Castelos de areia

A entrega a uma atividade como quem mergulha em um presente infinito

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O verão chuvoso tinha nos obrigado a permanecer encerrados no pequeno quarto da pousada. Por essa razão não hesitei em aceitar o convite de Moana para irmos juntos à praia assim que o céu anunciou um breve período de estiagem. De minha parte, só queria dar alguns mergulhos nas águas acolhedoras do mar da Bahia, já Moana sonhava, literalmente, com castelos de areia habitados por lânguidas e elegantes princesas. Como a chuva trouxera à beira-mar, com seu furor, troncos e garrafas pet, algas marinhas e latas de cerveja, desisti de meu intento e cedi a seus apelos para que a auxiliasse na edificação de um majestoso palácio capaz de abrigar a imensidão de seus devaneios.

Os primeiros punhados de areia se acumulavam mecanicamente numa espécie de torre em torno da qual a edificação deveria se erigir. Mas em algum momento – cujo início não sei precisar – minhas mãos abandonaram o ritmo mecânico e se juntaram à imaginação para vislumbrar muralhas a circundar o castelo e fossos que lhe ofereceriam proteção; uma ponte móvel a facultar a entrada dos amigos e quatro torres que nos protegeriam de ameaças hostis. E enquanto eu fortificava o edifício, Moana o dotava de rara beleza ao distribuir pequenas gotas de areia cinza que se espalhavam sobre muralhas, torres e cômodos. Livre de lembranças do passado e de expectativas quanto ao futuro, o tempo fluía em um infinito presente até que demos por terminada nossa tarefa: um castelo edificado por mãos humanas habitava, majestoso, a paisagem até então agreste da praia.

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Na manhã seguinte, ao voltar à praia, Moana se precipitou em direção ao local em que havíamos construído o castelo. Voltou furiosa, interrogando em tom desafiador: “De que adianta construir um castelo na areia se a chuva destrói tudo?”. Mas castelos de areia não são feitos para durar, nem para habitar. Nós a eles nos entregamos com paixão, carinho e dedicação simplesmente porque têm o poder de nos envolver profundamente na alegria de sua construção. E o fazemos a despeito de saber que, em breve, deles nada mais restará senão uma vaga recordação. Moana ouviu minhas palavras, sorriu e, apontando o dedo para seu coração, afirmou: “Eles ficam aqui. Na alma”.

Assim também são as boas aulas, pensei comigo. Nós a elas nos entregamos como quem mergulha em um presente infinito. Quando as vivenciamos, seja como aluno ou professor, suspendemos as determinações do passado e as expectativas do futuro. É o próprio ato presente – de construir a torre, interpretar o poema ou resolver a equação – que nos absorve. Pouco importa se a torre jamais for habitada, se o poema não cair na prova, se a resolução da equação não me garantir o emprego, desde que a eles nos entreguemos com afinco, alegria, capricho e atenção. Como crianças que constroem castelos de areia.

São esses momentos mágicos que ficam gravados em cada um de nós. Não porque necessariamente sejam úteis, aplicáveis ou vantajosos. Mas porque nos constituem como sujeitos. Ou porque, como diz Moana, ficam guardados na nossa alma.

 

José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Zaris VII. jsfc@editorasegmento.com.br

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