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Depoimentos de professores sobre as dificuldades do início da profissão

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“Mesmo com dez anos de experiência, voltei a me sentir novata”
Sara Villas, 33 anos, professora de história no fundamental II no colégio Neusa Rocha, em Belo Horizonte





“Eu sempre quis dar aula porque minha experiência escolar foi muito marcante. Fiz o estágio com a turma da alfabetização em uma escola federal, dentro da universidade onde estudei. Quando me formei, me inscrevi para dar aula na rede estadual sem passar por concurso. Fui chamada para um contrato de seis meses e me colocaram em uma turma de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Tinha de ensinar em seis meses o conteúdo de um ano do ensino médio. Por mais que você faça estágio e já tenha vivido a situação antes, a sua turma é a sua turma. Você é o centro das atenções, tem de estar o tempo todo ligado, administrando conflitos, tendo de saber as respostas e explicando dez vezes a mesma coisa. A segunda experiência foi em uma escola estadual no Morro do Papagaio, uma favela grande de Belo Horizonte. Cheguei no meio do ano, não tinha relação nenhuma com a turma. Foi muito difícil. Quando a gente pega uma turma nova é fundamental estabelecer essa relação. Eu faço uma dinâmica logo de começo, gosto de chamar cada aluno pelo nome, quero que ele se sinta especial. Mas, naquele momento, eu ainda nem tinha criado um modo próprio de dar aula. Somente quando fui contratada naquela mesma escola federal onde estagiei é que me senti uma professora de verdade pela primeira vez. Apesar de ser uma escola referência de ensino público, eu não tive muita orientação pedagógica e nem espaço para tirar dúvidas. Não sabia qual conteúdo deveria priorizar. Por outro lado, tinha liberdade para usar o material que eu quisesse. Depois disso, passei muitos anos trabalhando no Projovem, programa do governo federal, fiz mestrado e fui chamada para formar professores da rede pública. Foi a oportunidade de ver o meu ofício sob outro ângulo. Hoje, estou de volta à sala de aula. É a primeira vez que dou aula em escola particular e, mesmo com dez anos de experiência, voltei a me sentir novata. Fui muito bem recebida e orientada, todo início de etapa passo por uma avaliação junto à coordenadora para ver se cumpri o que me havia proposto, o que posso melhorar e o que fazer no ciclo que se inicia. É muito bom saber que tem alguém comigo, que me dá respaldo. Afinal, embora estejamos sempre rodeados de alunos, o trabalho do professor é muito solitário.”








“Um ano e meio depois, estou encontrando meu caminho”
Gabriel Prado, 27 anos, professor de matemática no ensino médio do colégio Oswald de Andrade, em São Paulo





Gustavo Morita
“Descobri que queria ser professor na faculdade, ao me dar conta de que eu não estava gostando do bacharelado. Quando comecei a dar aulas particulares confirmei esse desejo. Todas as minhas experiências durante essa fase foram fundamentais para encarar meu primeiro ano como professor, em 2011. Estagiei no mesmo colégio onde estudei, acompanhava o professor que tinha sido meu mestre quando aluno. Aprendi quatro vezes mais com ele que na faculdade. Também fui plantonista em cursinho e assistente de coordenação em um colégio particular. O nome bonito, na verdade, significava que eu tinha de apagar incêndios, como levar alunos na coordenação e substituir professor – o que foi um treino e tanto. No meu primeiro dia, no Oswald de Andrade, não tive medo dos alunos ou da situação em si. O que mais me deixou apreensivo foi saber que eu era responsável pelo curso de um ano de duração para turmas de primeiro e segundo ano do ensino médio. A direção me recebeu muito bem. Isso diminui muito o medo de errar. Seria, sim, interessante ter alguém para nos acompanhar mais de perto nessa etapa inicial. Principalmente alguém da sua disciplina, para ajudar com referências didáticas daquela matéria, mas não acho que isso seja prioridade. Mais importante é o professor se sentir acolhido pela direção e pelos colegas, e ficar livre para criar seu próprio estilo de dar aula. Não existe fórmula, cada um acha seu caminho. Um ano e meio depois, acho que estou encontrando o meu. Tenho muito a melhorar, claro, mas já me sinto mais seguro”.



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