Brincando com o alfabeto

Obras de Millôr Fernandes e Paulo Leminski dão novos significados para as letras e as palavras

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Ilustração de Ziraldo para O bicho alfabeto

Livros de poesia não são exatamente populares, e raros são aqueles que conseguem chegar ao topo dos mais vendidos, lista atualmente dominada por títulos da chamada literatura distópica, o gênero fetiche entre os adolescentes, e tantos outros assinados por autores celebridades. Mas Toda Poesia, de Paulo Leminski, conseguiu chegar lá e, desde que foi lançado, vendeu milhares de cópias e virou um fenômeno editorial. Uma parte disso se explica pelo fato de que Leminski, que gostava de se definir como um “boia-fria do texto” e também como um “bandido que sabia latim”, transitou como poucos entre o erudito e o pop.

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Poeta, romancista, biógrafo, tradutor, músico e professor de cursinho, o curitibano também se dedicou ao gênero infantil, como provam os poemas de O bicho alfabeto. Selecionados a partir de Toda poesia, eles ganharam uma edição própria com direito a ilustrações de Ziraldo. As palavras e frases que nascem por onde passa o bicho alfabeto nos falam de chuvas de estrelas que deixam poças de letras no papel, de tardes de vento em que até as árvores querem vir para dentro e de outras paisagens e situações tornadas possíveis nas brincadeiras do poeta com as formas e os sentidos das palavras.

E como diz Arnaldo Antunes, que faz a apresentação do livro, Ziraldo também mostra que tem o “bicho cor, que pode conversar com o bicho alfabeto com tanta intimidade que até o branco do papel passa a fazer sentido. Os bichos estão soltos”.

Também publicado recentemente, o ABC do Millôr não brinca com o modo de usar do alfabeto, mas sim com a forma das letras e ao que elas nos remetem. O ‘A’, por exemplo, é uma letra com sótão, enquanto o ‘B’ é um ‘1’ que se apaixonou por um ‘3’. O ‘b’ minúsculo, por sua vez, é uma letra que ficou grávida. Essa é a trilha pela qual segue o escritor até chegar à letra ‘Z’, o “caminho mais curto entre dois bares depois da bebida”. Com o humor que lhe é característico, a obra é resultado de 30 anos de trabalho, ao longo dos quais o escritor carioca a aperfeiçoou.

Assim como no livro de Leminski, as ilustrações deste também são de grande valia. Assinadas por Ana Terra, elas têm uma ótima comunicação com o texto e ajudam a realçar aquilo que Millôr enxergava nas letras.

Outras leituras

Noções de coisas, de Darcy Ribeiro (Global, 80 págs., R$ 37)
Nessa obra, Darcy Ribeiro se propõe a explicar às crianças “perguntonas” tudo o que sabe, tim-tim por tim-tim. E nesse “tudo o que sei” entram a utilidade das doenças fatais, os micróbios, o fim do mundo, a cultura, o dinheiro, o sistema solar e outros tópicos, todos contados de forma didática pelo professor que só pede uma coisa: “não me tratem de tio”.

Este não é um livro de princesas, de Blandina Franco (Peirópolis, 40 págs., R$36)
Bem-humorada, a obra conta a história de uma garota que não é uma princesa e tampouco habita um castelo localizado um reino distante. Pelo contrário, ela mora logo ali, virando a esquina, mas que mesmo assim viveu feliz para sempre. Tão boa quanto a história é a forma como a narrativa foi registrada: em bordados, num digno trabalho de princesas.

A lógica do macaco, de Anna Flora (Editora 34,50 págs., R$ 26)
No Reino Sem Solução, onde um rei autoritário guarda todo o dinheiro para si e mantém a população em péssimas condições de vida, a lógica do macaco Matias fará dele um verdadeiro herói. Mas só ela não bastará: antes disso, ele e seus amigos terão de descobrir a magia dos livros abandonados na biblioteca do reino.

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