadores de disciplina, dos tutores a distância, dos auxiliares de secretaria e de profissionais das diferentes tecnologias. A instituição também precisa oferecer polos de apoio presencial. São espaços equipados para a realização de atividades como avaliações, aulas práticas em laboratório, estágios, orientação aos alunos pelos tutores, videoconferências, além de laboratório de informática e biblioteca. A composição da equipe do polo dependerá da natureza e dos projetos pedagógicos dos cursos.

 

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EAD no ensino superior brasileiro
Em 2000
A graduação a distância ainda era muito incipiente no Brasil. Não há registro de nenhum aluno formado por EAD neste ano. Apenas sete instituições públicas ofereciam ao todo dez cursos de graduação a distância, com 1.682 matrículas. Nas 6.430 vagas oferecidas, houve 5.287 ingressantes.Em 2001
O Nordeste saiu na frente, com os primeiros 131 alunos graduados por meio da EAD. Subiu para dez o número de instituições, todas ainda públicas, oferecendo 16 cursos. Ampliam-se as vagas para 6.856 e o número de matrículas chegou a 5.359 – um aumento de 218% – com 6.618 novos ingressantes.

Em 2002
Foi o boom da EAD no Brasil. O número de matrículas subiu 659%,  chegando a 40.714 alunos. Instituições privadas entraram neste mercado, representando nove das 25 instituições que ofereciam cursos de graduação a distância no país.

Em 2003
O destaque do ano foi para o número de concluintes: 4.005, mais do que o dobro do ano anterior. Trinta e sete instituições, 21 públicas e 16 privadas, ofereciam 52 cursos, com 49.911 matrículas. Neste ano, 24.025 novas vagas foram ofertadas e 14.233 alunos ingressaram.

Em 2004
O número de novas vagas oferecidas saltou 370%, chegando a 113.079. Os ingressantes acompanham a subida dessa oferta, passando a 25.006. Neste ano, 45 instituições, 24 públicas e 21 privadas, ofereciam 107 cursos, mais do que o dobro do ano anterior.

Em 2005
As instituições privadas (37) com oferta de EAD superam o número de públicas (24), com 116 e 73 cursos respectivamente. Nesse ano são 114.642 matrículas, com 12.626 alunos concluindo seus cursos em EAD, grande parte (8.135) ainda em universidades públicas.

Em 2006
Segue a tendência de crescimento de todos os índices. O número de instituições passa a ser 77 (44 privadas e 33 públicas), 349 cursos e mais de 207 mil alunos. 813.550 novas vagas são oferecidas com 212.246 ingressantes e 25.804 concluintes, sendo a maior parte nas particulares: 13.658.

Em 2007
O número de vagas oferecidas superou a marca de 1,5 milhão (1.541.070), sendo 1.432.508 em instituições privadas. O Sudeste se consolidou no topo da EAD no Brasil, com 976.076 das vagas ofertadas, seguido pelo Sul, com 372.034. A essa altura são 97 instituições oferecendo 408 cursos.

Em 2008
O ano foi das instituições públicas, que ganharam reforço expressivo na criação de 133 novos cursos (eram 148 em 2007). Ao todo existiam 647 graduações em EAD. O número de instituições públicas (59) também ultrapassou as do setor privado (56).

Em 2009
O número de alunos ingressantes cai 28%, contrariando a tendência de crescimento de anos anteriores: 332.469 novos alunos contra 463.093, em 2008. A queda, porém, ficou restrita às públicas (de 185.859, em 2008, para 43.186 em 2009). As instituições privadas continuam a crescer.

Em 2010
Os índices voltam a subir, puxados especialmente pelas instituições privadas. São 380.328 ingressantes, sendo que nas públicas, esse número declina 7,5%, enquanto nas privadas cresce 17,5%. O número de matrículas alcança quase um milhão (930.179), com 748.577 nas privadas e 181.602 nas públicas.

 

 

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