Carta ao meu amigo Rubem

Valeu a pena teres vivido “na contramão da História” aprendendo a surfar no lixo educacional

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Querido amigo,

Cumpriu-se o meu desejo de não te incluir numa lista de ausentes apenas por escassos meses. Eu já havia publicado algumas cartas, quando tu, o Manoel e o Ariano também partiram. Falando de tempo – essa humana invenção de que te libertaste –, reparo que já decorreram 15 anos sobre um remoto dia de abril, em que, pela primeira vez, partilhaste o cotidiano da Ponte e me convidaste a conhecer educadores do teu (e, agora, nosso) país. Desde então, a minha peregrinação pelo Brasil das escolas não cessa, como não cessa o meu aprender com professores, para os quais és inspiração e que conservam na memória e nas práticas as tuas sábias palavras: Educar não é ensinar matemática, química, português, que essas coisas podem ser aprendidas nos livros e nos computadores. A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. A coisa mais deletéria na relação do professor com o aluno é dar a resposta. Poéticas e cruéis sentenças escreveste, meu amigo, porque a tua vida foi coerente com aquilo que escreveste.

#R#

A tua obra – extensa, diversificada, pautada numa complexa simplicidade – suscita múltiplas leituras. Instigou-me a penetrar mais fundo em contraditórias realidades, observadas por um desarmado olhar europeu, que se surpreendia perante o ostracismo a que alguns pedagogos brasileiros são remetidos. Deste-me a conhecer facetas inesperadas de um Freire, sobre cuja integração na universidade redigiste um “não parecer”. Como ele, sofreste o exílio, no período sombrio dos governos militares, que marcou o desaparecimento das escolas vocacionais e de outros projetos, que poderiam ter alçado a educação brasileira ao nível da excelência.

Sei que te fará feliz saber que uma nova geração de educadores emerge, operando rupturas e não prescindindo do património que tu e outros pedagogos nos legaram. Valeu a pena teres vivido “na contramão da História”, aprendendo a surfar o dilúvio de lixo educacional em que a sociedade e a escola se afundaram. Valeu a pena viver a sina de “romântico-conspirador”, pois confirmaste a existência de seres (que o Brecht diria serem indispensáveis), numa carta, de que ouso transcrever um pequeno excerto: “O bom é sentir que a ‘pia conspiratio’ é muito maior do que se imagina. Há milhares de irmãos e irmãs desconhecidos sonhando o mesmo sonho”.

Na tua derradeira entrevista, reiteraste a afirmação de que a educação no Brasil deveria passar por profundas mudanças. Pois fica sabendo, querido amigo, que o gigante parece ter despertado. Quem nos governa proclamou que seremos uma “pátria educadora”. Talvez os governantes tenham, finalmente, reconhecido o dito de Mandela: A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. Resta saber qual é a educação que os governantes têm em mente. Resta saber se essa proclamação é um grito do Ipiranga educacional, ou um prenúncio de morte, porque o sistema já não aguenta mais promessas e paliativos.

Requiescat in pace, amigo Rubem. Se o teu estatuto de pastor te conferir crédito junto do Pai, pede-Lhe misericórdia para as crianças do Brasil e o perdão daqueles educadores que recusam escutar-te.

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